DOBRAS VISUAIS

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25 nov 2015
Pensando

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Entrevista, Revista Old

– Sua formação inicial é em psicologia, mas logo você migrou para as artes, com um foco especial na fotografia. Como se deu essa mudança? O que te moveu a concentrar seus estudos na fotografia?

Minha aproximação se deu primeiramente com a fotografia, depois com a arte. Logo após o término da graduação eu me mudei para São Paulo e isso acarretou muitas mudanças, entre elas uma busca por outro campo de atuação. Trabalhei por três anos em uma produtora de animação e lá percebi algum interesse em fotografia quando comecei a operar os programas de edição, como o photoshop. A partir dessa experiência fui estudar fotografia em cursos livres no Senac, onde atuei profissionalmente por dez anos, inicialmente como assistente e depois como professora. O que me moveu e me move ainda é esse espaço de aprendizagem, o lugar da pesquisa que se desdobra em distintas práticas e que produz sentidos na minha trajetória.

– Você foi uma das contempladas com o Prêmio Marc Ferrez deste ano, que possibilitará a publicação da sua pesquisa de doutorado. Nos conte um pouco sobre sua pesquisa e sobre o livro que será publicado.

Na tese Picture Ahead: a Kodak e a construção de um turista-fotógrafo, que eu defendi no ano passado no Instituto de Artes da Unicamp, com apoio da Fapesp, eu trato da fotografia do amador e sua construção histórica no campo do turismo. Reflito principalmente sobre a criação de práticas sociais e sobre as transformações na percepção da experiência da viagem entre fins dos séculos XIX e XX.

Eu nomeio como turista-fotógrafo um sujeito que comporta tanto o turista quanto o fotógrafo amador, mas se constitui, sobretudo, no entrelaçamento dos dois já que se encontram implicados na compreensão do uso do tempo livre, dos deslocamentos no mundo moderno e de rituais de afirmação social com base na demonstração de poder econômico e conhecimento.

Parto de uma relação entre a fotografia e o turismo operando como dispositivo, conceito elaborado por Michel Foucault.
Essa dupla atua em conjunto ao logo desse período criando discursos e delimitando modos de ação relacionados aos registros da viagem, como o desejo de conhecer e guardar os lugares e, com isso, apoderar-se deles como conquistas.

Desse modo, eu chego na Kodak como uma peça
fundamental no processo de popularização da fotografia no mundo e, consequentemente, na
construção dos modos de produzir, consumir e compreender imagens. Por meio da publicidade, de estratégias de negócio, da elaboração de um sistema educativo e de ampla cadeia de produção, a Kodak atua na criação de valores relativos à importância do registro da viagem e destaca o fato de que sua rememoração pode ser obra do amador.
Reflito, portanto, como o turista-fotógrafo torna-se um sujeito produtor de parte do mundo-imagem, pelo desejo de posse e status que a fotografia e o turismo carregam, mas,
especialmente, pela busca de uma fotografia que está sempre a sua espera. Susan Sontag em Sobre fotografia já apontava nos anos 1970 a ideia de mundo-imagem e o lado predatório da fotografia na sua relação com o turismo.

A proposição para o Prêmio Marc Ferrez envolve a publicação da tese em livro. Estou editando o formato, limpando o que é especifico para uma pesquisa acadêmica e adaptando para o livro. Também propus um posfácio já que a tese tem um foco na Modernidade, assim, a ideia é poder refletir um pouco como o debate que atravessa aquele momento respinga na atualidade.

– No seu doutorado você pesquisa a relação entre a Kodak e criação da figura turista-fotógrafo. Você vê essa relação profundamente transformada na contemporaneidade? Você vê uma banalização do ato fotográfico e uma desvinculação da fotografia como um objeto de memória?

Sobre a primeira pergunta, se compreendo esse contemporâneo atrelado à fotografia digital eu diria que a maior transformação não está na fotografia e sim no seu modo de circulação, principalmente ligado aos aparelhos de telefonia e internet. A fotografia digital utilizada pelo amador potencializou o que acontecia, as pessoas já fotografavam demasiadamente, só que essas imagens não circulavam como nos dias de hoje.

Podemos perceber como elas aconteceram em massa, elas estão por aí, nas caixas de sapato, nos álbuns, nas feiras de antiguidades, nos acervos. As que são feitas atualmente também já estão jogadas em hds, blogs e nuvens, mas mesmo considerando algumas atualizações, a fotografia cumpre um papel muito semelhante para o amador.

Sobre a outra pergunta, eu a decuparia em duas partes. Primero penso que a fotografia do amador sempre foi banal no sentido da simplicidade e do ordinário, em parte por isso ela é tão potente como objeto de pesquisa. Não atribuiria um sentido negativo ao banal que pode estar presente no fotográfico.

Segundo, é preciso pensar com muito cuidado nessa relação entre fotografia e memória para que, isso sim, não se banalize. Sempre provoco meus alunos para que depurem a noção de memória que estão tratando, para que ela não se torne uma espécie de entidade, “a memória” ou “a memória fotográfica”. Nem tudo o que se atribui a essa relação parece fazer sentido, a memória virou um lugar de justificativas fáceis e, por isso, um tanto perigosas.

– A pós-fotografia é um dos grandes temas de discussão nos últimos anos, defendendo, de certa forma, o abandono do click por parte do fotógrafo. Você vê este como um dos principais caminhos para a fotografia contemporânea?

Nos últimos anos a fotografia está atravessando um processo de transformação ligado ao mercado de atuação do fotógrafo. Diferente de outros meios, ela sempre esteve presente tanto como objeto da arte como da cultura de massa e esse ruído é uma condição de existência da fotografia. Penso que devemos conviver com essa condição ambivalente antes de querer encontrar soluções que atendam a uma demanda de um amplo mercado de produção cultural.

Digo isso pois eu acho perigosa a ideia de apontarmos caminhos para alunos ou para os leitores dessa revista, por exemplo. O artista produz o trabalho a partir de suas inquietações com o mundo, das dúvidas da sua existência, do diálogo com outros, da materialidade das coisas, de como tudo isso gera condições de ação para uma prática artística. Se aquilo que comumente chamamos de resultado será ou não absorvido pelo meio cultural, artístico ou pelo mercado é outro momento, é sempre um segundo momento, mas não é o principal.

Entendo que se não for desse modo pode virar uma fórmula a ser seguida e talvez esse seja um caminho pernicioso. Assim, não posso dizer “abandone o click e você chegará na fotografia contemporânea” ou qualquer outra proposição nesse sentido. O caminho é do sujeito que produz a partir daquilo que faz sentido na sua trajetória, portanto, reconhecer qual é o seu já é um grande feito. O que eu me sinto a vontade para dizer é: resista a qualquer receita que o levará a “ser contemporâneo”.

– Há também uma discussão profunda sobre a importância da edição e da construção de narrativas em trabalhos fotográficos contemporâneos. Você vê a fotografia como uma arte que se favorece quando apresentada em séries? A busca por criar uma narrativa deve ser uma preocupação central na produção de um fotógrafo?

A resposta anterior pontua essa pergunta. Veja, estamos lidando novamente com palavras perigosas como edição, narrativa, seriação. São expressões que como as outras – memória, fotografia contemporânea, click – se perdem se não contextualizarmos os trabalhos. Eu sei que sou chata com as palavras, mas é que elas dizem muito quando estão inscritas e quando são replicadas. Precisamos ficar atentos para que elas não virem regras, ser lúcidos diante de um meio que nos diz “faça isso para alcançar aquilo”.

A ideia de “dever” fazer algo como uma preocupação para que a produção atinja determinados lugares, agentes, meios é muito perversa. Não trabalho com essa orientação, essa é a minha resistência, é o lugar em que eu tento permanecer fiel aos meus princípios. Penso que o desassossego do artista é o seu trabalho, a sua produção e aquilo que diz respeito à ela e, novamente, se isso se desdobra como produto no meio cultural é um segundo momento. Logo, se a produção está muito atrelada às ansiedades desse meio significa, para mim, que é preciso recuar e voltar para às intenções do trabalho e de quem produz.

– O Dobras Visuais tem uma coleção marcante de textos sobre pensamento e produção fotográfica. Como foi criado este projeto? Quais são seus principais objetivos com o blog?

O blog existe há seis anos e é um espaço onde compartilho a minha pesquisa, o que observo e reflito a partir da fotografia na sua relação com a arte, a literatura e a cultura visual. Ele surgiu em um período que fiquei longe da sala de aula e senti necessidade de criar novos diálogos.

O Dobras já tem um pequeno apanhado do que eu consumo, leio e vejo. Talvez seja um lugar para que eu possa dar vazão às minhas obsessões como leitora e ao quanto a fotografia é uma presença ruidosa na busca por um sentido que nunca se encerra, como o que trabalho na seção O que é fotografia?.

O trabalho é muito atrelado à minha trajetória de pesquisa e gosto quando outros pesquisadores se identificam com o material do blog. Nesse sentido, o Dobras não é um lugar de informações sobre o meio, mas um tipo de caderno de notas em que vou assinalando pensamentos, citações, pessoas com quem convivo e que gentilmente contribuem para o blog.

– Você é coordenadora da pós-graduação em fotografia na FAAP. Nos conte um pouco sobre o processo de criação do curso, que concentra parte considerável dos principais pensadores da fotografia no Brasil.

O curso, criado há cinco anos pelos pesquisadores Rubens Fernandes Jr e Ronaldo Entler, tem como objetivo refletir sobre as relações entre a fotografia e a Comunicação Social, as Ciências Humanas e as Artes. Trabalhamos com a perspectiva de desenvolvimento de projetos que tenham como eixo um pensamento artístico e/ou crítico a partir do fotográfico.

Sim, contamos com uma equipe de professores muito bacana, todos envolvidos com a produção do curso e muito parceiros nessa empreitada. Mas é preciso ponderar que há muitos pesquisadores de fotografia espalhados nas universidades do país, não seria justo dizer que concentramos parte considerável deles.

– Qual a importância de criar espaços de discussão e pensamento sobre fotografia no Brasil? Você acha que temos um bom cenário de ensino formal de fotografia?

Penso que sim, temos um bom cenário de lugares que possibilitam o estudo do fotográfico dentro das universidades, diluídos em distintos departamentos e com esses pesquisadores que assinalei anteriormente. Para aqueles que querem estudar há sempre espaço, mas é preciso garimpar o que mais se aproxima da sua pesquisa, dos seus anseios. Isso não é fácil e nem tampouco rápido, demora um tempo para encontrar.

Acho importante que esses lugares se mantenham em relação com outros campos para que as pesquisas acerca do fotográfico sejam contaminadas por outras leituras, práticas e provocações. Qualquer espaço de discussão sobre ele torna-se mais interessante na medida da ampliação dessas relações.