DOBRAS VISUAIS

Imagens Invisíveis

Tom Lisboa: Polaroids (In)visíveis, The couple – Lasar Segall, 2008.

Imagens Invisíveis, esse é o nosso assunto. O convite para estar aqui acontece em função de um esboço de pesquisa que venho publicando no meu blog, o Dobras Visuais, em uma seção chamada O que é fotografia? Ali eu trato do fotográfico que encontra sentido em narrativas e personagens da ficção e nas relações possíveis com trabalhos de artistas e outras imagens.

Esse título é uma pequena provocação com a fotografia e suas teorias ontológicas muito em voga entre os anos 70 e 80. Tentar definir O que ela pode ser sempre nos leva a diferentes caminhos, mesmo que consistentes nos seus distintos argumentos. Percebemos que a fotografia é no plural, passamos a apreende-la em pequenas partes, nomeando-a com muito cuidado no sentido de sua feitura, de seu uso e de seus desdobramentos. Nessa cadência, sua história tem sido revista e essas teorias reconsideradas.

A seção O que é fotografia? surge de uma experiência pessoal com a biblioteca que herdei de meu pai que me ensinou a ler e riscar o que eu gostava nos livros. Ela também é uma pequena homenagem a Benjamin, que tinha apreço pelas citações e com quem aprendi a encontrar sentido para elas. Pequenas partes capazes de apreender e concentrar traços do todo. Assim, eu me permito pensar que a extração das citações de um livro pode acomodar um gesto semelhante ao clique – um recorte de uma narrativa, um fato, um retrato ou uma sensação. Nessa seção do blog, com a ajuda de escritores como Calvino, Bolaño, Auster, Mia Couto, Nelson Rodrigues, Kundera, Pamuk, Cortázar eu coleciono fotografias e os considero, portanto, grandes fotógrafos também.

Pirandello, no livro Assim é (se lhe parece), nos ajuda a pensar sobre o que pode ser a fotografia, mesmo não tendo nenhuma relação com ela. A história versa sobre um grupo de moradores que especula sobre a mudança de um novo casal para o seu prédio. Por meio de diferentes versões sobre o que pode vir a ser o comportamento deles para os vizinhos, que o julgam estranho e antissocial, o autor nos leva a pensar sobre os limites daquilo que avaliamos como verdade objetiva. Na cena final, diante de tantos mal entendidos a protagonista pondera, e é esse argumento que pode explicar a fotografia: “Para mim, sou aquele que se crê que eu seja”.

Desse modo, me interessa muito pensar uma fotografia atravessada pela palavra, pela narrativa ou em uso por meio delas. Mas o que eu apresento aqui está longe de ser uma pesquisa formal sobre o assunto, não sou uma pesquisadora da área de literatura. Falo apenas do lugar de quem coleciona fotografias imaginárias, um reconhecimento simples do fotográfico presente nessa literatura que eu consumo.

Então eu selecionei alguns recortes, pensando em 3 pequenas anotações que considero pertinentes para a fotografia que venho pensando e estudando.

1a anotação:

SOBRE A FOTOGRAFIA QUE GUARDA

Quando a fotografia encontra o objeto álbum na história passa a constituir uma máquina moderna a documentar o mundo, colecionando-o em imagens em um duplo processo de coleta e acumulação de vestígios de artefatos, vistas e gentes.

Com a fotografia nos tornamos colecionadores a observar características únicas nos objetos, nas pessoas ao nosso redor, a examinar o mundo por meio deles organizando-o de modo particular em imagens fadadas ao esquecimento ou a vigília constante.

Nessa anotação, a fotografia ganha presença no fluxo do tempo e no espaço que ocupa na vida dos personagens.

Vou ler uma fotografia-coleção do Pamuk:

Istambul

Ninguém imaginava as salas como um lugar onde você pudesse se instalar com conforto; elas eram pequenos museus destinados a demostrar a um visitante hipotético o quanto os donos da casa eram ocidentalizados. (…) Nunca os tendo visto ser utilizados de outra forma, eu achava que os pianos fossem apoios para a exposição de fotografias. Não havia uma única superfície na sala da minha avó que não estivesse coberta de porta-retratos de todos os tamanhos. Os mais imponentes eram dois retratos imensos pendurados acima da lareira nunca usada. Um era uma fotografia retocada da minha avó, outro a do meu avô, que morreu em 1934. Pela posição das fotos na parede e pelo jeito como os meus avós tinham posado (ligeiramente virados um para o outro, da maneira ainda preferida pelos reis e rainhas da Europa nos selos do correio), qualquer pessoa que entrasse naquela sala de museu e se deparasse com seu olhar altaneiro saberia no mesmo instante que toda a história começara com eles dois. (…)

Deixando a biblioteca e voltando à sala principal do museu, fazendo uma rápida parada ao lado dos abajures de cristal que só aumentavam a penumbra reinante, encontramos uma infinidade de fotografias preto-e-branco sem retoque que nos contam que a vida se acelera. Aqui vemos todos os filhos posando nos seus noivados, nos seus casamentos e em outras ocasiões momentosas das suas vidas. (…) Além de ocasiões extraordinárias como o dia em que minha avó removeu a foto da primeira mulher do meu tio americano e a substituiu por uma foto da segunda, prevalecia sempre o antigo protocolo: depois que assumia seu lugar no museu, uma fotografia nunca era deslocada. Embora eu tenha contemplado cada uma delas centenas de vezes, jamais conseguia entrar naquela sala abarrotada sem examinar de novo todas elas. (…)

Meu estudo prolongado dessas fotografias levou-me à consciência do quanto era importante preservar certos momentos para a posteridade, e com o tempo também acabei percebendo a influência poderosa que aquelas cenas emolduradas exerciam sobre nós enquanto nos entregávamos à nossa vida cotidiana. Ao ver meu tio propor um problema de matemática ao meu irmão ao mesmo tempo em que o via numa fotografia tirada 32 anos antes; ao ver o meu pai percorrer o jornal e tentar, com um meio sorriso, captar o final de uma piada que se transmitia pela sala lotada, e exatamente no mesmo momento ver uma foto dele aos cinco anos de idade – a minha idade – com os cabelos compridos como os de uma garota, parecia-me óbvio que a minha avó emoldurara e congelara aquelas memórias para que pudéssemos entremeá-las ao presente. No tom geralmente reservado para discursos sobre o jovem, e apontava para os porta-retratos nas mesas e nas paredes, ela dava a impressão de ser puxada em duas direções ao mesmo tempo, querendo seguir adiante com a sua vida mas também desejosa de preservar o momento da perfeição.

2a anotação:

SOBRE A FOTOGRAFIA E O TEMPO

Capturar ou apreender o tempo é uma grande pesquisa que atravessa a história da fotografia, construindo modos de ser e estar no mundo que se apressa na modernidade. Desde sua invenção, inúmeros artistas, cientistas e amadores experimentam a fotografia e dão conta de nos dizer o quanto ela pode ser tempo, assim como o próprio tempo vai aos poucos tornando-se fotográfico. Para Didi-Huberman, ver o tempo é uma virtude extraordinária desse meio.

Aqui nessa breve anotação a fotografia é elemento da história e dá forma a narrativa sobre o tempo que passa. Vou ler uma fotografia do Paul Auster:

Conto de Natal de Auggie Wren

“Num cômodo pequeno e sem janela nos fundos da loja, ele abriu uma caixa de papelão e pegou doze álbuns de fotografias pretos e idênticos. Era a obra de toda a sua vida, disse ele, e não tinha levado mais de cinco minutos por dia para construí-la. Toda manhã, nos últimos doze anos, ele parou na esquina da avenida Atlantic com a rua Clinton às sete horas em ponto e tirou uma foto colorida, exatamente do mesmo ângulo. Agora o projeto já chegava a mais de quatro mil fotografias. Cada álbum representava um ano diferente, e todas as fotos estavam dispostas em sequência, de 1o de janeiro até 31 de dezembro, com as datas cuidadosamente anotadas em cada uma. (…)

Enquanto folheava os álbuns e examinava a obra de Auggie, fiquei sem saber o que pensar. Minha primeira impressão foi que aquilo era a coisa mais esquisita e mais desconcertante que eu já tinha visto. Todas as fotos eram iguais. O projeto inteiro era um estonteante bombardeio de repetição, a mesma rua e os mesmos prédios mil vezes seguidas, um inexorável delírio de imagens redundantes. Não conseguia pensar em nada para dizer a Auggie, e assim fiquei virando as páginas e balançando a cabeça, numa apreciação fingida. Auggie, por sua vez, parecia imperturbável, olhava para mim com um sorriso largo no rosto, mas, depois que fiquei nisso durante alguns minutos, de repente ele me interrompeu e disse: ‘Você está indo depressa demais. Não vai sacar qual é o lance se não for mais devagar’. Tinha razão, é claro. Se a gente não olha com calma, jamais consegue enxergar nada. (…) E então, pouco a pouco, fui começando a reconhecer o rosto das pessoas ao fundo, os transeuntes a caminho do trabalho, as mesmas pessoas no mesmo local toda manhã, contemplando um instante de sua vida no campo visual de Auggie. (…)

Auggie estava fotografando o tempo, me dei conta, o tempo natural e o tempo humano, e fazia isso se colocando num cantinho do mundo e desejando transformar aquilo no lugar dele, montando guarda no espaço que havia escolhido para si. Enquanto me observava analisar sua obra, Auggie não parava de sorrir com prazer. Então, quase como se estivesse lendo meus pensamentos, começou a recitar um verso de Shakespeare. ‘Amanhã, amanhã, amanhã’, murmurou em voz baixa, ‘arrasta-se o tempo em seu passo banal’. Compreendi então que ele sabia exatamente o que estava fazendo. (…)”

3a anotação:

SOBRE FOTOGRAFIAS INVISÍVEIS ou VISÍVEIS AOS AFETOS

A fotografia dá a ver o mundo, muitas vezes, como a sua história nos mostra, o invisível dele. Já que estamos tratando de Imagens Invisíveis, eu escolhi uma citação em que a fotografia aparece como um objeto capaz de dar sentido a existência do sujeito, mesmo que ela não exista mais ou nem sequer tenha existido. E ela só pode acontecer dessa forma, só pode ser assim compreendida pela própria história que produz, pelo que engendra, pelo que condensa, pelo seu alcance imiscuído na cultura das imagens.

Leio então, para finalizar minha fala, uma fotografia do Mia Couto:

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

“As memórias lhe fazem bem. A Avó afaga uma mão com a outra como se entendesse retificar o seu destino, desenhado em seus entortados dedos.

– Agora, meu neto, me chegue aquele álbum.

Aponta um velho álbum de fotografias pousado na poeira do armário. Era ali que, às escondidas, ela vinha tirar vingança do tempo. Naquele livro a Avó visitava lembranças, doces revivências.

Mas quando o álbum se abre em seu colo eu reparo, espantado, que não há fotografia nenhuma. As páginas de desbotada cartolina estão vazias. Ainda se notam as marcas onde, antes, estiveram coladas fotos.

– Vá. Sente aqui que eu lhe mostro.

Finjo que acompanho, cúmplice da mentira.

– Está ver aqui seu pai, tão novo, tão clarinho, até parece mulato.

E vai repassando as folhas vazias, com aqueles seus dedos sem aptidão, a voz num fio como se não quisesse despertar os fotografados.

– Aqui, veja bem, aqui está sua mãe. E olhe nesta, você, tão pequeninho! Vê como está bonita consigo no colo?

Me comovo, tal é a convicção que deitava em suas visões, a ponto de meus dedos serem chamados a tocar o velho álbum. Mas Dulcineusa corrige-me.

– Não passe a mão pelas fotos que se estragam. Elas são o contrário de nós: apagam-se quando recebem carícias.

Dulcineusa queixa-se que ela nunca aparece em nenhuma foto. Sem remorso, empurro mais longe a ilusão. Afinal, a fotografia é sempre uma mentira.

– Engano seu. Veja esta foto, aqui está a Avó.

– Onde? Aqui no meio desta gente toda?

– Sim, Avó. É a senhora aqui de vestido branco.

– Era uma festa? Parece uma festa.

– Era a festa de aniversário da Avó.

Vou ganhando coragem, quase acreditando naquela falsidade.

– Não me lembro que me tivessem feito uma festa…

– E aqui, veja aqui, é o Avô lhe entregando uma prenda.

– Mostre! Que prenda é essa, afinal?

– É um anel, Avó. Veja bem, como brilha este anel!

Dulcineusa fixa a inexistente foto de ângulos diferentes. Depois, contempla longamente as mãos como se as comparasse com a imagem ou nelas se lembrasse de um outro tempo.

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Texto que preparei para a mesa Imagens Invisíveis no III Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia, que aconteceu em maio no MIS. Meus colegas nessa empreitada foram João Kulcsár e Tom Lisboa, de quem empresto a imagem para esse post. O convite veio do Ronaldo Entler, a quem devo muitas das boas provocações sobre esse assunto no Dobras.

Aqui o registro da mesa: