DOBRAS VISUAIS

Recontro, por Pio Figueiroa

Lívia Aquino: Recontro, 2014.

Lívia Aquino: Recontro, 2014.

Recontro, os traços de uma viagem à China

O ensaio Recontro, 2014, de Lívia Aquino, faz-se pensar por pelo menos dois movimentos. O primeiro forma-se pela luz invasora que deixa as imagens com o aspecto de desenhos que despertam das expressões que somam-se, uma a uma, constituindo a série. O outro, a saber, é aquele em que as pessoas aparecem ou quase desaparecem, após dedicarem miradas, olhares desconcertantes, deixando claro que a fotógrafa estava lidando com o desconforto dado pelo real sentido de ser estrangeira, mais que isso, exótica àquelas ruas.

Fotografamos assim: ali a cena, estamos daqui, parte observadores e, por fim, parte dela. Por trás de tudo, um feixe de luz que vem e empurra o quadro para dentro da câmera. Essa luz emana, por exemplo, das pessoas fotografadas sugadas pelo aparato que apreende no mundo fatias do que vivenciamos. Emana também dos fotógrafos, pois as suas intenções se unem a este feixe e, como efeito, fantasmas tomam posse da cena; inclui ainda quem fotografa e, mais além, quem vê a fotografia tempos depois. E isso é tão técnico e preciso que não percebemos esse fenômeno acontecer, mas é possível experimentarmos este lugar fotográfico que acontece sob tempos desencontrados de sentidos multiplicados.

Por um aspecto pictórico, neste trabalho de Lívia as fotografias aparecem como desenhos, traços constituídos pelos sucessivos olhares. E o tal feixe de luz que empurra a cena para dentro da máquina é o que predomina como área na imagem formada. O objeto desse trabalho seria então a impressão do fluxo, a vivência fotográfica se descolando e já se depositando como imagem técnica. O que temos no resultado é a fotografia captada nos tracejados de um meio de caminho, já sendo antes de constituir-se por completa, desmanchando-se na ação de aparecer, resumindo-se para enaltecer o processo. Fica um espaço claro de uma passagem, ou uma falta. Os personagens exangues não garantem uma presença repleta e isso faz imaginar a atuação da fotógrafa, perdida ali em ruas de algumas cidades da China, desencontrada de sua função. De tantos insistentes olhares em direção a Lívia, a cena perde a nitidez do seu em torno.

A fotografia de rua, especificamente, atua no palco da vida social e se expressa na trama natural de ser e aparecer. Hanna Arendt, em seus últimos escritos, que tratava também do pensar – esta que é a nossa mais livre atividade -, nos lembra que “neste mundo em que chegamos e aparecemos vindos de lugar nenhum e do qual desaparecemos em lugar nenhum, Ser e Aparecer coincidem. (…) nada do que é, à medida que aparece, existe no singular; tudo que é, é próprio para ser percebido por alguém” [1]. Vivemos de inferências e partindo da ideia de que você só é quando o outro te enxerga, a fotógrafa constantemente olhada foi desarmada da programação cultural que lhe deixava atuar, pois estava sendo na verdade um expressivo objeto de interesse. Por conta disso, acordos foram quebrados e restou apenas a câmera como o dispositivo que permitia a ela ter em mãos o único ponto mútuo de compreensão universal: máquina fotográfica de quem não conseguia olhar pois apenas reagia a tamanha exposição.

As fotografias finais, das quais restaram os traços do recontro, sinalizam esse não pertencimento. Imagens de não Ser. A força do ensaio está em uma certa falta de controle da fotógrafa, apenas reagindo a um descompasso de sociabilidade. Sartre, em O ser e o nada, dizia que “não podemos perceber o mundo e captar ao mesmo tempo um olhar lançado sobre nós; terá de ser uma coisa ou outra. Porque perceber é olhar, e captar um olhar não é apreender um objeto no mundo mas tomar consciência de ser visto. O olhar que os olhos manifestam, não importa sua natureza, é pura remissão a mim mesmo” [2]. As fotografias da série, portanto, são a síntese de um lapso de compreensão cultural: ser tão vista desequilibrou a percepção da fotógrafa tentando ver sob uma enxurrada de olhares atribuídos. Nem os personagens chineses, muito menos Lívia Aquino conseguiram atuar em papéis previsíveis. Imprimiu-se um espanto, um desmanche, os traços dos olhares em um embate, confrontos claros de um combate breve, uma peleja, um recontro.

[1] Arendt, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. (Trad.) Antônio Abranches, Cesar Augusto R. de Almeida, Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumurá, 1993.( p17)

[2] Sartre, Jean-Paul.
O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica. (Trad.) Paulo Perdigão. Petrópolis, RJ :Vozes, 2007. (p333)

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Texto publicado no blog Icônica.