DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Tom Lisboa

Thomas Mann: trecho do livro A Montanha Mágica, 1924.

Thomas Mann: trecho do livro A Montanha Mágica, 1924.

Sobre as fotografias que um livro traz 

Durante os sete anos em que tive o Cineclube Contramão, promovi a exibição de alguns filmes vinculada ao que chamei “ciclos de discussão”. Lembro que um dos mais controversos foi o que chamei de Documentário Desenhado. Era a época de Persépolis (2007/FRA-USA), de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi e Valsa com Bashir (2008/ISR), de Ari Folman. Durante o debate eu fazia questão de propor pelo menos duas perguntas que geravam reações bem distintas: “É possível chamar um filme de animação de documentário? Vocês acham que um livro é mais “confiável” como documento que um desenho?” Se para a primeira a plateia se dividia em argumentações, em relação a segunda os presentes eram categóricos em tomar o lado do livro. Só que eu tinha uma terceira pergunta programada: mas como vocês acreditam mais em livro se as letras também são desenhos sobre papel? Silêncio na sala.

Em minha produção fotográfica faço uso recorrente do desenho das palavras para pensar o processo de construção das imagens técnicas. Foi assim com as polaroides (in)visíveis, caractere(s): retratos e preto e branco e brinquedografia, por exemplo. Desta forma, quando penso sobre “o que é fotografia”, minhas ideias se (con)fundem porque as lembranças imagéticas que me habitam desconhecem suporte físico. Impossibilitado de estar circundado pelas fotos e textos que tenho contato, minha memória amalgama fontes diversas em um mesmo substrato. Chego às vezes a ter dúvida sobre a origem de determinadas situações, coisas e pessoas. Será que foram vistas ou lidas?

Caractere(s) teve origem a partir de um hábito que cultivo há alguns anos: marcar na lateral do livro os “retratos escritos” dos personagens. Nesta galeria que acumula seres imaginados, um retrato ganhou destaque recentemente quando li A Montanha Mágica, de Thomas Mann:

“[Hans Castorp] Deixou-se cair numa cadeira e tirou do bolso do casaco a lembrança que recebera, o penhor que desta vez não consistia em lasquinhas de madeira avermelhada, mas sim numa chapinha de vidro, tarjada de preto, que devia ser mantida contra a luz para que se visse alguma coisa: o retrato interno de Clawdia que não mostrava o rosto, mas sim o esqueleto delgado do seu busto, envolto, de modo transparente e espectral, na forma suave da carne, e que deixava perceber também os órgãos da  cavidade torácica”.

Nesta simbiose entre palavra e imagem, percebemos que Mann pincela uma cena que esmiúça nossas relações com o fotográfico. Ele começa pelas sensações. Temos a vertigem do “deixar-se cair” em contemplação; a sutil revelação do “tirar do bolso do casaco” que mostra ao leitor aquilo que o personagem guardava junto ao peito. No entanto, quando a imagem surge de fato, ela é quase invisível e “devia ser mantida contra a luz para que se visse alguma coisa”. Em um romance onde alguns dos principais elementos são o tempo e a enfermidade, é interessante esta alegoria de “vermos” a estrutura óssea de Clawdia ao invés de sua fisionomia. O esqueleto é o que nosso corpo possui de mais longevo e puro. Lembro de uma frase de Julio Cortázar que diz: “Depois de tudo, apodrecer significa terminar com a impureza dos compostos e devolver os seus direitos ao sódio, ao magnésio, ao carbono, quimicamente puros”.

Acredito na potência visual das palavras assim como admiro a sutileza com que as imagens são capazes de articular discursos. Na verdade, me parecem conceitos indissociáveis desde a Criação. Se no início era o verbo, ele trazia consigo a luz. Aliás, de tão próximos, o ser humano inventou a fotografia, uma linguagem onde a luz é a própria escrita.

Referências:

MANN, Thomas. A montanha mágica. São Paulo: Círculo do livro, 2006.

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Tom Lisboa é artista, atua como fotógrafo e professor de cinema e fotografia. Recebeu os prêmios Funarte Marc Ferrez de Fotografia (2012) e o Prêmio Porto Seguro de Fotografia (2005). É goiano, vive e trabalha em Curitiba desde 1987.