DOBRAS VISUAIS

Guichês | Nomes

Jornal de Borda #2, 2015.

Jornal de Borda #2, 2015.

Anotações sistemáticas sobre artistas cujos nomes não memorizo, não sei pronunciar ou sequer escrever, ou outros ainda que são referências destes. Todos mantenho como registro no meu caderno de notas a partir dessas descrições como forma de acessá-los.

# aquela que desenha seu percurso com lápis branco sobre papel branco ~ a parede mais linda da exposição

# artista libanesa que lê sobre imagens ainda latentes em supostos filmes não revelados

# pintor realista ~ cenas urbanas que lembram as primeiras fotos com 35mm

# japonesa que faz miniaturas em papel – lembra a maquete da cidade na exposição universal de Nova York de 64

# aquele que como o espanhol aponta o contexto histórico da guerra na legenda de uma imagem de paisagem

# francês que apaga o livro deixando apenas a palavra liberdade

# africano (senegalês?) que coleta o lixo de estúdios 3×4 e mostra somente o fora de campo da fotografia de documento – revela o gesto que monta a imagem ~ lembra a montagem da carte de visite

# artista que faz pinturas recortadas de corpos – algum filtro do Instagram foi feito a partir dele

# aquele de planta raios

# pintor (francês/belga?) das cenas de zoológico ~ lembrar dos meus dioramas

# ele faz imagens que lembram os primeiros manuais de técnica fotográfica ~ para evidenciar o procedimento

# o chinês da bienal, aquele das performances de um ano

# o que simula o próprio enterro ~ o mesmo do caça-palavras – tem o outro que encena o velório do artista

# a guatemalteca com a escavadeira ~ cova rasa – lembrei da pintura do inglês com a freira cavando a cova ~ o olhar que atravessa a história

# coleta sonhos ~ deve ter lido o BGA…

# moçambicano que coteja as fotografias dos bancos de imagem com as do arquivo oficial – erros e manipulações

# aquele dos dois emails que ficam permanentemente mandando mensagens de férias um para o outro

# o americano das paisagens mortas

# artista argentina que escreve nas paredes da Casa Rosada os nomes dos desaparecidos políticos

# aquele que constrói formas geométricas inscritas nos fragmentos da paisagem ~ um jogo invertido da perspectivista monocular

# mexicano que amarra fio de lã nas pessoas de seu circuito afetivo ~ deixa um rastro de afetos no chão da sala

# faz esculturas com os objetos deixados pelos mortos – ideia de retrato que lembra o Arman

# chileno que desmonta o álbum de família – expõe as páginas em que seu pai retira as fotos da mãe desaparecida em função da ditadura – ele nunca a encontra

# o que questiona o sistema da arte e inventa artistas

# a que trabalha com os conflitos de fronteira no Oriente Médio ~ cria muros-monumentos

# o do corpo gravado pela luz – parece aquele dos anos 60

# o que lacra a própria merda na lata

# artista que se insere nas imagens históricas do seu país ~ tem uma série desse tipo de ação

# mais um que trabalha o arquivo ~ o mal do arquivo no sentido literal ou pensar com Huyssen

# aquela que não diferencia a obra no livro ou na parede ~ a obra se sobrepõe ao espaço de exposição/circulação

# a alemã que raqueia as imagens dos sistemas de segurança das fronteiras da União Europeia ~ parece um diálogo com os desenhos dos navios negreiros

# artista da página 63 do livro de arte contemporânea ~ qual livro?

# aquele que fotografa bolas de basquete flutuando no tanque ~ cafona

# artista que lê na praça as cartas devolvidas ao correio ~ destinatários não encontrados

# americana que lava as escadas e vitrines da exposição fazendo uma analogia com os trabalhos frequentemente associados às mulheres ~ ação marcada por gestos repetidos historicamente

# aquele que faz percursos a pé pela cidade de modo a desenhar sobre o mapa figuras abstratas

# artista que atravessa os dois campos – arte e literatura – escreve sobre o sistema da arte no contemporâneo ~ tem o outro que monta um livrinho ensinando a ser fotógrafo contemporâneo, um passo a passo

# o que sai navegando e encontra a morte

Jornal de Borda #2, 2015.

Jornal de Borda #2, 2015.

Jornal de Borda é uma publicação semestral de arte. Idealizado por Fernanda Grigolin, com projeto gráfico de Lila Botter, o jornal conta com a participação de artistas, curadores e pesquisadores como Fábio Morais, Felipe Russo, Galciani Neves, Lívia Aquino, Paula Borghi e Raquel Stolf.