DOBRAS VISUAIS

Andressa Casado e os contos-imagens de Matrioska

Andressa Casado: Matrioska, 2013.

O buraco
Acho justo dizer que a princípio ela era inocente. Ainda não tinha deixado para trás a ingenuidade e por isso achou que não tinha problema algum em cavar um buraco.
No começo se contentava em apenas cutucar a terra com uma colher de cozinha, depois passou a perfurar o solo com os dedos, e começou a encher as mãos e retirar cada vez mais terra. O prazer que sentia quando aquela umidade do solo lhe tocava a pele era perturbador.
Seus pais não perceberam essa compulsão. Seus amigos repararam em suas unhas sujas, mas não acharam que era um problema grande o suficiente para se alarmar. Não havia mesmo com o que se preocupar, no geral. Coisa normal de menina normal.
Acontece que a necessidade de cavar mais fundo aparecia de vez em quando. A menina cavava horas a fio. Transpirando, cansada, mas persistente com sua incessante insistência. Deleitando-se com as mãos encardidas.
Até que um dia cavou tão fundo que ficou presa no próprio buraco.

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Esta pesquisa discute o conceito de Obra Aberta, investigando a sua utilização no cenário artístico atual de forma a refletir sobre o papel do observador da obra no trabalho do artista. Atenta-se para a relação das vivências do fruidor com a compreensão da obra e das experiências do criador refletidas na produção artística. Umberto Eco é destacado para contextualizar estes conceitos.

Pesquisa sobre narrativas, especialmente com textos e imagens, também fazem parte do processo. A complexidade de cada forma narrativa aliando a fotografia em diálogo com os textos e vice-versa.Vilém Flusser e Ricardo Azevedo são os principais autores explorados para esta parte do trabalho.

Os trabalhos de artistas que utilizam a relação texto e imagem em seus projetos aparecem como referências, com destaque para Sophie Calle e Louise Bourgois, cujas obras são compostas por ambas as formas narrativas.

Esse campo conceitual ampara o trabalho plástico Matrioska que apresenta pequenos contos de ficção em diálogo, cada um, com uma fotografia que provoca uma releitura do que foi antes proposto pelo texto. O processo da produção do livro apoia-se em um caderno de devaneios, em que eu imprimo os contos e colo todos com três páginas de distância uns dos outros. Nestas três páginas eu me permiti espaço para desenhar, escrever e refletir a respeito de cada história. Depois do devaneio vem a produção da imagem. O resultado é um conjunto contos-imagens de intenções extremamente pessoais, mas que permitem outras leituras e possibilidades a partir do ponto de vista do fruidor.

Para ler:

Matrioska: Contos e fotografia (TCC)

Matrioska (livro)

Trabalho de Conclusão de Curso do Bacharelado em Fotografia.

Centro Universitário SENAC, 2013.

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Andressa Casado é bacharel em Fotografia pelo Senac e artista da Residência em Fotografia do LABMIS em 2013-2014.

Andressa Casado: Matrioska, 2013.

A menina do espelho
Chorara muito, chorou tanto que lhe surgiu a necessidade de ver o estrago que a tristeza estampou em seu rosto.
Ao olhar o espelho, ela se deparou com olhos vermelhos, nariz inchado e boca trêmula, e o importante foi que pela primeira vez percebeu aquela do reflexo como ela mesma, o que a tornava a pessoa que melhor poderia entender o que ela sentia.
Desabafou.  Contou tudo e mais. Mais e tudo.
Para sua surpresa, ela do espelho respondeu. E respondeu de um jeito tão sincero e despretensioso que acabaram conversando por horas. Conversa que não resultou em solução, uma vez que o problema do princípio não aspirava por tal, mas fez a menina se sentir mais tranquila e aliviada.
Depois daquela vez as conversas entre o mundo real e o mundo refletido viraram uma boa rotina. Uma terapia gratuita e eficiente.
Tudo ficou ainda melhor quando descobriram que podiam trocar de lugar uma com a outra. No mundo refletido era tudo mais simples, o que muitas vezes causava certa dificuldade para a menina do mundo real querer voltar. Ela sempre voltava. Entendia que o tempo dentro do espelho não era solução, apenas uma folga onde podia aproveitar uma satisfação utópica.
A menina do espelho a substituía com prazer, a mudança de ares também não lhe era mal. Estava cansada já daquela vida inversa, onde só podia agir de acordo com o mundo de fora, sem autonomia ou opinião.
Foi assim – troca de lugar, volta pro lugar – até que chegou o dia que a menina do espelho resolveu com a menina do real que melhor seria se elas passassem o tempo todo juntas.
E a partir daí que a menina do real passou a não ter reflexo, apenas mais uma dela dentro dela.
 
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