DOBRAS VISUAIS

Janaína Miranda e o exercício imaginário da função de habitar

Janaína Miranda: Imaginário do Habitar, 2010-2012.

Como falar de algo externo à própria experiência? Com que propriedade falar, quando mal há clareza no que concerne ao seu próprio território? Eu decidi começar tentando entender o que já se anunciava como um início de fala. Uma paisagem íntima, cheia de indícios e a véus de distância de um horizonte definido.

Essa questão surgiu a partir da foto de uma árvore caída, feita por mim em uma época marcada por perdas. Uma paisagem que se dá na relação interior-exterior, assim como defende Robert Smithson em Uma sedimentação da mente: projetos de terra [1]. Na tentativa de entendê-la, comecei a colecionar “árvores”, como quem procura eco. Nessa época, conheci as paisagens densas e úmidas de Andrei Tarkovsky, que guardam uma familiaridade com o que me movia nessa pesquisa. Sua noção de nuvem [2], como conjunto de micro eventos e pormenores cotidianos, ajudou-me a prosseguir com o trabalho, mesmo em um estado de cegueira temporária, gerada por tamanha proximidade com meu objeto, que me impedia de visualizar seu contorno.

Eu tinha a sensação de que uma imagem mental havia me escapado, sem autorização. A concretude que ela assumiu, me obrigou a confrontá-la e eu precisei entender que lugar era esse. O que nessa foto continua durando e não quer calar? Nesse percurso, tive contato com as ideias de Anne Cauquelin [3] e Simon Schama [4], a cerca da Paisagem, como dispositivo culturalmente construído. Surgiu também o antropólogo Marc Augé [5], com seus não-lugares. Nesse ponto, destaquei artistas que estão contaminados por sua ideia de lugares efêmeros, de passagem, em geral ligados ao consumo, e artistas que enxergam no não-lugar a possibilidade do lugar (e vice-versa), dialética que também vai ser encontrada nos escritos de Smithson.

Mais à frente, acabou acontecendo um casamento com a filosofia do habitar, de Gaston Bachelard. Em A Poética do Espaço [6], ele propõe um estudo fenomenológico dos valores de intimidade e da imagem poética, associada aos cantos da casa, às gavetas, aos armários, à floresta e suas potencialidades no ser. Nesse breve trajeto, optei por exibir o resultando (um ensaio fotográfico que inclui a imagem da árvore) à maneira da casa polarizada de Bachelard, dividida em andares (porão, térreo e sótão), cujas extensões guardam suas próprias características. O autor identifica o porão como o espaço íntimo da irracionalidade, onde moram os dramas, meditam os segredos, preparam-se projetos. O térreo, guarda a poética em torno das imagens de ninho, concha, figuras circulares, encurvadas, que emanam todo um imaginário de intimidade e proteção. Já o sótão, guarda a promessa de vastidão.

Rodrigo Braga: Desejo Eremita, 2009.

Após a entrega da monografia, algumas imagens saíram, outras surgiram. Por um tempo, fiquei sem saber se o que eu estava produzindo era continuidade daquele trabalho ou se já era outra coisa. O momento sutil em que é “igual, mas é diferente”. Revisitando o trabalho, vejo que várias questões – que me interessam hoje – já estavam ali colocadas, de forma embrionária, mas sincera. Encaremos a beleza do processo.

[1] SMITHSON, Robert. Uma sedimentação da mente: projetos de terra [1968]. In: FERREIRA, Glória, COTRIN, Cecília (Orgs.). Escritos de Artistas: anos  60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

[2] TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

[3] CAUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[4] SCHAMA, Simon. “Sangue na floresta”. In: Paisagem e Memória. São Paulo: Companhia das letras, 1996: 91-110.

[5] AUGÉ, Marc. Não lugares, introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Papirus, 2003.

[6] BACHELARD, Gaston. A poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993 (Coleção tópicos).

Para ler:

Exercício imaginário da função de habitar

Monografia de Graduação em Artes Visuais.

Universidade de Brasília, 2011.

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Janaína Miranda é graduada em Artes Visuais pela Universidade de Brasília. Atualmente, integra o grupo de pesquisa Imagem, temporalidade e subjetividade, coordenado pela professora Cláudia Linhares Sanz, na Faculdade de Comunicação da UnB, o conselho editorial do Zine IN.CA [Intervenções Críticas] e coordena os cursos de fotografia da Galeria Ponto. Fundou e codirigiu a Varanda Projetos Culturais, bem como participou de diversas exposições.