DOBRAS VISUAIS

Ver é uma fábula, mas também poderia ser um haicai

Cao Guimarães: Quarta-feira de Cinzas (vídeo), 2006.

O curador Moacir dos Anjos empresta a expressão Ver é uma fábula, de Paulo Leminski, para dar título a exposição de Cao Guimarães no Itaú Cultural, encerrada nesse final de semana. Define assim um campo que “implica o poder de forjar histórias existentes em cada visada particular sobre o mundo” [1]. Difícil não ser tomada por essa definição aparentemente simples mas que abarca o universo de uma obra cujo intento é “compartilhar uma sensação de estar no mundo”, segundo o artista [2], cuja produção é composta por filmes, curtas e longas, e também por fotografia.

Iniciei a visita influenciada por esse título, considerando que as fábulas são histórias breves nas quais os personagens, representados por animais ou forças da natureza, assumem características humanas e que, portanto, o verbo fabular pode significar narrar histórias e acontecimentos, em geral imaginários, para tratar de aspectos da realidade. Entretanto, logo percebi que nessa analogia entre o ver e uma estrutura emprestada da literatura, comecei a seguir um outro caminho, ainda com Leminski, mas na sua relação com o haicai, já que a lembrança de inúmeros desses pequenos poemas rodeou meus pensamentos enquanto assistia os vídeos dessas “sensações de estar no mundo” de Guimarães.

Cao Guimarães: Drawing (video), 2011.

Paulo Leminski publicou seu livro Quarenta clics em Curitiba em 1976, um conjunto de pranchas soltas nas quais uma fotografia de Jack Pires é exibida ao lado de um poema. Dez anos depois, o poeta participaria da V Semana Nacional de Fotografia com uma palestra intitulada O Haicai e a fotografia (material publicado em uma revista que infelizmente não tenho a fonte – aqui o pdf).

O texto fala do haicai como uma estrutura formal bastante definida em que se valoriza o “fragmentário e o ‘insignificante’, o aparecimento banal e casual, sempre tentando extrair o máximo de significado do mínimo de material.” Leminski ainda ressalta que os mestres japoneses acreditam que o haicai acontece e que cabe aos autores “permitirem que a realidade se transforme em significado”. A partir daí traça suas relações entre essa curta forma de poesia e a fotografia com argumentos que me parecem perigosos como a ausência de retórica e a chave do momento decisivo, citando o livro do arqueiro zen tão caro a Henri Cartier-Bresson. (Uma curiosidade: fico sempre pensando se Leminski, na época da palestra, conhecia o texto The Preparation of the Novel (1978), uma aula onde Barthes também aproxima o haicai e a fotografia pelo noema isso-foi, “minha proposta de trabalho é que o haicai dá a impressão de que aquilo que ele anuncia aconteceu, absolutamente” [3]).

Cao Guimarães: Coletivo (vídeo), 2002.

Mas eu escolheria alguns haicais de Leminski para pensar na obra do Cao Guimarães, menos pela estrutura formal, mais por essa ideia de buscar o máximo de significado com o mínimo de material – em palavras, ou em imagens:

a

tarde de vento

até as árvores

querem vir para dentro


nuvens brancas

passam

em brancas nuvens


o tempo

entre o sopro

e o apagar da vela


1o dia de aula

na sala de aula

eu e a sala


aqui nessa pedra, alguém sentou para olhar o mar

o mar não parou para ser olhado

foi mar pra tudo que é lado


não fosse isso

e era menos

não fosse tanto

e era quase


Há tanto a construção a partir de breves aspectos da realidade, como uma constatação de que essas sutilezas são muito expressivas para o autor. Assim como o são para Guimarães, com as palavras de itinerários de ônibus cruzando o vídeo, a água desenhando um mapa no ladrilho, as formigas carregando confetes coloridos, a bolha flutuando na paisagem, o movimento do brinquedo que ao girar recriar espaços ou a série das gambiarras. Pequenos acontecimentos grandiosos como em um haicai.

Cao Guimarães: Gambiarra, 2002-2007.

Cao Guimarães: Gambiarra, 2002-2007.

1. Folder da mostra Ver é uma fábula, Itaú Cultural, 2013.

2. Site do Itaú Cultural.

3. BARTHES, R. A preparação do romance I. São Paulo: Martins Fontes, 2005.