DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Patricia Gouvêa

Por Patricia Gouvêa

Tem muito tempo que Livia me pediu um texto para “Desempacotando Minha Biblioteca”. Deve estar beirando um ano que este convite chegou em minha caixa de e-mail. Fui atravessada, no entanto, por muitas coisas em 2013, processos de desapego e processos de gestação, dentre eles, o maior: minha primeira filha, Diana, que nasce em breve. Este texto foi ficando então para um momento de mais calmaria, mas de minha cabeça não saiu um só momento a presença deste livro que escolhi e que, depois de angariar fãs por aqui e acolá, ganhou finalmente sua edição brasileira em outubro passado. É um livro de cabeceira ao qual recorro sempre.

“Walkscapes: o caminhar como prática estética”, de Francesco Careri, me foi apresentado há alguns anos pela grande parceira e artista Isabel Löfgren, quando ela ainda residia em Cingapura, porto que lhe servia de base para incursões naquela porção de Mundo. Este livro fantástico chegou pelo correio de presente, como tantos que nos demos ao longo de anos de parceria artística. Ele foi crucial para o desenvolvimento de uma série minha, Exercícios de Arte Lúdica, e de um projeto grande em parceria com Isabel, Banco de Tempo.

Patricia Gouvêa: Exercícios de Arte Lúdica, 2005/in progress.

Patricia Govêa, em colaboração com Isabel Löfgren: A volta ao parque em 80 mundos, da série Banco de Tempo, 2011/work in progress.

O livro teve um efeito sobre alguns amigos parecido com outro que trouxe em 1998 do Rencontres Internationales d’Arles, na França, sobre a obra da artista Francesca Woodman, na época ainda bem desconhecida no Brasil. Posso dizer que fui uma espécie de “fundadora” de uma legião de fãs de Francesca aqui no Rio de Janeiro. O livro foi “raptado” por diversas pessoas, seu trabalho tornou-se material ilustrativo de aulas no Ateliê da Imagem e aonde mais eu fosse. Hoje, o estado do livro está meio crítico e sua capa original em papel teve que ser descartada.

O livro de Careri faz parte da coleção Land&Scape, editada pela Gustavo Gili de Barcelona, com títulos sugestivos como Waterscapes, Artscapes, Groundscapes, Latinscapes e Aridscapes, entre outros, sempre com textos diagramados em duas colunas, em inglês e espanhol. Espero que todos sejam traduzidos para o português, pois a coleção se propõe a lidar com o tema paisagem a partir de uma aproximação com outras disciplinas e do ponto de vista de uma sensibilidade ambiental, estética e formal mais complexa e contemporânea.

O autor de Walkscapes é italiano, arquiteto e membro do laboratório de arte urbano Stalker/Osservatorio Nomade, que propõe estratégias experimentais de intervenção baseadas em práticas espaciais e táticas interativas de convívio com o ambiente investigado, seus habitantes e a cultura local. Basta dar uma olhada no “Walkshop – Aqueduto de Águas Livres” realizado em Lisboa, em 2009, e o Flickr do projeto com os registros fotográficos para se ter uma ideia de como atua o laboratório.

Com esta bagagem investigativa dos cruzamentos entre arquitetura e arte contemporânea realizadas no lab Stalker, Careri se lança no livro numa investigação sobre o caminhar, o andar como ato produtor de arquitetura e paisagem. E como tais práticas, quase esquecidas pelos arquitetos, foram reativadas por poetas, filósofos e artistas, como na deambulação surrealista, na deriva situacionista, e na landwalk dos artistas do movimento Land Art, como Tony Smith e Robert Smithson.

Roberth Smithson e Carl Andre: Pine Barrens, New Jersey, 1968.

Richard Long: A Six Day Walk over all Roads, Lanes and Double Tracks inside a Six Mile Wide Circle Centred on the Giant of Cerne Abbas, 1975.

Da transumância nômade às transurbâncias realizadas no ambiente de experimentação do laboratório Stalker, Careri constrói sua argumentação na qual “o andar é uma arte que contém em seu seio o menhir, a escultura, a arquitetura e a paisagem. A partir deste simples ato foram desenvolvidas as mais importantes relações que o homem estabeleceu com o território”. (pág. 20, tradução minha)

De todas as passagens do livro, destaca-se para mim uma frase, na verdade um slogan, situacionista: “Habitar é estar em casa em todas as partes”. Para fotógrafos e artistas visuais, nada mais inspirador e atual no enfrentamento com um tema ou projeto. Para quem trabalha especificamente com situações urbanas, Careri deixa ainda outra pista valiosa:

“A cidade descoberta pelos vagabundeios dos artistas é uma cidade líquida, um líquido aminiótico onde se formam de um modo espontâneo os espaços outros, um arquipélago urbano por onde navegar caminhando à deriva: uma cidade na qual os espaços de estar são como ilhas do imenso oceano formado pelo espaço do andar” (pág 21, tradução minha).

Em 2012 foi realizado o projeto Eternal Tour São Paulo, capitaneado pela curadora Donatella Bernardi, idealizadora do projeto que já teve versões em outras cidades e que no Brasil contou com a co-curadoria de Fabiana de Barros. Dentre as diversas atividades foram realizadas as caminhadas urbanas “Por que São Paulo é bela?”, capitaneadas pelo arquiteto suiço David Zumstein e a artista e designer carioca Karin Zindel, radicada em Zurique.

Caminhemos, pois.

Referência:

CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. Barcelona, Gustavo Gili, 2013.

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Patricia Gouvêa é artista visual, trabalha com fotografia, vídeo, instalação e intervenção urbana. Seu trabalho prioriza a fotografia e a imagem em movimento e suas possíveis interfaces, onde a noção de tempo constitui um dos principais eixos de pesquisa. Entre 2005 e 2009 fez parte do coletivo Grupo DOC (Desordem Obssessiva Compulsiva), que promoveu dezenas de ações no Brasil e no exterior. Publicou 2 livros: “Membranas de Luz: os tempos na imagem contemporânea” (2011) e Imagens Posteriores (2012), e participou de muitos outros. Foi uma das fundadoras da Agência Foto In Cena (1995/98) e do Ateliê da Imagem (1999), espaço cultural dedicado à pesquisa, reflexão e produção da imagem no Rio de Janeiro, no qual atuou como diretora artística até dezembro de 2013.