DOBRAS VISUAIS

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14 ago 2014
Pensando

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Encantada, para Alexandre Severo

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.

Como um bom contador de histórias, Severo vez ou outra tirava um sarro discreto, perceptível somente aos sensíveis para o humor. Ele brincava comigo cada vez que se deparava com alguma referência que tinha visto no blog e dizia, “tá vendo, tá no Dobras!”, como se tivesse descoberto ali alguma coisa. Pura generosidade, gostava de ver o outro sorrir.

Partilhávamos o gosto pela literatura de Roberto Bolaño, Mia Couto e Mario Benedetti. Falava emocionado do livro A trégua, que eu li por sua causa e que tanto me fez pensar no efêmero, no breve momento que a vida pode ser. Convidei Severo para fazer um post de suas leituras para a seção O que é fotografia? e o primeiro email que ele me enviou foi com os recortes de Daniel Galera e Mia Couto. “Aqui vão umas coisas que anotei pensando no Dobras”:

“Pega a carteira na gaveta do armário da cozinha. Entre os documentos e cartões de banco há uma foto recente sua em tamanho passaporte, uma dessas fotos neutras e burocráticas que têm como único objetivo o reconhecimento da pessoa. Costuma levar uma foto dessas consigo para lembrar do próprio rosto, já que as fotos das carteiras de motorista e de identidade são respectivamente pequena e defasada demais para essa finalidade. Retira a foto do envelope plástico. Vai até o quarto, abre a mochila com seus pertences pessoais e pega o álbum de fotos principal, aquele que funciona quase como um catálogo para os rostos de maior importância afetiva. Encontra a fotografia do avô que ganhou de presente do pai e a compara com sua foto de passaporte. Depois vai ao banheiro e ergue a fotografia do avô ao lado do espelho. Olha alternadamente para o rosto do avô e para o próprio reflexo. Passa a mão na barba que está crescendo em seu rosto desde que conversou com o pai pela última vez. Encontra uma tesoura cega e meio enferrujada na gaveta dos talheres, recorta com dificuldade o retrato do avô até reduzi-lo ao tamanho aproximado de uma carteira de identidade e guarda o recorte no envelope plástico da carteira, no mesmo lugar onde até então guardava a própria foto.” Daniel Galera em Barba ensopada de sangue [São Paulo: Companhia das Letras, 2012].

“A porta do quarto se fechou, deixando Farida só. No pente de metal, em cima da mesinha, havia ainda cabelos seus, caracoladinhos como crianças no ventre materno. Tardou em cada objecto, parecendo que as coisas que em tempos tocara, saudosas, lhe reconheciam agora. Na parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de madeira. Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a foto consigo. Quando a retirava viu que, no papel amarelecido, ela já não estava sozinha. Em redor do rosto dela estavam desenhadas figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de posição. Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela era obra de Virginha, pondo vida em seu retrato. Quantas vezes não o teria ela pousado sobre o leito, discorrendo mentiras sobre a permanência da adoptiva na velha casa?” Mia Couto em Terra Sonâmbula [São Paulo: Companhia das Letras, 2007].

Acho que essa conversa teria outros desdobramentos, imagino que chegaríamos na sua monografia da pós, trabalho sensível e dedicado sobre um sertão que descobria dentro de si. Gostaria que tivesse dado tempo para isso, para tantas outras conversas.

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.

Severo descobriu, junto com o sertão noturno e a luz mítica da lua cheia, um outro ritmo para fotografar, para perceber como as imagens aconteciam dentro dele. Todos os amigos, colegas e professores reconheciam o momento especial da sua trajetória, da potência do gesto de produzir e dar materialidade às suas inquietações. Sentimos muito a perda de um amigo e também de alguém com desejo de criação, coisa rara de se ver nesse mundo.

Fui atravessada por esse sertão que Severo mostrou para nós, por sua reflexão sobre um modo de visualidade dessa paisagem, ‘suas gentes’ e suas histórias. Um trabalho em processo encerrado abruptamente.

Guimarães Rosa disse certa vez que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Fico então por aqui, encantada com Severo e sua paisagem interior que toma conta de mim.

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.

Alexandre Severo: Sertão de dentro, 2014.