DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Ana Ottoni

Ana Ottoni: Restauração do prédio da FAU, 2014.

Ana Ottoni: Restauração do prédio da FAU, 2014.

Por Ana Ottoni

Já faz algum tempo que a Lívia me convidou a escrever esse Desempacotando sobre livros ligados ao meu mestrado, que praticamente emendei com a pós de fotografia da FAAP, onde nos conhecemos. Precisei de um feriadão em São Paulo para conseguir, mas valeu a pena.

É muito bom falar sobre os livros que nos cercam, literalmente inclusive, pois quando me sentei ao computador bastou olhar em volta para escolher sobre quais escrever. Em cima da mesa estão aqueles livros que ficam mudando de lugar na pilha mas nunca voltam para a estante, esperando a hora de serem relidos, reolhados, reconsultados, ou mesmo abertos pela primeira vez: a bagunça comum em meio a um projeto de pós. Separei da pilha três objetos diferentes: um livro teórico, uma revista de fotografia e um pequeno catálogo.

O primeiro é um livro essencial à minha dissertação: Culturas do passado-presente, de Andreas Huyssen, professor de literatura alemã nos Estados Unidos e talvez um dos pensadores mais abrangentes de estética contemporânea. Seus ensaios conectam literatura, artes visuais, arquitetura, música, cinema e tudo o mais de forma contundente e deliciosa. (Nesse momento penso que o David Harvey ali na outra pilha, poderia receber um elogio parecido, mas não quero me distrair, esse fica para uma próxima…).

Já conhecia Huyssen pelo excelente Mapeando o pós-moderno, de 1984, texto em que elucida diferentes caminhos e manifestações do pós-modernismo ao longo dos anos 1960, 70 e 80; mas não os seus livros sobre memória e ruína, até que eles me foram apresentados por minha orientadora, Giselle Beiguelman, excelente de mira. Meu mestrado trata da degradação da arquitetura brutalista, a escola de arquitetura modernista de São Paulo diretamente ligada à influência do arquiteto Vilanova Artigas, através de imagens fotográficas.

Abordar essa arquitetura do ponto de vista da ruína já traz em si algum estranhamento ao meio arquitetônico e acadêmico, devido à proximidade que ele ainda guarda à essa escola e à profunda afeição que nós brasileiros temos pelo nosso modernismo em geral. Pessoalmente, é quase um sacrilégio, considerando que meu próprio pai, por quem eu sempre tive enorme admiração, foi um arquiteto desse grupo.

Por isso, encontrar o texto de Andreas Huyssen sobre o papel das ruínas na contemporaneidade, e entre elas o das ruínas modernistas, foi essencial, reconfortante mesmo. Novamente Huyssen escreve com clareza e equilíbrio, sem envolvimentos passionais, como muitos críticos: mais constata, digamos, do que polemiza. “O pós-moderno deve ser salvo de seus defensores e de seus detratores” era a finalidade a que se propunha em Mapeando o pós-moderno, por exemplo, em meio ao tiroteio dos anos 80.

Em Seduzidos pela memória, de 2000, Huyssen desenvolve as ideias de uma crescente globalização da memória do holocausto e de uma febre generalizada por arquivos e monumentos a partir da queda do Muro de Berlim. Período desde o qual vivemos uma nova compressão espaço-temporal promovida por uma complexa rede de fatores que incluem tecnologia, mídia de massa e mobilidade global. Tudo está cada vez mais rápido e mais próximo, o presente se torna imediatamente passado e o novo, obsoleto. A obsessão cultural pela memória seria então a tentativa de “jogar uma âncora”, e em torno dela se construiu uma eficiente indústria da memória. Mas a ambição pela recordação total provavelmente nos leva a seu oposto, o esquecimento imediato; afinal como já mostrara Freud, memória e esquecimento estão indissoluvelmente ligados.

Até aqui Huyssen já tinha aproximado dois temas fundamentais ao meu trabalho:

  • o esgotamento da crença modernista na ruptura radical com o passado, do qual a arquitetura modernista foi um dos exemplos mais didáticos;
  • a fotografia como importante suporte da prática memorialística nas artes visuais a partir dos anos 70.

Em Culturas do passado presente, um texto muito recente que tivemos a sorte de ver publicado em português graças à passagem de Huyssen pelo MAR no ano passado, o autor chega ao tema central da minha pesquisa: a ruína.

A febre das ruínas é para Huyssen o mais recente sintoma da obsessão memorialística. Numa nova onda do culto ocidental à ruína iniciado no século XVIII, a nostalgia da ruína aparece como o próprio código da nostalgia do projeto moderno, esfacelado: “a saudade de uma era anterior, que não havia perdido o poder de imaginar outros futuros”. É com o trabalho do artista de um vietnamita radicado nos Estados Unidos, Pipo Nguyen-duy, que Huyssen tão bem exemplifica a produção artística relacionada a esse sentimento.

A série fotográfica O jardim é um arquivo fotográfico de estufas abandonadas em Ohio desde a desindustrialização na região nos anos 70. Estufas são construções essencialmente modernistas (aço e vidro) e funcionais, construídas para máxima eficiência do que é cultivado ali dentro (uma espécie de “industrialização da natureza”). Dessa forma, a estufa já derruba os limites entre natureza e cultura.

Além do próprio prédio, a decadência das estufas rementem à ruína como descrita por Georg Simmel de forma curiosa: se a ruína de Simmel é o retorno da matéria modificada reclamada pela natureza, nas estufas essa matéria é a própria natureza domesticada. As imagens de Nguyen-duy são “alegóricas até o âmago” segundo Huyssen, assim como são as ruínas para Walter Benjamin, desde que declarou serem “as alegorias, no campo do pensamento, o que são as ruínas nos campos das coisas”. Remetem também, inevitavelmente, à tipologia pós-industrial do casal Becher.

Pipo Nguyen-duy: 02-10-D-02, 2010.

Pipo Nguyen-duy: 02-10-D-02, 2010.

Pipo Nguyen-duy: 02-04-A-01, 2004.

Pipo Nguyen-duy: 02-04-A-01, 2004.

Na segunda edição da revista Zum reencontro Hotel Palenque 1969-72, de Robert Smithson, artista que me acompanha há alguns anos e que é uma certa obsessão entre os pesquisadores da paisagem da pós-modernidade. (Para quem quer se aprofundar no artista sugiro também a dissertação de João Castilho, A Fotografia entrópica de Robert Smithson). A ruína presente na periferia pós-industrial era tema do trabalho de Smithson desde o célebre Um passeio pelos monumentos de Passaic, de 1967, ensaio onde o artista exalta a ferrugem e o lixo industrial deixados na paisagem de sua cidade natal por uma indústria têxtil decadente.

Em Hotel Palenque, Smithson bate de frente com a concepção racionalista da arquitetura. Se hospeda em um hotel arruinado próximo ao sítio arqueológico de mesmo nome, no México e sobre a construção caótica, de reformas inacabadas, espaços desfuncionais e restos de entulho realiza um ensaio texto-fotográfico ao modo da crítica de arquitetura modernista. As imagens coloridas remetem à fotografia vernacular da publicidade e dos manuais. Mas não nos ajudam a entender o local, ao contrário, nos confundem mais. Smithson busca um diálogo com tradições ancestrais em lugar de uma concepção racional do espaço e das técnicas construtivas. Acredita ser essa arquitetura de sobreposições temporais uma prática que os mexicanos trazem desde as construções maias como a própria ruína de Palenque, uma vez que os lugares de construção das cidades maias eram escolhidos astronomicamente, por isso sempre os mesmos por séculos. Partes dos edifícios já arruinados seriam recobertos por novos, mas nunca derrubadas, criando camadas de diferentes épocas.

Hotel Palenque 1969-72 é finalizado na forma de uma palestra na Faculdade de Arquitetura de Utah. Aos estudantes Smithson apresenta de uma só vez a crítica às convenções modernistas na arte, na arquitetura, na fotografia e no texto crítico; procura no místico relação entre cultura e natureza, entre passado e futuro.

Robert Smithson: Hotel Palenque, 1969.

Robert Smithson: Hotel Palenque, 1969.

Minha última referência é um livrinho encantador, na verdade um pequeno catálogo de uma exposição realizada em 2014 na Tate Britain, Ruin Luist. Exposição e livro atravessam o imaginário das ruínas desde Giovanni Piranesi até as contemporâneas Jane and Louise Wilson, passando por J.M.W.Turner, John Constable, John Piper, Robert Smithson através da curadoria de Brian Dillon. Eu não visitei a exposição, infelizmente, mas ganhei o catálogo de uma amiga querida, Candice Japiassu, que se lembrou de mim na Tate. Mais um motivo para gostar dele.

Catálogo Ruin Luist: Tate Britain, 2014.

Catálogo Ruin Luist: Tate Britain, 2014.

Jane and Louise Wilson: Azeville, 2006.

Jane and Louise Wilson: Azeville, 2006.

Referências:

CASTILHO, João. A Fotografia entrópica de Robert Smithson. Dissertação de mestrado, Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.

DILLON, Brian. Ruin Lust. Londres: Tate Publishing, 2014.

HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente. Modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

_________________. Mapeando o pós-moderno. In HOLLANDA, Heloisa B.(org), Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991

_________________. Seduzidos pela Memória. Arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

SMITHSON, Robert. “Hotel Palenque, 1969-72”. Revista ZUM n. 2. São Paulo: IMS, 2012.

––––––––––––––––. Um passeio pelos monumentos de Passaic, Nova Jersey. In Arte & Ensaios n.19. Rio de Janeiro: Programa de Pós-graduação em Artes Visuais/ Escola de Belas Artes, U.FRJ, 2009.

_____

Ana Ottoni é fotógrafa autonôma e arquiteta. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo por mais de 15 anos. Atualmente desenvolve mestrado na FAU-USP com pesquisa sobre imagem e imaginário da ruína modernista.