DOBRAS VISUAIS

Eduardo Costa e o arquivo fotográfico do IPHAN

Eduardo Costa: Arquivo Fotográfico – Superintendência do IPHAN, São Paulo, 23 de outubro de 2013.

Eduardo Costa: Arquivo Fotográfico – Superintendência do IPHAN, São Paulo, 23/10/2013.

Em entrevista com a arquiteta Lia Motta – coordenadora da Coordenação-Geral de Pesquisa, Documentação e Referência, COPEDOC, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN – ela me revelou um caso bastante emblemático do lugar da fotografia para o patrimônio no Brasil.

Um proprietário teria encontrado uma velha fotografia de sua residência, tombada anos antes pelo IPHAN, e, imediatamente, prestou-se a encaminha-la à instituição. O fato é que a fotografia revelava um novo aspecto de sua residência, indicando que, em seu estado original – atestado pela velha fotografia – sua propriedade continha uma janela que não havia sido considerada no restauro realizado pelo IPHAN. Os técnicos consentiram com o problema e passaram a analisar o processo de tombamento, fotografias e outros documentos ligados àquela residência, considerando a possibilidade de um novo restauro, com a abertura de tal janela. Depois de uma avaliação criteriosa, envolvendo arquitetos, historiadores e fotógrafos, identificou-se que se tratava de uma fotografia que havia sido manipulada intencionalmente pelo proprietário, desejoso de uma nova janela para a sua residência.

Se a intenção criminosa por traz da ação de tal proprietário é mais do que evidente, por outro lado, este caso revela o valor atribuído à fotografia e ao Arquivo Fotográfico do IPHAN, na consolidação de um patrimônio nacional. Mesmo que posteriormente tenha-se identificado que se tratava de uma fotografia falsa, num primeiro momento, confiou-se à fotografia a condição de documento ou prova de um estado original a ser restaurado e preservado. Esta atribuição à fotografia é ainda hoje mantida, sendo que, ao longo de suas quase oito décadas de atividades, o IPHAN chegou a demolir campanários, abrir portas ou reconstruir cômodos a partir de evidências colhidas em velhas fotografias.

Paolo Gasparini: O Chefe da Divisão de Estudos e Tombamentos, o Arquiteto Lúcio Costa,  na repartição do IPHAN com fotografias sobre a mesa de trabalho, s/d.

Paolo Gasparini: O Chefe da Divisão de Estudos e Tombamentos, o Arquiteto Lúcio Costa, na repartição do IPHAN com fotografias sobre a mesa de trabalho, s/d.

Em ‘Arquivo, Poder, Memória: Herman Hugo Graeser e o Arquivo Fotográfico do IPHAN’ , defende-se a tese de que de este Instituto estruturou-se em torno da fotografia e de seu Arquivo Fotográfico. Trata-se, essencialmente, de uma instituição calcada numa cultura do fotográfico, numa Cultura Visual. Não por menos, seu arquivo contêm milhares de fotografias – de daguerreótipos à suportes digitais – realizadas por centenas de fotógrafos amadores, profissionais, jornais, revistas, prefeituras, radio difusoras e tantos outros anônimos. Júlio Abe Wakahara, Dora Monteiro; Edgar Cardoso Antunes; Jurema Eis Arnaut; Jair Brandão; Eurico Antônio Calvente; CLAP; Alberto S. Da Cruz; E. Falcão; Luís de Castro; Voltaire Frga; A. Kiss; Hans Peter Lange; Renato Morgado; Carlos Moskovics; Eduard Schultz; Paul Stille; Vosylius; Pinheiro; Benício Dias; Marcel Gautherot; Pierre Verger; Erich Hess; Herman Hugo Graeser; são apenas alguns dos mais de 350 nomes de fotógrafos com autoria identificada no arquivo, o que representa apenas 40% de todo o conjunto. Este brevíssimo panorama do Arquivo Fotográfico do IPHAN sinaliza para o fato de que grande parte dos fotógrafos atuantes no Brasil, em meados do século XX, contribuíram de alguma forma com o IPHAN.

O IPHAN é, certamente, uma instituição central para a História da Fotografia no Brasil, sendo que, desde sua criação, em 1937, tomou a fotografia como instrumento central para sua atividade, atribuindo-lhe o estatuto de prova das características físicas dos bens a serem tombados e preservados. Não por menos, aos fotógrafos contratados, atribuía-se a função de perito em belas artes e não a de fotógrafo.

Pierre Verger: Casa de Câmara e Cadeira, Rio de Contas da Bahia, Arquivo Fotográfico do IPHAN (detalhe de ficha de cartolina, onde se encontram três fotos coladas, todas relativas a este bem - Foto: 36.715.), 1951.

Pierre Verger: Casa de Câmara e Cadeira, Rio de Contas da Bahia, Arquivo Fotográfico do IPHAN (detalhe de ficha de cartolina, onde se encontram três fotos coladas, todas relativas a este bem – Foto: 36.715.), 1951.

A fotografia do IPHAN é também reconhecida pelo seu valor artístico, o que, em grande medida, é fruto da mobilização dos fotógrafos a partir de meados da década de 1970, quando o direito de autor se tornou lei no Brasil. Não por menos, instituições como FUNARTE (1975), INFoto (1984) e CCPF (1984) nasceram do interior do Governo Federal, modificando o lugar da fotografia em nossa cultura, assim como as suas atribuições no interior do IPHAN. Esta tese não se furta a esta transformação, que acompanha certas mudanças na própria concepção de patrimônio. Mas, por outro lado, localiza a fotografia frente aos protocolos necessários a este serviço de peritagem, essencial aos processos jurídicos de tombamento.

Neste sentido, uma série de instruções encaminhadas a estes fotógrafos podem ser reconhecidas. Muitas vezes, receberam pautas, recomendações e croquis, indicando o que deveria ser documentando e em quais condições de luz e enquadramento. Num caso emblemático encaminhado ao fotógrafo Marcel Gautherot, o arquiteto Lúcio Costa chega a indicar em qual posição deveria estar a objetiva da câmera fotográfica, para não deformar certas características de uma escultura de Aleijadinho. Em processo semelhante, Mário de Andrade, então superintendente do IPHAN em São Paulo, rejeita 90% de um trabalho realizado pelo experiente fotógrafo Herman Hugo Graeser, solicitando que o fizesse novamente, em acordo com as instruções combinadas.

Esta tese tratou ainda de reconhecer o lugar desta Cultura Visual – com destaque ao fotográfico – num cenário mundial especialmente ligado à emergência da História da Arte, enquanto disciplina, assim como à organização de uma rede de instituições ligadas à preservação dos bens e da cultura dos países. Entre Europa e América, há uma verdadeira corrida aos arquivos fotográficos, na virada do século XIX para o XX, com produções e aquisições de grande volume entre as nações. Neste sentido, o Arquivo Fotográfico do IPHAN se apresenta como peça central da formação da história do Brasil, tendo a cultura e sua visualidade como elementos essenciais à narrativa moderna.

Para ler:

Arquivo, poder, memória: Herman Hugo Graeser e o arquivo fotográfico do IPHAN

Tese de Doutorado em História.

Universidade Estadual de Campinas, 2015.

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Eduardo Costa é pós-doutorando no IFCH-Unicamp, onde também defendeu seu mestrado e doutorado. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Unicamp e realizou doutorado-sanduíche na Universidade de Coimbra (2011-2012 – Portugal). Vem trabalhando com temas ligado à cultura visual, história intelectual, patrimônio e arquitetura, tendo publicado diversos artigos sobre esses temas. Foi vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, em 2010, e do ProAC/14 – 2009, da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo.