DOBRAS VISUAIS

Irmãos | Yu Hua

Do livro: ‘History of Photography in China’, de Terry Bennett, 2013.

O que é fotografia?

A família percorreu duas ruas movimentadas. Ao passar pela lanchonete, os meninos lançaram olhares cobiçosos para seu interior, mas os pais os arrastaram até chegar ao estúdio do fotógrafo. Song Fanping se deteve e declarou que queria tirar uma foto da família, completamente esquecido de seu rosto inchado. Li Lan propôs que voltassem outro dia, mas Song Fanping já tinha entrado na loja. Virou-se e, ao ver Li Lan com os meninos junto à porta, chamou-os entusiasmado, com um aceno. No entanto, Li Lan ficou onde estava, retendo as crianças, e recusou-se a entrar.

Ao explicar ao fotografo que queria triar um retrato da família, o homem olhou para ele, estupefato. Só então Song Fanping se deu conta de que talvez aquele não fosse um bom dia. Inclinando a cabeça, viu o rosto refletido no espelho do estúdio e disse ao fotografo: “É, talvez hoje, não. Minha mulher disse que podemos voltar outro dia”. (…)

Toda a família vestiu roupas limpas e saiu de casa ao meio-dia. Song Fanping carregou uma bolsa de viagem cinzenta que tinha comprado em Shanghai durante seu primeiro casamento. Num lado da bolsa estava escrito SHANGHAI em vermelho-escuro. Um ano antes, no dia do seu casamento, Song Fanping quis providenciar um retrato da família, mas como seu rosto estava muito inchado, não tiraram a foto. Depois ele se esqueceu totalmente daquilo, mas agora que Li Lan estava viajando a Shanghai para se tratar, ele pensou de novo em tirarem a fotografia, de modo que rumaram para o estúdio do fotografo.

Quando ali chegaram, Song Fanping mais uma vez superou o que sua mulher esperava dele. Parecia saber tudo, determinando ao fotógrafo como dispor os refletores até não haver nenhuma sombra no rosto deles. O fotógrafo atendia a suas ordens, mudando a posição das luzes e aceitando suas instruções. Depois que o homem acabou de ajeitar os refletores, Song Fanping foi até a câmera, a fim de avaliar a composição, e pediu ao homem que mudasse um pouco mais a posição dos refletores. Depois instruiu os meninos sobre como deviam inclinar a cabeça e sorrir. Pediu aos meninos que se sentassem no meio, com Li Lan ao lado de Song Gang e ele ao lado de Li Carequinha. Disse-lhes que olhassem para a mão levantada do fotógrafo e, a seguir, ele próprio fez a contagem: “Um, dois, três, sorriam”.

O fotógrafo apertou o disparador, e os sorrisos radiantes ficaram gravados numa foto preto e branco. Depois de pagar, Song Fanping  dobrou com cuidado o recibo azul e guardou-o na carteira. Virou-se para os meninos e lhes disse que poderiam ver a foto daí uma semana. (…)

Agarrados à roupa de Li Lan, Li Carequinha e Song Gang a seguiram até o estúdio do fotógrafo. Enquanto recebia a fotografia, suas mãos não paravam de tremer. Apertou a fotografia contra o peito, junto com a fita preta e o tecido branco, e continuou seu orgulhoso percurso pela rua principal. Naquele momento havia esquecido de que Li Carequinha e Song Gang a seguiam. Tinha a mente cheia de imagens de Song Fanping: ele dando instruções ao fotógrafo a respeito da posição dos refletores e do momento de apertar o obturador, e os quatro saindo dali alegremente em direção à estação rodoviária. Foi ali que ela, pela primeira vez, se despediu de Song Fanping com um gesto, e aquela era a imagem final que guardava dele. Quando regressou de Shanghai, Song Fanping não existia mais. (…)

Li Lan sorriu, feliz. Pediu a Song Gang que puxasse uma arca de madeira que estava embaixo da cama e pegasse a trouxa que havia dentro dela. Os rapazes desfizeram a trouxa e viram que continha uma sacola com a terra empapada com o sangue de Song Fanping, um lenço dobrado em torno dos três pares de pauzinhos dos antepassados e três cópias do retrato de família. Li Lan disse que duas cópias do retrato eram para Li Carequinha e Song Gang, e explicou-lhes que como se casariam e teriam suas próprias famílias, queria ter certeza de que cada um deles tivesse uma cópias. A terceira, ela queria levar consigo para o mundo das trevas a fim de mostra-la a Song Fanping, comentando:  “Ele não teve oportunidade de ver o retrato”. Também queria levar consigo os três pares de pauzinhos dos antepassados, bem como a terra empapada com o sangue de Song Fanping. Avisou aos filhos:  “Depois que eu estiver dentro do caixão, espalhem a terra manchada de sangue sobre meu corpo”. (…)

Na manhã seguinte, quando Lin Hong saiu para a malharia, Song Gang ficou na porta vendo-a afastar-se de bicicleta pela rua. Depois voltou para o apartamento, sentou-se à mesa, pegou uma folha de papel e escreveu uma carta. Escreveu com muita simplicidade, pedindo primeiro que ela o perdoasse por viajar, e depois que confiasse nele. (…) Disse que estava levando consigo uma fotografia dos dois e uma chave do apartamento. Olharia para a foto toda noite antes de dormir, e a chave significaria que ele voltaria para casa assim que ganhasse dinheiro suficiente. Quando acabou de escrever a carta, Song Gang se levantou e foi procurar a fotografia. Tinha sido tirada pouco depois de comprarem a reluzente bicicleta Eternidade e mostrava os dois sorrindo, felizes, ao lado dela. Song Gang examinou a foto durante muito tempo e colocou-a no bolso interno do paletó. Em seguida vasculhou o quarto em busca daquela bolsa de viagem com o nome Shanghai num dos lados – o único objeto de seu pai que conservava. (…)

Muitas vezes pegava a foto em que apareciam ele e Lin Hong e a comtemplava longamente. A vida deles tinha sido muito feliz, e a bicicleta Eternidade era o símbolo daquela felicidade. Nos primeiros meses, a foto foi para Song Gang um apoio espiritual, mas passado meio ano ele não suportava mais olhá-la. Só de ver o rosto sorridente de Lin Hong, começava a se sentir inquieto e era invadido por uma onda de saudade. Por isso, a partir de certo momento guardou a fotografia na bagagem e esforçou-se para fazer de conta que não existia. (…)

Durante a viagem de trem de Cantão para Shanghai, as gaivotas sumiram. Com frequência (Song Gang) tirava do bolso aquela querida fotografia em que ele e Lin Hong apareciam ainda jovens. Naquela época, até a bicicleta Eternidade era jovem. Fazia mais de meio ano que não olhava aquela fotografia, porque tinha achado que se a visse ficaria com o coração dilacerado durante muitos dias ou se sentiria tentado a abandonar o que estava fazendo e voltar correndo para a cidade de Liu. Agora, entretanto, não tinha mais receios, Olhou várias vezes para Lin Hong na foto, lançando também um outro olhar ocasional para sua própria figura, jovem e sorridente, mas seus pensamentos estavam longe, voavam vertiginosamente com as sombras das gaivotas. (…)

Na noite do sétimo dia, pegou o álbum de família e pôs-se a olhar cada uma das fotos em que apareciam ele e Lin Hong. Depois suspirou e fechou o álbum. Achou a fotografia que mostrava ele próprio, o pai, Song Fanping, a mãe, Li Lan, e seu irmão, Li Carequinha. Aquela foto, em preto e branco, já amarelava com o tempo. Song Gang suspirou de novo, meteu-a também no álbum e deitou-se na cama com lágrimas rolando pelo rosto. (…)

O tom de Song Gang voltou à melancolia ao contar que ainda sentia falta do pai deles, Song Fanping, e que, se não fosse o retrato de família, talvez não fosse capaz sequer de se lembrar das feições do pai. Esperava que o aspecto do pai não tivesse mudado depois de todos aqueles anos, pois gostaria de reconhece-lo imediatamente quando se reencontrassem no além-túmulo (…) No momento em que Li Carequinha recebeu os envelopes das mãos do adjunto Liu, o retrato de família deslizou e caiu no chão. Li Carequinha se abaixou para pegá-lo e caminhou em direção à sua mesa levando a fotografia e o outro envelope. Depois de se sentar, abriu uma gaveta e começou a remexer em seu interior, onde acabou por encontrar a outra cópia da fotografia. Olhou para as duas e depois as guardou com cuidado na gaveta. (…)

Falastrão como um velho, (Li Carequinha) deu para dirigir-se aos dois estudantes russos como se ambos fossem Song Gang. Um dia, contando nos dedos, disse: “Quando aquele americano, Tito, foi ao espaço, levou consigo uma máquina fotográfica, um gravador de vídeo, um reprodutor de CDs e fotos da mulher e dos filhos. Quando Shuttleworth entrou em órbita, levou fotografias da família e de amigos, além de um microscópio, um notebook e um toca-discos”. A seguir, Li Carequinha mostrou um dedo e declarou que aquele chinês, Li Carequinha, só levaria uma única coisa consigo ao espaço. E que coisa era essa? Eram as cinzas de Song Gang. Li Carequinha olhou por suas janelas francesas, avistou o céu brilhante e distante, e, com uma expressão romântica nos olhos, anunciou que pretendia pôr as cinzas de Song Gang em órbita, de modo que a cada dia ele pudesse ver dezesseis amanheceres e dezesseis ocasos. Dessa maneira Song Gang viajaria perpetuamente entre a lua e as estrelas.

Yu Hua em Irmãos (São Paulo: Companhia das Letras, 2010).