DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Susana Dobal

Por Susana Dobal

Tudo começa com um desafio e um título preciso. Impossível desempacotar um livro só que seria importante para a minha conexão com as imagens, como pediu Lívia Aquino. Impossível porque todo livro faz parte de um corredor, uma sucessão de livros composto pelos que vêm antes, que permitiram que um livro um dia se destacasse dos demais, e os que viriam depois, que permitiriam que o livro permanecesse mesmo tendo se tornado página virada. O corredor é ainda cheio de ramificações pois na verdade o que possibilita que um livro se destaque não é só a sucessão de outros livros e sim de outras tantas imagens de filmes, de quadros, de cenários por onde passamos, de poemas, de textos, de pessoas, de tudo que vai deixando suas marcas, marcas essas que passam a vida procurando ecos.  Às vezes os ecos surgem em livros, livros bem especiais, mas nunca apenas um, por isso desempacotar não um livro mas pelo menos uma mini biblioteca.

Alexander Gardner: Retrato de Lewis Payne, 1865. “Ele está morto e vai morrer”, Roland Barthes em A Câmara Clara.

A Câmara Clara – um fascínio e um ultraje. O clássico de Roland Barthes foi uma das primeiras leituras que confirmaram o meu interesse pela fotografia. O fascínio pela escrita e a impressão de participar de um mundo maior diante das imagens que impressionavam Barthes vieram, porém, com uma mácula, uma resistência que terminava me apontando o que eu entendia por fotografia. No fichamento do livro feito na juventude, estava já marcado um ultraje: como Barthes podia associar à morte aquilo que só me parecia ser uma celebração da vida? Escapava-lhe também uma dimensão fundamental: o olhar coerente que se forma ao longo da carreira de um fotógrafo e que termina por revelar uma visão de mundo. O que já me interessava na fotografia era o fato de os fotógrafos reagirem rápido ao que viam e de maneira a configurar uma visão coerente. Havia ainda o fato de poder ver o que o outro via, algo assim como entrar na mente alheia, satisfazer o desejo amoroso de habitar o outro mas, nesse caso, um outro impessoal, alguém que jamais encontraríamos, porém que deixava como legado uma porta aberta.

Diane Arbus: Magazine Work, 1984.

Diane Arbus: Norman Mailer em casa, Brooklyn, NY, 1963.

Diane Arbus foi uma das primeiras fotógrafas que me revelaram essa possibilidade. O mundo dela era estranho demais e no entanto, real, pessoas encontradas no meio do caminho. O livro marcante foiMagazine Work , que trazia a correspondência dela com os editores das revistas em que trabalhou, as pautas que ela propunha, planos, fracassos, empolgação com seus temas e ainda alguns artigos que ela mesma escreveu acompanhando suas imagens. Tudo aquilo dava uma impressão não de morte, mas de vida acontecendo, e com fervor. Havia ali uma liberdade de transitar e de se envolver com as pessoas, além de um estar no mundo e reagir a ele com imagens que me parecia uma aventura estimulante.

Robert Frank: Bar, Las Vegas, Nevada, 1955-6.

The Americans, de Robert Frank, foi também um livro fundamental pela visão independente sobre os Estados Unidos e por aproveitar tão bem o formato de livro para alinhavar as imagens, uma depois da outra, retomando temas mais adiante, acrescentando novas nuances a cada vez que um assunto reaparecia em outra fotografia. Além de um primoroso trabalho de edição, The Americans traz um olhar melancólico, mas não uma melancolia que sucumbe à apatia, e sim uma melancolia curiosa que leva a um olhar distanciado, irônico e ao mesmo tempo cúmplice do seu assunto.

Diane Arbus: Susan Sontag e seu filho Davie, New York City, 1965.

Em Sobre a Fotografia, de Susan Sontag, há, entre outros, um artigo em que ela fala sobre Diane Arbus e Robert Frank.  Com esse livro da Susan Sontag, entendi pela primeira vez que a fotografia merecia um olhar crítico capaz de desvendar algo mais do que o meu fascínio com o trabalho dos fotógrafos capazes de articular uma visão de mundo. Susan Sontag situava a fotografia em um contexto maior, fazia associações, desvendava a fotografia considerando-a também como uma manifestação cultural, preparava o terreno para que mais adiante eu encontrasse um outro livro também revelador. Hoje as ideias dela nesse livro me parecem às vezes genéricas, menos interessantes do que o seu mais tardio Diante da dor dos outros, porém, On Photography foi sem dúvida uma descoberta importante no meu percurso.

O trabalho de Maureen Bisilliat com a literatura e a fotografia me fisgou primeiramente com suas fotos baseadas no Grande Sertão: Veredas publicadas no livro Hinterland. Se para mim a fotografia permitia a entrada na mente do fotógrafo, Maureen Bisilliat trazia o testemunho de que uma conexão entre as pessoas realmente ocorre: a fotógrafa se associava ao escritor para olhar também com os olhos dele e mostrava que aquele mundo que Guimarães Rosa descreveu ainda estava lá, vivo, bem vivo e não apenas porque existe, mas porque há uma afinidade entre a maneira de os dois perceberem os mesmos locais e situações. Ela mostrava o sertão não com a luz ofuscante que conhecemos, mas com uma luz misteriosa, em retratos marcantes e com surpresa diante dos cenários, tudo muito coerente com os trechos do texto citado nas legendas. Era um diálogo real entre os dois (que, a propósito, se conheciam e conversaram sobre o projeto), porém pronunciado com imagens. Depois descobri Cão sem Plumas, livro de fotos também dela, onde o poema de João Cabral de Melo Neto encontra uma tradução não literal, porém pungente. Ao materializar a obra de escritores em fotografias, Maureen Bisilliat reforçava aquela ideia de um diálogo silencioso entre pessoas que em geral só se conhecem pelas páginas de livros, pelas letras ou pelas imagens, e revelava ainda que palavra e imagem combinadas podem uma elucidar a outra.

Há poucos anos atrás, cheguei a um livro teórico que renovou meu entusiasmo com a fotografia ­– algo que também acontece quando encontro trabalhos de um ou outro fotógrafo, como o de Hiroshi Sugimoto, que traz ideias a serem desvendadas por trás das imagens. A Fotografia: entre Documento e Arte Contemporânea, de André Rouillé, faz uma leitura da história da fotografia situando-a na História e retoma a obra de fotógrafos propondo conceitos para fazer entender a coerência na produção fotográfica dispersa. Foi um livro que me entusiasmou bastante pois ampliava o que Susan Sontag já me tinha anunciado no passado: a fotografia é uma manifestação visual de diversas dimensões, eficaz em oferecer um testemunho do pensamento visual imerso no seu tempo.

Gerhard Richter: Lancha, 1965.

Edward Hopper: Posto de Gasolina, 1940.

Minha biblioteca dedicada à fotografia não é só feita de livros, há quadros nas paredes e alguns trazem imagens que se movem. Muitos pintores me ensinaram a ver e a admirar a fotografia, dentre eles destaco principalmente Caravaggio, pela luz e pela expressividade dos personagens, Edward Hopper também pela luz, pela percepção do espaço e pela inexorável e banal solidão de seus personagens e Gerhard Richter, por finalmente me convencer do fato óbvio de que A Fotografia não é só feita pelos fotógrafos. Richter, com suas pinturas feitas a partir de fotos (apenas uma parte da sua vasta obra), também está na seleta categoria dos que renovam a minha fé na fotografia. O cineasta Andrei Tarkovsky também. O poeta William Carlos William também. Enfim, considerando agora a seleção de livros, reconheço que a minha experiência da fotografia está muito associada à palavra. É ela que permite que o emaranhado de imagens torne-se um mapa de referências – esse mapa deveria levar a algum tesouro perdido, não fosse pelo fato de que o tesouro são as referências mesmas. Essas referências são, na verdade, pessoas-livro: algumas, omitidas aqui, atravessaram o meu caminho pessoalmente, outras compareceram de maneira indireta e involuntária, apenas como referências. De uma maneira ou de outra, essas criaturas me mostraram novos horizontes.

Todos esses seres habitam a minha biblioteca-abrigo, um tipo de templo dedicado à imagem e ao texto onde estamos sentados, lado a lado, com uma proximidade impessoal, porém reconfortante. Às vezes, ali sentada na calada da noite, folheio sites como o  photography-now.net e em meio àquelas páginas virtuais passeio pelo mundo, com olhos alheios – difícil hoje falar de biblioteca sem pensar também em tantas páginas na web. A fotografia permite não apenas ir onde não iríamos, mas principalmente ver como o outro vê: os bons fotógrafos conseguem fazer com que essa percepção seja revelada e compartilhada. O gesto de desempacotar a biblioteca consiste de, enfim, acessar um acervo de imagens e textos cada vez que algo no caminho detona um hyperlink para alguma imagem desse acervo. As coisas então aparecem alinhavadas, com uma coerência própria, como ocorre com livros nas prateleiras de uma biblioteca, porém com um critério de organização particular, ou melhor, como ocorre com um livro imaginário onde tudo que foi acumulado se associa de alguma forma. Um livro labiríntico atende finalmente à tarefa de desempacotar a biblioteca.

Referências:

ARBUS, Diane; Southall, Thomas W.; Arbus, Doon and Israel, Marvin. Diane Arbus: Magazine Work. London, Bloomsbury, 1992.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Lisboa, Edições 70, 1980.

BISILLIAT, Maureen e ROSA, Guimarães. Hinterland. Edição bilíngue. St. Gallen/Köln, Edition Diá, 1987. [Para a edição brasileira, ver BISILLIAT, Maureen. A João Guimarães Rosa. São Paulo, Brunner, 1969].

BISILLIAT, Maureen. O Cão sem Plumas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983.

FRANK, Robert. The Americans. New York, Aperture, 1969.

ROUILLÉ, André. Fotografia – Entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Senac, 2009.

SONTAG, Susan. On Photography. New York, Delta, 1988. [Ensaios sobre a Fotografia. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1986.]

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Susana Dobal é professora da Universidade de Brasília (UnB), graduada em Jornalismo (UnB, 1988), em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira (UnB, 1989), tem especialização em Teoria da Literatura (UnB, 1992), mestrado em Fotografia (New York University/International Center of Photography, 1994), doutorado em História da Arte (City University of New York/Graduate Center, 2003) e pós doutorado na Université Paris 8 (2009). Publicou o livro Peter Greenway and the Baroque: writing puzzles with images (Lambert, 2010). Desenvolve o blog Fotoescritas.