DOBRAS VISUAIS

Leo Caobelli e Las cosas por su nombre

Leo Caobelli: Las cosas por su nombre, 2013.

Os tempos de uma história (Ou quando me despedi de Rodolfo)

Tenho uma relação de extremo carinho pela capital uruguaia, Montevideo. Aprendi a gostar do país como um todo, viajando de carro pelo ruta 9, parando nos pequenos balneários de água fria e casas aconchegantes. Mas era sempre a entrada pela Rambla montevideana que me despertava uma nostalgia por um lugar que ainda nem conhecia direito.

Identifiquei, com o passar do tempo, que era a própria relação dos montevideanos com esse tempo que me seduzia. “Che, hay alguna estación de Ancap por acá?”,  perguntava se o tanque ameaçasse entrar no vermelho. “Si, sigue en derecho y agarra la doble via a mano izquerda. Suavecito”, indicava a direção alguém que fazia questão de diminuir meu ritmo, alentar-me.

Quando encontrei Rodolfo Castellano na tradicional feira dominical da Tristán Narvaja o tempo se deteve. Não se tratava mais de ir devagar, mas de alargar os segundos, fazer dos minutos horas e das horas algo maior que os dias. Os 10 anos de recordações de viagem contidas naquele álbum feito a mão por Rodolfo iam muito além de uma década.  Voltamos juntos para São Paulo.

Poucos dias depois me matriculei no programa de pós-graduação em fotografia da FAAP e Rodolfo já era, aquela altura, uma espécie de objeto de estudo. Em uma rápida passada pelo bibliografia básica do curso, cheguei a uma nota de Walter Benjamin que traduzia facilmente meu encontro montevideano: “Para o colecionador […] a posse é a mais íntima relação que se pode ter com as coisas: não que elas estejam vivas dentro dele; é ele que vive dentro delas”. E foi assim mesmo, eu fui do álbum, estive nele, fui contido e não o contrário. Com essa certeza segui ao Rio a trabalho e me hospedei no mesmo hotel em que esteve Rodolfo em Setembro de 1970.

Leo Caobelli: Las cosas por su nombre, 2013.

“São Paulo, 30 de janeiro de 2011.

Querido Rodolfo,

Quis te escrever essa carta ainda no Rio de Janeiro, em minha primeira tentativa de duplicar tuas viagens. Fiquei no mesmo Hotel em que você esteve 32 anos atrás, mas o Califórnia passou por tantas reformas que duvidei da existência de qualquer objeto que tenha permanecido intacto desde tua estada.

Em minha penúltima noite na cidade, enquanto caminhava pelo centro, vi interditarem algumas ruas próximas ao Teatro Municipal e só mais tarde, assistindo ao noticiário, descobri que um prédio inteiro tinha desabado por ali. Sem entender muito o motivo, caminhei até o mesmo local pela manhã e pude ver de perto o prédio no chão. Uma montanha imensa de escombro e ruína.

Cada um dos curiosos que se espremiam comigo junto as grades de proteção contava alguma história sobre o edifício. Um motoboy falava sobre a entrega que fez, uma semana antes, no décimo andar; uma senhora narrava o cotidiano de secretária durante os quinze anos em que trabalhou ali, no vigésimo segundo; um advogado visitou um cliente, quinto; o médico encontrou um amigo, sétimo; a estagiária recém tinha feito uma entrevista de emprego, décimo quinto ou sexto, não lembra ao certo. Todos falavam sobre o que já não estava mais lá. Na verdade, Rodolfo, aquele prédio nunca esteve tão presente quanto no momento de sua ausência e agora, já em São Paulo, isso tudo me pareceu carregar muito de ti. Talvez esse tenha sido o duplo que fui procurar no Rio.

Ontem, porém, tua ausência pesou um pouco mais quando encontrei teu nome no obituário da versão online do El País. Você morreu no dia 27 desse mês, dois dias depois do desabamento no Rio e 25 dias depois de ter encontrado seu álbum em Montevideo. Não tenho mais a quem endereçar essa carta, mas escrevo como se isso me bastasse.

Começo a mapear os lugares por onde você passou e encontro em meus postais, bilhetes de avião e tíquetes de trem diversos outros duplos que você também me deixou. Essa última viagem catalogada no teu álbum termina poucos dias antes do meu nascimento e, em outro momento de duplicidade, passa pela cidade onde nasci.

Não consigo deixar de pensar em refaze-la.

Se me colocar nos teus mesmos caminhos, seguindo esse mapa dos teus passos, serão densos assim nossos próximos encontros?

Cariño, Leo.”

 

Leo Caobelli: Las cosas por su nombre, 2013.

Refiz a viagem um ano e meio depois de escrever a carta, durante o recesso letivo do mês de Julho, como se esse tempo dilatado fosse também uma maneira de ir suavecito, sem apuro. Tinha mapeado seus lugares de parada e seus pontos principais na cidade onde vivia: sua casa, seu trabalho, o restaurante favorito, o cemintério. Tinha marcos, mas não tinha planos. Gostava de me perder na cidade como se fosse só mais um montevideano caminhando pela cidade, sem pressa, sem achar que assistir o tempo passar representava um pecado capital. E o tempo passou enquanto eu fichava minha bibliografia: Benjamin, Dubois, Blom, Flusser, Manoel de Barros, Pamuk, Mia Couto, Calvino, Safran Foer, Alexandre Sequeira e um monte de gente que tornava aquela experiênca ainda mais rica. Buscava em Rodolfo minhas relações familiares, assim como buscava o pertencimento no arquivo do outro, nos espelhismos, nas repetições de gestos, nos tempos que se sobrepõe.

Não escrevi diários durante o mês em que viajamos juntos. Quis que a memória também adotasse a lentidão suave desse mover-se. Três meses depois de meu retorno a São Paulo, depois de conhecer seus companheiros de trabalho, a sala onde ele trabalhou no banco, visitar sua casa e comer seu prato de raviolis predileto, escrevi o que me lembrava de nosso mês de convivência e revelei os 12 rolos de Kodak Portra 120mm. As imagens e os textos tinham o mesmo peso e relevência. Quis fotografar os espaços em que uma aparição fosse possível, mas que nunca acontecesse. As palavras fotografaram melhor.

Leo Caobelli: Las cosas por su nombre, 2013.

Esses 10 textos memoriais, junto das fotografias que fiz no caminho de retorno – quando efetivamente refiz sua viagem de Montevideo ao Rio, e não mais andava em sua contramão – juntaram-se ao seu álbum como centro de análise da monografia.

Escrever sobre esse encontro, sobre a viagem e as descobertas que nos acompanharam ao longo dos dois anos da pós-graduação serviu também para me incutir alguma metodologia e disciplina, mas serviu essencialmente mais para me fazer entender meus interesses e temas de pesquisa, meus caminhos e minha relação com a narrativa e com o tempo.

Na cronologia de eventos, 5 meses depois de retornar da viagem, entreguei a Faap uma caixa contento 3 objetos (uma moeda do centenário do banco da república onde coincidentemente estava cunhada a janela do segundo andar onde trabalhou Rodolfo, uma xícara do Climax Hotel Curitiba onde ele se hospedou em Abril de 1980 e a palavra saudade gravada em metal como as que se colocam em túmulos e que lembrava um irmão que tive antes mesmo de nascer), a carta transcrita nesse post, um facsímile do álbum e os textos memoriais.

Dois meses depois passaria pela banca de especialização e colocaria lado a lado a caixa criada e o álbum original. Sabia que aquele não era ainda meu momento de ruptura com Rodolfo. Poucos meses antes havia saído o resultado do XII Prêmio Funarte Marc Ferrez e Rodolfo estaria presente em uma exposição chamada Fábulas Contínuas, na qual se encontraria com outro personagem vindo de uma busca arquivista: Esko Tikänmaki, do amigo Diego Vidart e curadoria do querido professor Fernando Schmitt uma grande família de colecionistas.

Antes que a viagem a Montevideo e aos lugares de Rodolfo Castellano completasse um ano, abrimos a mostra na galeria Mascate em Porto Alegre. O álbum transbordou sua bidimensionalidade e ganhou volume em relicários que expõe seus tíquetes, passagens, fotos e objetos coletados na viagem. As fotografia do caminho peregrino, esse trajeto de refazer seus passos, ganharam cadência e forma misturando textos e fotografias dentro de um mesmo formato, sem hierarquias. A sobreposição de Rodolfo e Esko traçam agora um novo momento, onde nossos encontros se embaralham e possibilitam ao visitante (e inclusive instigam) buscar por seu próprio pertencimento nessas histórias: quem mais poderia ter encontrado Rodolfo em um saguão de hotel, pelas ruas do centro montevideano ou em uma caminhada pelo viaduto do Chá.

Agora, definitivamente, Rodolfo não é mais meu, nem eu sou somente dele. Em um móvel composto por linhas que traçam um eixo espaço-tempo, os visitantes deixam cartões relatando onde poderiam ter encontrado com o simpático bancário uruguaio. Leio cada um desses registros e me preparo para deixá-lo na galeria, longe de mim, pela primeira vez. E assim nos despedimos, ao menos por dois meses.

Ficha de estudo#128:

“Meu amor e minha saudade são só meus . E o tempo a que se referem é o meu tempo e o mundo inexoravelmente reduzido à minha percepção e à minha arrumação da realidade”. (GEBARA, Ivone. O que é saudade. São Paulo: Brasiliense, 2010. pág. 33)

Para ler:

Las cosas por su nombre

Monografia de Especialização em Fotografia.

Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP, 2012.

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Leo Caobelli é graduado em Jornalismo pela PUCRS, pós-graduado em fotografia pela FAAP e um dos integrantes da Garapa, um espaço de criação coletiva que produz narrativas visuais, integrando múltiplos formatos e linguagens.

Leo Caobelli: Las cosas por su nombre, 2013.