DOBRAS VISUAIS

A incrível e triste história da Cândida Erêndira e da sua avó desalmada | Gabriel Garcia Marquez

O que é fotografia?

“Foi um trato positivo. Atraídos pelas notícias do correio, vieram homens de muito longe para conhecer a novidade de Erêndira. Atrás dos homens vieram mesas de jogos e bares, a trás de todos, um fotógrafo de bicicleta, que instalou, diante do acampamento, uma câmera de cavalete, com manga preta, e um pano de fundo com um lago de velhos cisnes. (…) Ao final de uma longa estada naquele primeiro povoado, a avó teve suficiente dinheiro para comprar um burro, e então se internou no deserto, em busca de outros lugares mais propícios para cobrar a dívida. (…) Atrás delas caminhavam quatro carregadores índios, com as partes do acampamento: as esteiras, o trono restaurado, o anjo de alabastro e o baú com os restos dos Amadís. O fotógrafo seguia a caravana de bicicleta, mas sem alcança-la, como se fosse para outra festa.” (…)

A festa estava em seu esplendor. Os recrutas bêbados dançavam sozinhos para não desperdiçar a música grátis, e o fotógrafo tirava retratos noturnos com papéis de magnésio. (…)

Os quatro carregadores índios, que transportavam a avó em um palanquim de tábuas, pararam ao ouvir o grito. Embora estivesse mal sentada no piso do palanquim, com o ânimo entorpecido pelo suor e pelo pó do deserto, avó se mantinha na sua altivez. Erêndira ia a pé. Atrás do palanquim havia uma fila de índios de carga, e por último o fotógrafo na bicicleta. (…)

Plantou a barraca diante do convento da missão e sentou-se a pensar, como um ferreiro solitário que mantivesse uma cidade fortificada em estado de sítio. O fotógrafo ambulante, que a conhecia muito bem, carregou seus trecos no bagageiro da bicicleta e se dispôs a partir quando a viu em pleno sol, e com os olhos fixos no convento.

– Vamos ver quem se cansa primeiro – disse a avó – , eles ou eu.

– Eles estão aí há 300 anos, e ainda aguentam – disse o fotógrafo.  – Eu vou embora.

Só então a avó viu a bicicleta carregada.

– Para onde vai?

– Para onde me leve o vento – disse o fotógrafo, e se foi. – O mundo é grande. (…)

Nesse rumo, Ulisses encontrou, ao fim de meia jornada, o toldo amplo e desbotado que a avó comprara de um circo falido. O fotógrafo errante voltara com ela, convencido de que, de fato, o mundo não era tão grande quanto pensara, e já instalara, perto da barraca, seus idílicos cenários. (…)

A avó consultou o caderno de contas, e se dirigiu ao fotógrafo, que procurava remendar o fole da câmara com emplastros de guta-percha.

– Em que ficamos? – disse-lhe. – Você paga ou não paga a quarta parte da música?

O fotógrafo nem sequer levitou a cabeça para responder.

– A música não sai nos retratos.

– Mas desperta na gente a vontade de retratar – replicou a avó.

– Pelo contrário -disse o fotógrafo – , recorda-lhes os mortos, e então saem nos retratos com os olhos fechados.

O diretor da charanga interveio.

– O que faz fechar os olhos não é a música – disse, são os relâmpagos de fotografar de noite.

– É a música – insistiu o fotógrafo.

A avó pôs fim à disputa. “Não seja sovina”, disse ao fotógrafo. “Veja como o Senador Onésimo Sanchez é bem sucedido, graças aos músicos que leva.” Em seguida, de um modo duro, concluiu:

– De maneira que, ou você paga a parte que lhe corresponde, ou segue só o seu destino. Não é justo que essa pobre criatura carregue todo o peso dos gastos.

– Sigo só o meu destino – disse o fotógrafo. – Afinal, o que eu sou é artista. (…)

A avó foi a primeira que avistou o fotógrafo: pedalava no mesmo sentido em que eles voavam, sem outra proteção contra a insolação que um lenço amarrado na cabeça.

– Aí está – apontou-o -, esse foi o cúmplice. Safado.

O comandante ordenou a um dos agentes do estribo que tomasse conta do fotógrafo.

– Agarre-o e espere-nos aqui – disse-lhe. – Já voltamos.

O agente saltou do estribo e, por duas vezes, disse alto ao fotógrafo. O fotógrafo não o ouviu por causa do vento contrário. Quando a caminhonete se adiantou, a avó lhe fez um gesto enigmático, que ele confundiu com um cumprimento, sorriu, e lhe disse adeus com a mão. Não ouviu o disparo. Deu uma cambalhota no ar e caiu morto sobre a bicicleta, com a cabeça destroçada pela bala de rifle que nunca soube de onde veio. (…)

Gabriel Garcia Marquez em A incrível e triste história da Cândida Erêndira e da sua avó desalmada (Rio de Janeiro: Record, 1998).

Para conhecer mais: Ping Pong na Mongólia, direção Ning Rao, 2005.

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Ping Pong na Mongólia, direção Ning Rao, 2005.