DOBRAS VISUAIS

Vanessa Sobrino e o moderno no Foto Cine Clube Bandeirantes

Geraldo de Barros: Fotoformas, 1950.

Pensar o moderno na produção fotográfica do Foto-Cine Clube Bandeirante (FCCB) revelou-se entendê-lo diante de um contexto urbano e cosmopolita, vivido na modernidade do Pós-Guerra, no Brasil. Ao se afastar de uma análise que privilegia o formalismo e entende a produção artística como resultado direto de influências estrangeiras, é possível visualizar uma rede de interesses que buscava por espaços de projeção. Assim, durante a minha pesquisa de mestrado, o “moderno” na fotografia do FCCB foi ganhando corpo e sustentando-se enquanto conceito polissêmico, que almejava acompanhar as realizações da arte moderna na cidade de São Paulo.

Em Noções de moderno no Foto Cine Clube Bandeirante: fotografia em São Paulo (1948-1951), defendida em 2008, busquei rastrear os meandros que constituíam o sentido do “moderno” na produção coletiva do fotoclube paulistano em diálogo com a obra pioneira “A Fotografia Moderna no Brasil”, de Helouise Costa e Renato Rodrigues. Minha atenção foi despertada ao perceber que, na década de 1950, a produção fotográfica do FCCB ganhava especial destaque, quando fotógrafos ligados ao Clube inseriram o fotográfico como parte do conjunto de obras expostas nos recém-fundados museus de arte de São Paulo: Thomaz Farkas, no Mam, em 1949; Geraldo de Barros, no Masp, em 1950; German Lorca, no Masp, em 1952; e a produção coletiva do FCCB, na II Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 1953. Com essa série de exposições, o Fotoclube ganhava o olhar de importantes críticos de artes plásticas atuantes como Sérgio Milliet, Pietro Maria Bardi e Walter Zanini.

Logo de início, as pistas despontavam dos artigos traduzidos de revistas estrangeiras, publicados no principal veículo de comunicação fotoclubista naquele momento, o FCCB-Boletim. Em sua maioria, os artigos discutiam a natureza do meio fotográfico, o processo criativo e a finalidade enquanto suporte de comunicação com o observador. Outros artigos existentes detiam- se nas regras de composição, no balanço das atividades promovidas pelo Clube e nas críticas aos Salões Internacionais e às fotografias produzidas pelos sócios. No geral, os artigos procuravam informar o amador sobre a compreensão e a prática da produção para torná-la ‘moderna’.

Ao longo da pesquisa, eu percebia que o esforço de se colocar atualizado em uma cultura urbana fazia com que o FCCB ampliasse uma rede de sociabilidade irrestrita aos muros fotoclubistas. Grupos europeus e latinos ligados à experiência de vanguarda eram representados por artigos traduzidos no Boletim. Dentre esses grupos estavam o Bussola, da Itália, oriundo do Círculo Fotográfico Milanês; o Groupe des XV, da França; o Fotoform de Otto Steinert, da Alemanha; o La Ventana, do México e a Combined Society, da Inglaterra. Além das publicações, fotógrafos desses grupos estavam em estreito diálogo com o FCCB, participando dos Salões Internacionais de Fotografia de São Paulo.

Geraldo de Barros: Fotoformas, 1950.

O Boletim teve sua primeira edição em 1946, mas em maio de 1948, houve a introdução da discussão sobre a fotografia moderna, com a tradução do artigo do húngaro Tibor de Csorgeo, “A Missão e o Campo de Acção da Fotografia Moderna”. Já no final de 1950, houve maior adesão aos parâmetros divulgados como novos e modernos, tanto nos artigos, quanto nas fotografias produzidas. Neste momento, acalmaram-se as disputas internas, e uma estética “moderna” tornou-se referência para as fotografias dos sócios do FCCB, os quais realizavam exposições nos museus de arte de São Paulo.

Para buscar as balizas temporais, perceber os momentos de ruptura e desvelar as continuidades da tradição pictorialista, tão presente no fotoclubismo, foi necessário montar um quebra-cabeça com as ideias defendidas em cada artigo publicado no Boletim. Ao visualizá-las em uma cronologia, saltava aos olhos o sentido da ação de traduzir e publicar esses artigos por parte dos dirigentes do FCCB, uma vez que essas ideias eram correspondidas nos editoriais e em artigos específicos, assinados por alguns fotógrafos-sócios.

Em primeira análise, surgiam duas formas de fotografia que se colocavam como adversas: ‘fotografia moderna’ e ‘fotografia pictorialista’. Essa contraposição estabelecia-se frente a uma proposta que intencionava radicar-se como nova. O interesse na atualização do novo parecia eleger uma produção para descartá-la a um passado, visto como ultrapassado. No entanto, ao me debruçar sobre a documentação, essa dicotomia se diluía. A busca pelo ‘moderno’ adaptava as práticas preservadas de uma tradição, constituindo uma atitude específica para com o presente.

A dissertação compreende uma coletânea de artigos sobre fotografia, publicados entre 1948-1951 no FCCB-Boletim. Foram reproduzidos 41 artigos e textos críticos, sendo que 30 deles são de caráter puramente teórico, discutindo as tendências visuais no âmbito fotoclubista, 9 editoriais do Boletim, 2 transcrições dos seminários e 3 textos sobre as atividades externas ao FCCB. Dos artigos teóricos sobre o modo de fotografar, apenas 7 são escritos por fotógrafos do FCCB, enquanto os outros são traduções de artigos que foram publicados originalmente em revistas de grupos internacionais. A escassez de artigos dos sócios do Clube explica-se pela coletânea abranger o período inicial de uma proposta atualizadora na fotografia artística de São Paulo, em que seus ideais eram esboçados em traduções das referências internacionais no meio fotoclubista.

Para ler:

Noções de moderno no Foto-Cine Clube Bandeirante: fotografia em São Paulo: (1948-1951)

Dissertação de Mestrado em História.

Universidade Estadual de Campinas, 20o8.

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Vanessa Sobrino é graduada e mestre em História pelo IFCH-Unicamp.