DOBRAS VISUAIS

A trégua | Mario Benedetti

O que é fotografia?

Domingo, 24 de fevereiro

Não há nenhum acontecimento. O encontro com Vignale me deixou uma obsessão: recordar Isabel. Já não se trata de conseguir uma imagem através das anedotas familiares, das fotografias, de algum traço de Esteban ou de Blanca. Conheço todos os seus dados, mas não quero sabe-los de segunda mão, e sim recordá-los diretamente, vê-los com todo detalhe à minha frente tal como agora vejo meu rosto no espelho. E não consigo. Sei que tinha olhos verdes, mas não consegui me sentir em frente ao seu olhar. (…)

Sexta-feira, 15 de março

Mario Vignale foi me visitar no escritório. Quer que eu vá a sua casa na semana que vem. Diz que encontrou fotos antigas em que nós todos aparecemos. O grande cretino não as trouxe consigo. Desde já, constituem o preço de minha aceitação. Aceitei, claro. Quem não se sente atraído pelo próprio passado? (…)

Quinta-feira, 21 de março

Foi Vignale quem nos resgatou a todos de semelhante divagação ginecológica e contraceptiva para se referir ao que constituía a atração máxima daquela noite: a exibição das célebres fotos do museu. Ele as guardava em um envelope verde, fabricado de modo caseiro com papel de embrulho, sobre o qual havia escrito com letras de forma: “Fotografias de Martín Santomé”. Evidentemente, o envelope era velho, mas a legenda bastante recente. Na primeira foto apareciam quatro pessoas em frente à casa da rua Brandzen. Não foi necessário que Vignale me dissesse nada: a o ver a fotografia, minha memória pareceu se sacudir e acusou o golpe daquela imagem amarelada que havia sido sépia. Os que estavam junto à porta eram minha mãe, uma vizinha que depois foi morar na Espanha, meu pai e eu. Meu aspecto era incrivelmente deselegante e ridículo. “Essa foto, foi você quem tirou?” perguntei a Vignale. “Está louco? Nunca tive coragem de empunhar uma máquina fotográfica ou um revólver. (…)

Domingo, 7 de abril

Será por isso, talvez, que se sou mesmo incapaz de reconstituir (com minhas próprias imagens, não com fotografias ou lembranças de lembranças) o rosto de Isabel, posso, em contrapartida, voltar a sentir em minhas mãos, todas as vezes que necessite disso, o toque particular de sua cintura, seu ventre, de suas panturrilhas, de seus seios. Por que as palmas das minhas mãos têm uma memória mais fiel do que minha memória?  (…)

Será que Avellaneda em algum momento se esquecerá assim de mim? Eis aqui o mistério: antes de começar a se esquecer, precisa lembrar, começar a se lembrar.  (…)

Domingo, 4 de agosto

Esta manha, abri uma gaveta do armário pequeno e se esparramou pelo chão uma quantidade imprevista de fotos, recortes, cartas, recibos anotações. Então vi um papel de cor indefinida (é provável que em sua origem tenha sido verde, mas agora trazia umas manchas escuras, a tinta escorria, por antigas umidades para sempre ressecadas). Até aquele momento, não me recordava em absoluto de sua existência, mas enquanto o olhava reconheci-o como sendo uma carta de Isabel.  (…)

Domingo, 25 de agosto

Trouxe-me fotos de sua infância, de sua família, de seu mundo. É uma prova de amor, não é verdade? Foi uma criança magrinha, de olhos esbugalhados, de cabelo escuro e liso. Filha única. Eu também fui filho único. E não é fácil, a gente acaba por se sentir desamparado. Há uma foto deliciosa em que aparece um enorme pastor alemão, e o animal a olha com ar de proteção. (…) Há uma foto em que está com os pais, de quando tinha doze anos. A partir dessa imagem eu também me animo a construir minha impressão desse casamento singular, harmônico, diferente.  (…)

Quinta-feira, 13 de fevereiro

Logo me virei de lado e fiquei de frente para uma fotografia de Avellaneda dana que não estava ali na quinta passada. O golpe foi demasiado repentino, demasiado brutal. A mãe me observava e seus olhos fizeram um bom registro de meu estupor.  (…)

Domingo, 16 de fevereiro

Esta manhã fui buscar o traje. O senhor Avellaneda terminava de passa-lo. A fotografia enchia a peça, e não pude deixar de olhá-la. “É minha filha”, ele disse, “minha única filha”. Não sei o que lhe respondi nem me importa recordar. “Morreu faz pouco.” (…) O certo é que ela agora não está mais aqui e eu fiquei com esse peso no peito, com essas palavras não-ditas que poderiam ter sido minha salvação. Por um momento, deixou de falar e contemplou a foto. “Muitas vezes pensei que ela não havia herdado nenhum de meus traços. O senhor reconhece algum?” “No conjunto, tem um quê do senhor”, menti. “Pode ser, Mas na alma sim, era como eu. Melhor dizendo, como eu fui. Porque agora me sinto vencido e, quando alguém se deixa vencer, vai se deformando, vai se convertendo em uma grosseira paródia de si mesmo.  (…)

Sexta-feira, 28 de fevereiro

Ela havia deixado o carnê para que registrássemos o número de sua ficha pessoal. Coloquei-o no bolso e aqui está. A foto deve ter uns cinco anos, mas há quarto meses ela era mais linda.  (…)

Mario Benedetti em A trégua. São Paulo: L&PM, 2008.

Para conhecer mais: Asa Lucander

Asa Lucander: Lost Property,2015.

Asa Lucander: Lost Property,2015.