DOBRAS VISUAIS

Uma viagem a Paraty, por F+

Paraty em Foco, Portraits de Jorge Fuembena, 2013.

Era uma cidade histórica. Colonial. Que ficava na beira d’água.

Sobre as areias da praia, um boxeador, uma garota islâmica, uma garota enfaixada, uma freira. Todos eles em tom pastel. Parados. Olhando fixo, eternamente pra um só ponto. Nenhum usava biquini.

Na cidade tinham uns 5000 fotógrafos. Muitos com seus aparatos de “ver” pendurados no pescoço. Cada um estava alí, isolado de seu próprio mundo, em uma situação peculiar. Alguns para ensinar, outros para aprender, ou questionar, talvez reclamar, trocar, entender…

Caminhando pelas ruas era possível encontrar um foguete com astronautas vindos da África, trazidos por uma espanhola. A Espanhola tinha uma missão: arrancar páginas escritas de livros fotográficos.

Além dos astronautas, era possível cruzar com chineses em formação militar. Eles tinham cor de cinza, e faziam parte um cubo gigante, junto com peixes em saco plástico. Dentro deste cubo, havia um labirinto de simulacros. Imagens de diferentes pontos do mundo formavam corredores vertiginosos, de cores e luzes.

Ao cair da noite, coisas intrigantes aconteciam. Imagens saíam das paredes das casas e transportavam os passantes – entre eles, curiosos, turistas alheios e os habitantes daquele lugar – para outras dimensões espaço-temporais. Alguns levavam para o passado, outros para uma idéia de futuro.

Paraty em Foco, Torre de Babel, 2013.

O torpor tomava conta dos que se rendiam ao relaxamento da noite nas tabernas.

No meio da praça pública, pessoas que haviam passado o dia fotografando, reuniam-se para queimar fotografias.

Os dias passavam e se fosse possível ouvir ao mesmo tempo tudo o que se falava pelas ruas e por de trás das paredes antigas das casas, a única coisa que se ouviria, era qualquer coisa sobre fotografia. Seria possível ouvir uma Mexicana contando sobre lutadores ou brasileiros publicando intimidades.

Mas vozes mesmo, ganhavam as paredes, que sustentavam todas aquelas histórias de outros lugares, de outras paredes. Elas nos contavam sobre guerras de anos idos ou manifestações de ontem.

Junto com a movimentação das pessoas, dos dizeres, das imagens e dos pensares, as águas cíclicas das marés afogavam e aliviavam parte da cidade e imprimiam um compasso para aquele passar-de-tempo deslocado da realidade de todos que alí estavam.

Ao final, três grandes sábios falavam sobre tudo o que estava acontecendo nos planos sensíveis, estéticos e racionais, daquele tempo fora daquele lugar.

E assim, todos foram embora “outros”, deixando a cidade ao mar.

Fora uma situação extrema, aquele 9º Paraty em Foco.

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Sobre o F+

Formado por Caru Magano, Ivan Padovani e Ju Vasconcelos,
o F+ é um espaço dedicado ao estudo e prática em artes visuais,
e suas relações com a produção fotográfia contemporânea.

Paraty em Foco, Circuito Multimídia, 2013.