DOBRAS VISUAIS

Info

14 nov 2015
Provocações

Tags

,

Recontro, por Galciani Neves

Recontro: 2015

Vê. Agora acredita. É um livro. Está aberto e é um livro. Você queria que fosse um livro de lugares, como os diários dos viajantes, como as cartas náuticas apontando nortes. Este livro tem um tanto disso, chupou para dentro de si os lugares por onde passou. Agora estão aí. Plasmando, assentando-se, esparramando-se com tintas em páginas. E a distinção, antes mencionada por você como algo que não seria livro, agora é ela mesma a definição deste livro como lugar. O que você estava buscando nessa longa página? Imagino que não seriam calendários com dias de pouso, notas de peregrinações, garatujas feitas de frente para janelas de trem. Melhor que esqueça. Mais que isso, nós podemos avistar as imagens de todos os dias de sua duração. É possível perceber que elas foram examinadas, seus lugares foram catalogados, para o caso de haver coisas que escapassem pelo simples fato de a imagem ter sido construída no local. Aliás, é ela mesma, cada imagem, a construção de cada lugar. Vejamos, então, o processo de construção do lugar e, ao certo, da imagem. Creio que seja muito significativo atentar-se à ideia de que cada página vem de um lugar. E que cada lugar tem uma topografia chamada encontro. Veja a secção de tempo e espaço que se formula. A imagem e, portanto, o lugar está aí. A partir de um que olha o outro e o ar que circula estes dois. Não esqueça que o que está atrás de cada um também os afeta na percepção deste espaço e, portanto, deste encontro. Um mundo presente. Recorte de espaços. Restaram desse embate o lugar que agora vemos. A narradora desses lugares deparou-se com uma conjunção histórica, nada jamais irá se repetir, nem as vistas dos transeuntes, nem os recortes de tempo, nem a indicação dos seus silêncios. Ela disse: dimensões descomunais de lugares até para mim que em todos eles estive. E aquele tempo presente vem agora como desaparecimento. É por esse motivo que devemos pensar a narradora em trânsito. Ela sabia que sua tarefa era seguir adiante apesar das situações que se apresentavam. Para ela, a montagem da narrativa do livro seria algo a se percorrer, retirada da ação efetiva de quem ela avistou. Assim, ela, lugar, e aquele tempo presente (dimensão contraditória) inauguram este livro.

_____

Texto para Ocupação Oficina Cultural Oswald de Andrade, 2015