DOBRAS VISUAIS

Jéssica Mangaba e o Lapso

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Em outubro de 2009 assisti a um filme cuja uma das cenas mais bonitas era a do personagem principal observando o mar após dançar com a pessoa que ele passara o filme todo buscando e encontrara, em sua memória e imaginação. Lembro de ter chorado muito sem saber ao certo o motivo. Talvez por tudo e pela trilha sonora, de Eleni Karaindrou. Saí da sala de projeção emocionada e com algum tipo de satisfação em ter e estar em uma fotografia que em algo se assemelhava a cena do filme. Contemplava o mar vasto que banha o território, ao mesmo tempo tão seco, onde minha mãe nasceu.  Naquele dia o céu era de um azul acinzentado, que poucas vezes vi no Ceará.

Entre 2011 e 2012, período em que cursei a pós-graduação em Fotografia, não foram poucas as vezes em que questionei minha presença no curso. Pelo simples fato de que, no inicio, eu não sentia uma real vontade de produzir e pensar muito sobre fotografia. O que era compreensível para mim mesma, uma vez que estava vivendo um processo de ruptura que era fortemente ligado à fotografia.  Até o momento em que me dei conta de que o trabalho mais honesto que eu poderia fazer era o mesmo motivo de eu ter pensando em não fazer. Precisava esquecer.

Fazer o caminho inverso: fotografar para esquecer. Assim, comecei a construir o trabalho que depois foi intitulado lapso.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Assumindo, ou talvez criando, uma postura autoral enquanto referente na imagem fotográfica, selecionei algumas imagens que, em sua maioria, compõe os trabalhos sopro e bloco e notas, de Breno Rotatori, e passei a remover a minha figura e a de elementos ligados a mim.

A pesquisa se dividiu em alguns momentos/movimentos. Sendo o primeiro deles o do apagamento, da remoção dos pontos de “sustentação” das imagens, muito próximo da ação de rasgar uma fotografia a fim de simbolicamente selar o rompimento com a pessoa então presente nela. De forma que, nesse primeiro momento, poderia esquecê-los enquanto associados a pessoa que outrora os tomou para si através da fotografia.

O segundo foi o de perceber o jogo de ilusões que construí. Em Seduzidos pela Memória (2000, p.18), Andreas Huyssen me lembrou de que “Freud já nos ensinou que a memória e o esquecimento estão indissolúvel e mutuamente ligados; que a memória é apenas uma outra forma de esquecimento e que o esquecimento é uma forma de memória escondida.”

Como lidar com o vazio que tornou tão potente a ausência de algo que eu mesma removi se não com a ilusão de que posso não mais pensar no que antes estava ali presente?

Voltei há algo que buscava pouco antes de iniciar essa pesquisa, que era em como representar um certo tipo de esvaziamento na imagem fotográfica, de forma que as imagens não fossem compostas por elementos que saltassem aos olhos sugerindo serem o motivo da composição. Ao iniciar a minha movimentação nas imagens que compõem lapso, esvaziando-as de seus referentes, passei a encontrar o vazio que procurava, que dava conta da representação do meu silêncio e reclusão.

lapso passou a ser então o meu encontro com o silêncio e o vazio, repleto de suas completudes. Que me levou novamente ao lugar daquela fotografia semelhante a cena do filme, mas agora composta somente de azul, azul de céu e mar. E então entender o que pode representar a frase “a eternidade e um dia”, escolhida por Theo Angelopoulos para intitular seu filme de existência e trilha sonora tão bonita.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Todas as imagens são silenciosas para mim, mas essa de tanto azul poderia vir acompanhada.

Para ler:

Lapso

Monografia de Especialização em Fotografia.

Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP, 2012.

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Jéssica Mangaba é graduada em Fotografia pelo Centro Universitário Senac e pós-graduada em Fotografia pela FAAP. Entre as exposições que participou, destacam-se Cidades Contínuas: Prólogo. Condomínio Cultural. São Paulo; Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira. Sesc Belenzinho. São Paulo; SOUVENIR # Brasilien. Kunst im Kulturflur. Hildesheim, Alemanha e Projeções – Sala Hélio Oiticica. 4o Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre. Santander Cultural. Porto Alegre.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.

Jéssica Mangaba: Lapso, 2012.