DOBRAS VISUAIS

Daniela Bracchi e a fotografia de Lachapelle

David Lachapelle: Andy Warhol, Last Sitting, 1987.

A fotografia eloquente de David Lachapelle

As imagens dos mestres da fotografia era apaixonantes, mas a necessidade de escolher um conjunto de imagens para analisar no mestrado despertou o desejo de entrar em contato com fotografias que falassem do nosso tempo, tivessem a sua cor e a sua eloquência.

As fotografias do americano David Lachapelle saltavam aos olhos e se impunham como objeto de análise. Um fotógrafo do mundo da fama, passeando entre a fotografia publicitária, a fotografia de moda e projetos autorais, Lachapelle se destacou como um nome da fotografia atual que me pareceu especialmente astucioso. Das cores supersaturadas aos corpos à mostra, as suas imagens pareciam ostentar a vontade de construção de um discurso sobre a sexualidade, a fama e o maravilhamento próprio da espetacularização das celebridades.

Surpreendentemente, a primeira fotografia de Lachapelle a ser publicada e a conquistar fama é um retrato em preto e branco. Mas a paixão pelas celebridades e a ironia do fotógrafo já mostrava sinais. É Andy Warhol que nos olha maravilhado, e o que teríamos a dizer?

O que eu tinha a dizer naquela época sobre as imagens de Lachapelle é algo que hoje já consigo ponderar com maior distância. O referencial teórico da semiótica se impunha de modo imperativo. Naquele ponto da minha formação acadêmica foi preciso deixar ver a teoria por entre as imagens, reafirmar pontos de vistas e ainda assim entrar em contato com um modo sensível de construir um discurso fotográfico que aquelas imagens mostravam aos poucos.

Percebi que suas imagens tinham corpo e pele, e por isso fui caminhando para os confins da semiótica onde ela se torna mais sensível. Há nesse estudo uma tentativa de entender essas fotografias como imagens que excedem a visualidade e convocam o corpo de quem as vê. Por meio do visual, as imagens evocam outros sentidos, impondo-se como um corpo que convida ao diálogo para que o sentido se atualize.

Lachapelle desenvolve seu próprio léxico usando a fotografia como linguagem. Utiliza estratégias sensíveis, como a ostentação de cores, corpos e olhares e a semiótica plástica serviu de referencial teórico para entender melhor o emprego desses elementos. Certas escolhas composicionais também chamam a atenção. Lachapelle usa o cenário como importante recurso expressivo, e um verdadeiro jogo de olhares povoa seus retratos. Outras características estilísticas são mais da ordem do inteligível e a constante referência a quadros famosos da história da arte chama a atenção.

É sobre um modo pictórico de compor a cena que Lachapelle erige suas imagens. No constante apontar para obras pictóricas, esse fotógrafo vai definindo o que caracteriza seu estilo e a própria fotografia enquanto linguagem expressiva. Constantemente quadros famosos aparecem tanto como reproduções quanto como alusões menos claras à cenas importantes da história da pintura. Essas considerações me fizeram ver que desde sempre, e nas imagens atuais mais impactantes, a fotografia não está sozinha, mas tece suas teias com fios de outras linguagens como a pintura e o teatro [1].

Não deixo de pensar que aquilo que move Lachapelle é a tentativa de estabelecer um diálogo por meio da fotografia. Mas nem todo diálogo toma a forma de um sussurro e o de Lachapelle é eloquente.

[1] Vale lembrar que Roland Barthes, em A câmera clara (1980), aponta que a fotografia tem uma ligação mais fundamental com o teatro do que com a pintura.

Para ler:

A fotografia de David Lachapelle

Dissertação de Mestrado em Comunicação e Semiótica.

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009.

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Daniela Bracchi é pesquisadora na área de fotografia. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com a dissertação A Fotografia em David Lachapelle, é doutoranda em Semiótica na USP onde pesquisa as estratégias características à fotografia contemporânea brasileira atual em diálogo com as fotografias de Miguel Rio Branco. Lecionou fotografia no SENAC de 2009 a 2011 e desde 2008 é professora de Estética e História da Arte na graduação de Moda do Istituto Europeo di Design.