DOBRAS VISUAIS

A confissão da leoa | Mia Couto

Sebastião Salgado: Genesis, Zambia, 2010.

O que é fotografia?

“- Vou fazer uma reportagem da caçada, fui contratado pela mesma empresa que o contratou a si.

– Tenho certeza de que vai gostar. E os leões vão gostar de saber que a morte deles merece uma reportagem.

É a primeira vez que vou participar numa caçada. Devo dizer, sem ofensa, que sou contra.

– Contra o quê?

– Contra as caçadas. Ainda por cima tratando-se de leões.

– O problema, caro escritor, é que você nunca viu um leão.

– Como nunca viu?

– Viu leões em safaris fotográficos, mas você não sabe o que é um leão. O leão só se revela, em verdade, no território em que ele é rei e senhor. Venha comigo a pé pelo mato e saberá o que é um leão. (…)

Henrique Baleiro cumpria o resto do ritual: invariavelmente, metia a carta num envelope que humedecia nos lábios e que depois guardava na mala de viagem. Transportava aquelas cartas para as demoradas caçadas. Levava também uma fotografia desfocada de Martina.

– Está assim, sem foco, para os outros verem, mas não olharem demais. (…)

Sebastião Salgado: Genesis, Congo, 2004.

Sebastião Salgado: Genesis, Botswana, 2007.

Aqueles que matamos, por mais estranhos e inimigos que sejam, tornam-se nossos parentes para sempre. Nunca mais se retiram, permanecem mais presentes que os vivos. (…)

Sou um caçador. Eu não mato, eu caço. (…)

O escritor segue atrás de mim, de máquina fotográfica a tiracolo. (…) Os aldeões suspendem a cerimônia, em silêncio, observam-nos com animosidade. Está patente no olhar que nos lançam: somos intrusos, estamos contaminando o momento. De imediato, o escritor percebe que está fora de questão tirar fotografias. (…)

Então percebo: aqueles caçadores já não são gente. São leões. Aqueles homens são os próprios animais que pretendem caçar. Aquela praça apenas confirma: a caça é uma feitiçaria, a última das autorizadas feitiçarias. (…)

Extasiado, o escritor comenta:

– Espetáculo inesquecível! Uma exibição telúrica, que pena não ter podido fotografar! (…)

Sabia que o pisteiro e a leoa morreram abraçados, como se os dois se reconhecessem, íntimos parentes.

– Tivemos que separar os corpos, com muito custo. Aquilo parecia um parto às avessas. Dizem que o escritor até chorou. Nem conseguiu fotografar. (…)

Máquina fotográfica balançando no peito, o escritor segue atrás de mim. Os espinhos roçam-me as pernas e os braços. Um rastro de sangue é a minha herança. Sou um caçador que sangra mais do que a vítima. (…)

A leoa tinha sido morta junto à estrada. A esta hora já fora conduzida para a aldeia onde iria ser exibida como uma prova do êxito da caçada. Restava o macho, que se apresentava imponente. Por esta razão, o administrador pediu que se fotografasse não a leoa mas o leão: a imagem renderia mais nos noticiários da nação. (…)

– Fotografe-me a mim, junto com o troféu – insiste o administrador. (…)

Não é matar que me fascina. É esse encontro com o esquivo milagre, o fugaz e irrepetível momento.”

Mia Couto em A confissão da leoa (São Paulo: Companhia das Letras, 2012).

Para conhecer mais: Sebastião Salgado: Genesis.

Sebastião Salgado: Genesis, Galápagos, 2007.