DOBRAS VISUAIS

A invenção da solidão | Paul Auster

O que é fotografia?

Fernando Schmitt: Coisas vazias, 2011.

Fernando Schmitt: Coisas vazias, 2011.

Não há nada mais terrível, aprendi então, do que ter de encarar os objetos de um morto. (…)

Fotografias da lua de mel de meus pais nas cataratas do Niágara, em 1946: minha mãe sentada aflita em cima de um touro para uma dessas fotos engraçadas que na verdade não tem graça nenhuma, e a sensação repentina de como o mundo sempre foi irreal, mesmo na sua pré-história.

No armário do quarto do meu pai, encontrei centenas de fotografias – enfurnadas em envelopes desbotados feitos de papel manilha, pregadas nas páginas negras de álbuns empenados, espalhados ao acaso nas gavetas. Pelo jeito como estavam guardadas, deduzi que ele nunca as olhava, esquecera mesmo que estavam ali. Um álbum muito volumoso, com uma cara encadernação de couro e o título na capa em letras douradas – ESTA É SUA VIDA: OS AUSTER -, estava completamente vazio por dentro. Alguém, na certa minha mãe, em outros tempos se dera ao trabalho de organizar esse álbum, mas ninguém se preocupou em enchê-lo.

De volta a minha casa, examinei aquelas fotografias com uma fascinação que beirava a mania. Achei-as irresistíveis, preciosas, o equivalente de relíquias sagradas. Pareceria que elas poderiam me dizer coisas que eu nunca havia sabido, me revelar alguma preciosa verdade oculta, e estudei cada uma delas com toda a atenção, assimilando os menores detalhes, a sombra mais insignificante, até que todas as imagens se tornassem parte de mim. Eu não queria que nada fosse perdido.  (…)

Descobrir essas fotografias foi importante para mim porque elas pareciam reafirmar a presença física de meu pai no mundo, me dar a ilusão de que ele ainda estava presente. O fato de eu nunca ter visto antes muitas dessas fotografias, sobretudo aquelas da juventude de meu pai, me dava a sensação estranha de que eu o encontrava pela primeira vez, de que uma parte dele só agora começava a existir. Eu havia perdido meu pai. Mas ao mesmo tempo eu também o encontrara. Enquanto eu mantinha essas fotos diante dos olhos, enquanto eu as examinava com toda a minha atenção, parecia que ele ainda estava vivo, mesmo na morte. Se não vivo, pelo menos não estava morto. Ou melhor, suspenso de algum modo, encerrado em um universo que nada tinha a ver com a morte, no qual a morte nunca poderia entrar. (…)

A maioria dessas fotos não me dizia nada de novo, mas me ajudava a preencher os espaços em branco, confirmar impressões, oferecer provas onde antes nada existira. Uma série de instantâneos dele no tempo de solteiro, por exemplo, provavelmente tirados no decorrer de vários anos, dá uma ideia precisa de certos aspectos de sua personalidade que submergiram durante os anos de seu casamento, uma face de meu pai que não vim a conhecer senão após seu divórcio: meu pai como um sujeito brincalhão, mundano, boa-praça. Foto após foto, ele aparece de pé ao lado de mulheres, em geral duas ou três, todas fingindo poses cômicas, os braços talvez em torno umas das outras, ou então duas delas sentadas no seu colo, ou um beijo teatral, que não era para agradar ninguém, exceto a pessoa que tirava a fotografia. Ao findo uma montanha, uma quadra de tênis, talvez uma piscina ou uma cabana feita de toras de madeira. Essas eram as fotos trazidas de passeios de fins de semana a várias estações de veraneio nas montanhas Catskill, em companhia de seus amigos solteiros: jogar tênis, divertir-se com garotas.

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Fernando Schmitt: Coisas vazias, 2011.

Não passou muito tempo antes de minha mãe descobrir seu engano. Mesmo antes do fim da lua-de-mel (aquela lua-de-mel tão amplamente documentada pelas fotografias que descobri: os dois sentados juntos, por exemplo, em uma pedra na beirada de um lago completamente imóvel, um largo caminho ensolarado atrás deles, que ia dar em uma ladeira de pinheiros entre sombras, meu pai com os braços em volta da minha mãe, e os dois olhando um para o outro, sorrindo tímidos, como se o fotografo os tivesse feito posar abraçados por um tempo um pouco longo demais), mesmo antes do fim da lua-de-mel, minha mãe entendeu que o casamento não ia dar certo.

De uma bolsa de fotos avulsas: um truque fotográfico produzido em um estúdio de Atlantic City, em algum momento da década de 40. Varias fotos superpostas de meu pai sentado em torno de uma mesa, cada imagem de um ângulo diferente, de modo que a princípio pensamos ser um grupo de vários homens distintos. Em virtude das trevas que os envolvem e da completa imobilidade de suas poses, parece que se reuniram ali para promover uma sessão espírita. E então, quando examinamos melhor a fotografia, começamos a notar que todos aqueles homens são o mesmo homem. A sessão espírita se torna uma realidade e tem-se a impressão de que ele foi até lá só para invocar a si mesmo, trazer a si mesmo de volta do mundo dos mortos, como se, ao multiplicar-se, ele inadvertidamente tivesse feito desaparecer a si mesmo. Há cinco imagens dele ali e no entanto a natureza do truque fotográfico rejeita a possibilidade de contato visual entre diferentes personificações. Cada uma está condenada a olhar fixamente para o vazio, como que por baixo do olhar dos outros, mas sem ver nada, sempre incapaz de enxergar o que quer que seja. É um retrato da morte, o retrato de um homem invisível.

Ninguém jamais falava do meu avô. Até alguns anos atrás, eu nunca vira uma foto dele. Era como se a família tivesse resolvido fingir que ele nunca havia existido. Entre as fotos que encontrei na casa do meu pai no mês passado havia um retrato de família daqueles primeiros tempos em Kenosha. Todos os filhos estão lá. Meu pai, com não mais de que um ano de idade, sentado no colo da mãe, e os outros quatro de pé em torno dela, na grama muito alta. Há duas árvores atrás deles e uma ampla casa de madeira atrás das árvores. Um mundo inteiro parece emergir desse retrato: uma época bem definida, um lugar bem definido, um indestrutível sentimento do passado. Na primeira vez que olhei para a fotografia, reparei que tinha sido rasgada ao meio e depois colada de forma tosca, deixando uma das árvores ao fundo misteriosamente suspensa no ar. Julguei que a foto fora rasgada por acidente e não pensei mais no assunto. Na segunda vez que olhei para ela, porém, examinei essa rasgadura mais detidamente e descobri coisas que eu devia estar cego para não ter notado antes. Vi as pontas dos dedos de um homem segurando o torso de um de meus tios; vi, de forma bem nítida, que outro de meus tios não estava apoiando a mão nas costas do irmão, como eu pensava a princípio, mas em uma cadeira que não estava ali. E depois me dei conta do que era esquisito na fotografia: meu avô fora suprimido. A imagem estava distorcida porque parte dela fora eliminada. Meu avô estivera sentado em uma cadeira ao lado da esposa com um dos filhos de pé entre seus joelhos – e ele não estava ali. Só as pontas dos dedos permaneceram: como se ele tentasse voltar sorrateiramente para a fotografia, vindo de algum profundo buraco no tempo, como se tivesse sido exilado para uma outra dimensão. A coisa toda me fez tremer.

Nada senão fotos. Porque, a certa altura, as palavras levam à conclusão de que não é mais possível falar. Porque essas fotos são indizíveis.

Paul Auster em A invenção da solidão (São Paulo: Companhia das Letras, 1999).

Para conhecer mais: Fernando Schmitt

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Fernando Schmitt: Coisas vazias, 2011.