DOBRAS VISUAIS

Todos os nomes | José Saramago

Leo Caobelli: Fábulas Contínuas, 2013.

O que é fotografia?

“Pessoas assim, como este Sr. José, em toda a parte encontramos, ocupam seu tempo ou o tempo que creem sobejar-lhes a vida a juntar selos, moedas, medalhas, jarrões, bilhetes-postais, caixas de fósforos, livros, relógios, camisolas desportivas, autógrafos, pedras, bonecos de barro, latas vazias de refresco, anjinhos, cactos, programas de ópera, isqueiros, canecas, mochos, caixinhas de música, garrafas, bonsais, pinturas, canecas, cachimbos, obeliscos de cristal, patos de porcelana, brinquedos antigos, máscaras de carnaval, provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo, por isso, com as suas fracas forças e sem ajuda divina, vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda o conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua coleção, porque quando chega o dia de ela se dispersar, e sempre chega esse dia, ou seja por morte ou seja por fadiga do colecionador, tudo volta ao princípio, tudo torna a confundir-se. (…) A coleção do Sr. José parece-se muito com a vida. (…)

E que vai ele fazer, se já não pode realizar o que pensou, Fará o que sempre fez, recortes de jornais, fotografias, notícias, entrevistas, como se não tivesse sucedido nada, Coitado, não acredito que o consiga, Porquê, A angústia, quando chega, não se vai embora com essa facilidade. (…)

As pessoas famosas de sua coleção, por onde quer que andem, têm sempre um jornal ou uma revista a seguir-lhes a pista e a fungar-lhes o cheiro para mais uma fotografia, para mais uma pergunta, mas da gente vulgar ninguém quer saber, ninguém se interessa verdadeiramente por ela, ninguém se preocupa com saber o que faz, nem o que pensa, nem o que sente, mesmo nos casos em que se quer fazer crer o contrário, é fingido. (…)

Leo Caobelli: Fábulas Contínuas, 2013.

O Sr. José olhou a mulher, ela estava a olhá-lo a ele, não vale a pena gastar palavras a explicar a expressão que tinham nos olhos um e outro, só importa o que ele foi capaz de dizer ao cabo de um silêncio, Eu também não. Então a mulher levantou-se da cadeira, puxou uma gaveta do móvel que estava atrás de si e tirou de lá o que parecia um álbum, São fotografias, pensou o Sr. José com alvoroço. A mulher abriu o livro, folheou-o, em poucos segundos encontrou o que queria, a fotografia não estava colada, mantinham-na apenas quatro pequenos encaixes de cartolinas pregados à folha. Aqui tem, leve-a, disse, é a única que conservei dela, e agora espero que não me pergunte se também tenho fotografias dos pais. Não perguntarei. O Sr. José estendeu a mão trémula, recebeu o retrato a preto e branco de uma menina de oito ou nove anos, um rostinho que devia ser pálido, uns olhos sérios debaixo de uma franja que roçava as sobrancelhas, a boca quis sorrir mas não pôde, ficou assim. Coração sensível, o Sr. José sentiu arrasarem-se lágrimas os seus próprios olhos. (…)

Na Conservatória Geral não era assim, na Conservatória Geral não se podia ver como tinham mudado e iam mudando as caras, quando o mais importante era precisamente isso, o que o tempo faz mudar, e não o nome, que nunca varia. Quando o estomago do Sr. José deu sinal, estavam em cima da cadeira sete verbetes, dois deles retratos iguais, a mãe devia ter dito, Leva este do ano passado, não precisas de ir ao fotógrafo, e ela levou o retrato, com pena de não poder ter este ano uma fotografia nova. (…)

Ninguém tem o direito de apropriar-se de retratos que não lhe pertençam, salvo se lhe foram oferecidos, levar um retrato duma pessoa no bolso é como levar-lhe um pouco da alma. (…)

O que lhe valeu foi a fotografia colada na ficha, é a diferença mais notável entre os verbetes escolares e os de nascimento e vida, não faltaria receber a Conservatória Geral todos os anos, diria todos os meses, ou todas as semanas, ou todos os dias, ou uma fotografia por hora, meu Deus, como o tempo passa, e o trabalho que iria dar, fotografia cada minuto, cada segundo, a quantidade de cola, o gasto em tesouras, o cuidado na seleção do pessoal, de modo a excluir os sonhadores capazes de ficar eternamente a olhar um retrato, devaneando como idiotas a ver uma nuvem passar. (…)

O Sr. José foi buscar a um canto da casa um braçado de revistas e de jornais antigos de que já havia recortado notícias e fotografias, podia ser que algo de interesse lhe tivesse passado despercebido, ou que neles começasse a falar-se de alguém que se apresenta-se como uma aceitável promessa nos difíceis caminhos da fama. O Sr. José voltava às suas coleções. (…)

Tinha na sua frente o processo e o verbete, tinha também os treze verbetes da escola, o mesmo nome repetido treze vezes, doze imagens diferentes da mesma cara, uma delas repetida, mas todas elas de cada vez mortas no passado, já mortas antes de ter morrido a mulher em que depois se tornaram, as velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós, Quem será este que está a olhar para mim com cara de pena, diria. Então, subitamente, o Sr. José lembrou-se de que havia ainda outro retrato, o que a senhora do rés-do-chão direito lhe tinha dado. Sem o ter esperado, acabara de encontrar a resposta à pergunta de a quem poderia interessar o estranho caso da mulher desaparecida. (…)

Tenho fotografias. Fotografias também são papéis, Podemos dividi-las. (…)

Já que a memória, que é susceptível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos factos cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra. (…)

Perguntou-se como iria viver a sua vida daqui para adiante, se voltaria às suas coleções de gente famosa, durante rápidos segundos apreciou a imagem de si próprio, sentado à mesa ao serão, a recortar notícias e fotografias com uma folha de jornais e revistas ao lado, a intuir uma celebridade que despontava ou que pelo contrário fenecia. (…)”

José Saramago em Todos os nomes (São Paulo: Companhia das Letras, 1997).

Para conhecer mais: Leo Caobelli: Fábulas Contínuas.

Leo Caobelli: Fábulas Contínuas, 2013.