DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Candice Japiassu

Candice Japiassu: Building, Dwelling, Thinking, 2015.

Candice Japiassu: Building, Dwelling, Thinking, 2015.

Estou devendo esse post para a Lívia há um tempão. Agora de fato comecei a escrever para o mestrado e me encontro rodeada por livros, chegou a hora de desempacotar minha biblioteca/bibliografia e compartilhá-la com vocês. Iniciei meu mestrado em fotografia em setembro do ano passado, na Central Saint Martins, em Londres. O curso, apesar de ter uma parte prática na qual temos que instalar nossos trabalhos, ainda que em processo, o tempo todo é voltado para a introdução à filosofia, com foco em questões imagéticas e fotográficas.

Um desafio que estou gostando muito, na verdade, achando essencial. Parte disso, devido ao nosso diretor e professor, Daniel Rubinstein, que dá aulas incríveis. Nesse começo me deparei com vários filósofos que me encantaram e me fizeram pensar muito na minha prática fotográfica, dentre eles, Heidegger.

Entrei no mestrado com o desejo de pesquisar sobre a existência – e a vertigem que é pensá-la de fato, conscientemente. Um tema um tanto amplo, mas que ganhou um direcionamento quando me deparei com Heidegger. Ao me aproximar de sua teoria, sendo a nossa própria existência como seres (humanos) no mundo sua questão fundamental, não tive dúvida que este seria meu foco de estudos.

Para começar, li um livro chamado Heidegger Reframed, de Barbora Bolt. Nesse livro ela introduz vários conceitos primordiais da teoria de Heidegger, relacionando-os com obras de artistas contemporâneos. É uma maneira mais “leve” de adentrar nesse mundo.

Candice Japiassu: Experimet I: Bauen, 2015.

Candice Japiassu: Experimet I: Bauen, 2015.

Em seguida, me deparei com o texto What is Metaphysics onde Heidegger trata da questão central da metafísica: “Why are there beings at all instead of nothing?” – que até agora dá título à minha pesquisa. Essa é uma questão vertiginosa para pensar no começo, no antes de tudo – se é que já não se tornou redundante, já que fala do “nada”. Mas para mim, de novo, essencial na minha pesquisa.

Outro texto que me interessou bastante foi Building, Dwelling, Thinking. Aqui, Heidegger fala da relação dos seres humanos com o habitar e o construir. Ele relata que antigamente, a palavra alemã “Bauen”, que significa “construir” estaria atrelada, também, na sua essência, ao conceito de habitar. É um texto difícil, mas não tive como deixá-lo de lado já que essa temática vem me acompanhando desde a minha pós-graduação em Fotografia na FAAP – onde meu projeto final tratava justamente de um corpo que, em busca de segurança, resolve “construir” sua própria casa para assim poder habita-la. Impulsionada por esse último projeto, “Concavidades”, hoje, a casa (e seus desdobramentos) ainda é um tema que persigo. Nesse texto, por exemplo, levanta-se a questão “Do the houses in themselves hold any guarantee that dwelling occurs in them?”

Candice Japiassu: Concavidades, 2013.

Candice Japiassu: Concavidades, 2013.

Como estou pesquisando a existência, nada mais natural que sair da segurança da casa e olhar para o cosmos e devanear sobre o desconhecido. Tenho lido livros sobre o tema, mas aqui, quero me ater a um livro de contos de Italo Calvino, chamado “The Complete Cosmicomics”. O personagem, Qfwfq, está sempre presente e pode testemunhar histórias desde antes do início dos tempos, alguns contos se passam antes mesmo do planeta terra existir. Os contos sempre começam com um fato científico e a história se desdobra a partir dai. É uma maneira poética e divertida de pensar no cosmos e sobre o inicio da nossa galáxia, do nosso planeta e da nossa espécie. Nesse livro encontrei uma passagem que, para mim, descreve a vertigem de existir, o “void” – conceito que me é muito caro.

“To fall in the void as I fell: none of you knows what that means. For you, to fall means to plunge perhaps from the twenty-sixth floor of a skyscraper, of from an aeroplane which breaks down in flight: to fall headlong, grope in the air a moment, and then the Earth is immediately there, and you get a big pump. But I’m talking about the time when there wasn’t any Earth underneath or anything else solid, not even a celestial body in the distance capable of attracting you into its orbit. You simply fell, indefinitely, for an indefinite length of time. I went down into the void, to the most absolute bottom conceivable, and once there I saw that the extreme limit must have been much, much further below, very remote, and I went on falling, to reach it.”

Referências:

BOLT, Barbara. Heidegger Reframed. London: I.B. Taurus, 2011.

CALVINO, Italo. The Complete Cosmicomics. Kindle edition: Penguin Books, 2011.

HEIDEGGER, Martin. Poetry, Language, Thought. New York: Harper & Row, 1975.

KRELL, David Farrell (org.). Basic Writings: Martin Heidegger. New York: Harper Perennial Modern Thought, 2008.

_____

Candice Japiassu baseia sua pesquisa fotográfica como uma performance perante a existência. É pós-graduada em fotografia pela FAAP e mestranda em fotografia na Central Saint Martins, em Londres.

Candice Japiassu: Bauen I, 2015.

Candice Japiassu: Bauen I, 2015.

Candice Japiassu: Bauen II, 2015.

Candice Japiassu: Bauen III, 2015.