DOBRAS VISUAIS

Tempo Movimento, por Mariano Klautau

O Diário Contemporâneo de Fotografia chegou ao seu sexto ano consolidando um espaço de produção e circulação da arte brasileira contemporânea por meio da fotografia. O território da imagem fotográfica significa para o projeto um campo de convergências poéticas, experimentações materiais e investigações artísticas. Desde 2010 o Diário Contemporâneo realizou, em Belém, diversas mostras de artistas selecionados, premiados e convidados, palestras, encontros, cursos e oficinas e publicou cinco livros, reunindo imagens dos trabalhos, entrevistas, ensaios críticos e artigos de pesquisadores de todo o país.

Em seis anos de existência, e tendo o fotográfico como norteador, o projeto também selecionou e exibiu pintura, desenho, vídeo, instalações e trabalhos sonoros, objetos e narrativas literárias.

Além das exposições, a participação de curadores, artistas e professores nas comissões de seleção e nas palestras promoveu o diálogo entre pesquisadores do Pará e de outros estados contribuindo para uma observação mais ampla sobre a produção emergente no Brasil.

Ao longo desses anos, o projeto propôs questões temáticas além da tradição ilustrativa da fotografia; explorando o tema como exercício conceitual e que permitisse ao artista liberdade poética para traduzir, por meio de seu trabalho, as proposições apresentadas em cada uma das edições.

Tivemos então Brasil Brasis em 2010, Crônicas Urbanas em 2011, Memórias da imagem em 2012 e Cultura Natureza em 2013. O ano de 2014 marcou a quinta edição do projeto, momento em que experimentou-se não abordar nenhuma proposição específica, mas ao invés de nomear de “tema livre”, expressão utilizada nos concursos convencionais, optamos por apresentar ao artista um “não-tema”, uma espécie de não-lugar que caracteriza o território da fotografia, um lugar de passagem e repouso para a experiência do fotográfico. Portanto, a ausência de tema transformou-se em uma questão a ser trabalhada pela fotografia  enquanto discurso artístico. Neste ano de 2015, voltamos à proposição temática e, considerando a percepção sempre renovada da experiência que temos diante das imagens, elegemos o tempo e o movimento como elementos singulares da dinâmica da fotografia na arte.

Dirceus Maués: Horizonte Reverso, 2015.

Tempo Movimento, o sexto Diário Contemporâneo

O corte no tempo e no espaço efetuado pelo ato fotográfico iniciou uma era de profundas mudanças na produção de imagens e na construção de novos modos de representação. Entre as diversas experiências possibilitadas por meio da fotografia estão a suspensão do tempo e a fixação do instante. Fomo habituados a pensar que, diante de um acontecimento, no frescor do fluxo da vida, o ato fotográfico reage congelando o momento e “eternizando o instante”. Em certo sentido, tais constatações embrionárias foram naturalizadas e ainda permanecem vivas em nossa experiência cotidiana. No entanto, o campo da arte contribuiu para que essas primeiras percepções fossem desdobradas em camadas e construídas em procedimentos cada vez mais distintos.

O surgimento do cinema – fotografia fixa em movimento – veio expandir o sentido de tempo já potencializado pela fotografia e instaurou na imagem técnica suas capacidades narrativas. Na medida em que o cinema avançou, a fotografia foi buscar no exercício da série um alimento necessário, utilizando-se desse aspecto para narrar acontecimentos e ampliar a própria noção de realidade. Atualmente os processos digitais misturam cinema, vídeo e fotografia e trabalham a favor das narrativas pessoais, das pequenas histórias e ainda da reconfiguração descritiva da vivência social. Os artistas da imagem que trabalham imersos nesse contexto utilizam a fotografia como experiência de um tempo que dura. Os fotógrafos trabalham o vídeo como um processo desdobrado da experiência fotográfica cujo tempo não foi cortado somente uma vez; foi fatiado em séries, planos-sequência, polípticos. O movimento não é percebido somente no cinema ou no vídeo; está na aparente fixidez de imagens fotográficas montadas em blocos, conjuntos ou sequências.

O resultado dessa proposição está na exposição  Tempo Movimento – VI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia no Museu Casa das Onze Janelas em Belém até o final de junho. A mostra é um recorte da proposição e, de certo modo, transborda as ideias propostas no edital porque insere no espaço expositivo tanto os objetos, como as performances e os processos abstratos vindos da tecnologia. Os premiados dessa edição resumem em parte o que se vê sobre as ramificações do movimento e da mobilidade.

Marise Maués, no performance intitulada Loess, se transmuda em próprio sedimento quando testa seu corpo imóvel durante sete horas ininterruptas no leito de um igarapé nas correntezas de sua enchente e vazante. O sentido de permanência rígida contrasta com o passar do tempo, da luz, da cor e das mudanças do ser. O que se vê é uma fotografia que se move e um filme a captar em sua resistência estática a transitoriedade das coisas.

Dirceu Maués, com Horizonte reverso, brinca uma vez mais com a imaterialidade da imagem cuja fotografia ausente da câmera obscura é a chave para a interação no espaço expositivo tanto com a dimensão escultórica do aparato multiplicado em vária janelas quanto o caráter imaginativo da fotografia antes de sua invenção.

Por fim, Marco A. F propõe com That crazy feeling in America, um exercício com imagens e legendas extraídas de filmes em preto e branco para construir como, ele mesmo nomeia, uma roadtrip fictícia a partir do imaginário norte-americano do cinema e dos livros de Robert Frank. Nessa nova trama, os elementos desgarrados de sua origem: imagem em movimento, frases e diálogos se reorganizam em outra dinâmica, movidos pela “fixidez” fotográfica.

Os trabalhos de Marco A.F, Dirceu Maués e Marise Maués estabelecem juntamente com os todos os artistas reunidos nessa mostra as dinâmicas de mobilidade da imagem, seja ela fixa ou em movimento, seja congelando ou expandindo a ideia de tempo.

Marco A. F: That Crazy Feeling in America, 2015.

Premiados:

Marise Maués – Prêmio Diário Contemporâneo

Dirceu Maués – Prêmio Diário do Pará

Marco A. F. – Prêmio Tempo Movimento

Selecionados:

Andrea D’Amato; Carolina Krieger; Daniela de Moraes; Edu Monteiro; Elaine Pessoa; Felipe Ferreira; Gui Mohallem; Guy Veloso; Isis Gasparini; José Diniz; Solon Ribeiro; Júlia Milward; Karina Zen; Lara Ovídio; Marcelo Costa; Marcílio Costa; Pedro Cunha; Pedro Veneroso; Pio Figueiroa; Sergio Carvalho de Santana; Tiago Coelho; Tom Lisboa; Tuca Vieira; Victor Saverio.

Andrea D'Amato: Coleção de incertezas, 2015.

Andrea D’Amato: Coleção de incertezas, 2015.

Carolina Krieger: O desejo de cair com os olhos abertos, 2015

Daniela Moraes: Arquitetura do Esquecimento, 2015.

Daniela Moraes: Arquitetura do Esquecimento, 2015.

Edu Monteiro: Saturno, 2015.

Elaine Pessoa: Tempo Arenoso, 2015.

Felipe Ferreira: Flores e Borrifador, 2015.

Gui Mohallem: Espelho manchado, 2015.

Guy Veloso: O teatro do tempo, 2015.

Isis Gasparini: Olhar Outro, 2015.

José Diniz: Movement, 2015.

Solon Ribeiro: Tecnic Pop Photograph, 2015.

Júlia Milward: Still Life, 2015.

Júlia Milward: Still Life, 2015.

Karina Zen: Unidade Composta, 2015.

Lara Ovídio: Territórios Perecíveis, 2015.

Marcelo Costa: Janelas, 2015.

Marcilio Costa: Empalamento, 2015.

Marcilio Costa: Empalamento, 2015.

Pedro Cunha: Continua na minha memória, 2015.

Pedro Cunha: Continua na minha memória, 2015.

Pedro Veneroso: Que cor é agora, 2015.

Pio Figueiroa: Valparaíso paisagem histórica viva em fotografia, 2015.

Sergio Carvalho: O tempo amarrado no poste, 2015.

Tiago Coelho: Parcialmente Nublado, 2015.

Tom Lisboa: Palimpsestos, 2015.

Tuca Vieira: Estrada de Ferro Carajás, 2015.

Victor Saverio: ST, 2015.

Victor Saverio: ST, 2015.

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Mariano Klautau Filho é curador do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Atua como artista e pesquisador. Doutorando em Artes Visuais na ECA/USP e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Professor da Universidade da Amazônia e coordenador e curador independente em projetos como “Fotografia Contemporânea Paraense – Panorama 80/90”, “Colóquio Fotografia e Imagem” da Fotoativa e “Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia”. Participação na IX Bienal de Arte de Havana e na I Bienal do Fim do Mundo, em Ushuaia na Argentina. Possui obras nos seguintes acervos: Museus de Arte Moderna de São Paulo/MAM-SP, Museu de Fotografia da Cidade de Curitiba-PR, Museu do Estado do Pará – Belém-PA, Coleção Joaquim Paiva – Rio de Janeiro-RJ e Coleção Pirelli/MASP – Museu de Arte de São Paulo-SP. Ganhou o Grande Prêmio (Fotografia) no Salão Arte Pará em Belém, nos anos de 2001 (fotografia) e 2007 (videoinstalação). É representado pela Fauna Galeria em São Paulo e Kamara Kó Galeria em Belém.

Fotos da exposição:

Irene de Almeida, Andrea D’Amato, Carolina Krieger, Daniele de Moraes, Elaine Pessoa, Isis Gasparini, Marcelo Costa, Marco A. F.