DOBRAS VISUAIS

Leo Wen e o índio na fotografia brasileira

E. Thiesson: Botocudo, 1844. | E.Thiesson produziu as primeiras fotografias de índios brasileiros que se têm notícia. São daguerreótipos de índios “botocudos”, como se denominavam antigamente os índios que utilizavam botoques labiais e auriculares, mesmo sendo provenientes de etnias diversas.

O projeto de pesquisa Iconografia Fotográfica do Povos Indígenas do Brasil começou a ser desenvolvido no começo de 2013, logo após a divulgação do resultado do XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. O objetivo era traçar um panorama sobre um assunto ainda pouco estudado: a construção da imagem do índio ao longo da história da fotografia brasileira.

O interesse por este assunto surgiu logo na minha primeira experiência universitária: cursei metade do curso de Ciências Sociais, com foco em Antropologia, na Universidade de Brasília. Apesar de, já naquela época, valorar a importância daquele curso para a minha formação pessoal, decidi trocar minha cidade natal por São Paulo. Eu havia acabado de “descobrir” a fotografia e o Centro Universitário Senac era a única instituição que oferecia uma graduação nesta área.

Esta mudança de ares não me afastou por completo da antropologia. Logo no primeiro ano morando em São Paulo eu fiz algumas disciplinas como “aluno ouvinte” na USP e estagiei por um breve período no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, na mesma universidade, onde obtive uma bolsa do próprio Senac para desenvolver um estudo sobre a obra de Pierre Verger.

Entretanto, logo em seguida eu comecei a trabalhar como fotojornalista, o que me afastou por completo do mundo acadêmico. Agora, passados alguns anos e já morando no Rio de Janeiro, decidi propor para a Funarte este estudo sobre o índio na fotografia brasileira. Seria uma forma de voltar a me inserir no mundo da antropologia visual, ainda que não tenha muita certeza se vou seguir trabalhando especificamente com este tema em um futuro próximo.

Luiz Thomaz Reis: Rondon distribui presentes para os índios Paresi, s/d. | No começo do século XX, o conjunto de expedições liderada pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, mais conhecida como Comissão Rondon, produziu farto material etnográfico e fotográfico a respeito de dezenas de etnias, algumas nunca antes contatadas. Guiado por ideais positivistas, tinha como propósito “pacificar, civilizar e integrar” os índios à sociedade brasileira.

José Medeiros: Índio Iaualapiti, 1949. | Ao lado de Jean Manzon, José Medeiros foi um dos precursores do fotojornalismo moderno no Brasil, atuando como fotógrafo na revista O Cruzeiro. A linha editorial da revista ecoava os preceitos da Comissão Rondon, na medida em que disseminava a idéia de um índio originalmente selvagem, mas passível de ser domesticado e integrado à pátria.

Ernesto de Carvalho: Espelho Noturno, 2010-2013. | A produção de imagens por parte dos próprios índios é uma tendência crescente, especialmente no campo da imagem em movimento. Ernesto de Carvalho é antropólogo, fotógrafo e documentarista, e participa ativamente do projeto Vídeo nas Aldeias, idealizado por Vincent Carelli, cujo objetivo é formar cineastas indígenas capazes de produzir discursos e narrativas endógenos. Este ensaio é sobre o momento simbólico representado pelas projeções noturnas de tais vídeos nas aldeias, como um jogo de espelhos que reflete um amplo cruzamento de olhares.

Os nomes escolhidos para compor este mapa de autores foram definidos ao longo de uma extensa pesquisa bibliográfica. Instituições arquivísticas públicas e privadas, tanto do Brasil como do exterior, serviram como fontes iconográficas, especialmente no que se refere às fotografias produzidas nos séculos XIX e começo do XX. Já as imagens feitas nos anos 1970 em diante foram, em quase todos os casos, gentilmente cedidas pelos próprios fotógrafos que, salvo raras exceções, guardam consigo seu acervo de originais.

Em razão do amplo espectro de autores que este tema abrange, não se pretende aqui incluir rigorosamente todos os autores que já trabalharam com a questão indígena. Tampouco se trata de um estudo analítico exaustivo. A intenção deste projeto é apresentar para o público em geral esta história visual – suas principais vertentes, obras e autores. Por outro lado, espera-se que o conteúdo disponibilizado também sirva como fonte de informação para o público mais especializado – fotógrafos, pesquisadores, historiadores, antropólogos e às próprias comunidade indígenas – em suma, todos aqueles que desejem tomar este estudo como um ponto de partida para pesquisas mais aprofundadas.

Claudia Andujar: Yanomami, c.1971-1977. | Produzida essencialmente nos anos 1970, a obra de Andujar sobre os Yanomami trouxe para os campos fotográficos predominantes da época (fotografia documental clássica, fotografia etnográfica e fotojornalismo) um olhar assumidamente pessoal, aliando intenções documentais a uma busca estética bastante apurada.

Para ler e pesquisar:

O índio na fotografia brasileira

Pesquisa independente.

Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, 2012.

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Leo Wen é bacharel em Fotografia pelo Centro Universitário Senac. Em 2008, ganhou uma bolsa de estudos da União Européia para fazer um mestrado em fotografia documental em Londres. Publicou os livros MetaBrasília (Ed. do Autor, 2008) e Apto – A moradia moderna de Brasília (Ed. Tempo d’Imagem, 2011).