DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Siegfried Kracauer

Modelo de um álbum Kodak, 1894.

A fotografia, Siegfried Kracauer

A fotografia retrata, digamos, a avó ou, na realidade, uma jovem qualquer de 1864. A jovem sorri e continua sorrindo, um sorriso estático que não acessa mais a vida que lhe deu origem. (…)

Por meio da ornamentação dos trajes, na qual a avó desapareceu, (os netos) acreditam tocar um instante do tempo passado, tempo que não mais retorna. O tempo, na verdade, não é fotografado juntamente com o sorriso e o coque. Mas, a própria fotografia, assim acreditam, é uma representação do tempo. Se a fotografia lhes oferecesse apenas a duração, não apreenderiam nada da mera temporalidade, mas seria o tempo através deles a criar imagens. (…)

A memória não engloba nem a totalidade de um fenômeno espacial nem a totalidade do percurso temporal de um fato. Em comparação com uma fotografia suas caracterizações são lacunares. (…)

A memória não se ocupa de datas, pula sobre os anos ou dilata a distância temporal. (…)

Modelo de um álbum Kodak, 1894.

Não importa quais cenas um indivíduo recorda: elas querem dizer algo que se relaciona a ele sem ele precisar saber o que elas querem dizer. Elas são conservadas justamente em relação ao que querem dizer. Organizam-se, portanto, segundo um princípio que se diferencia daquela da fotografia em sua essência. A fotografia apreende o que é dado como um contínuo espacial (ou temporal), as imagens da memória conservam-na na medida em que este quer dizer alguma coisa. Como o que se quer dizer se consuma muito pouco no contexto puramente espacial e no puramente temporal, as imagens estão de esguelha em relação à reprodução fotográfica. Se do ponto de vista desta última elas aparecem como fragmento – mas como fragmento porque a fotografia não abarca o sentido com o qual elas se relacionam; orientadas em relação a este último, cessam de ser fragmento – assim aparece a fotografia para elas como uma mistura em parte composta de despojos. (…)

Sob a fotografia de um indivíduo está enterrada sua história como sob um manto de neve. (…)

Quando a fotografia envelhece, a relação imediata com o original não é mais possível. (…) A velha foto dá também a impressão de apequenamento do presente. (…)

O passado recente que se pretende ainda vivo está mais morto que o mais remoto cujo significado mudou com o tempo. (…)

Modelo de um álbum Kodak, 1894.

A intenção das revistas ilustradas é reproduzir completamente o mundo acessível ao aparelho fotográfico; registram espacialmente o clichê das pessoas, situações e acontecimentos em todas as perspectivas possíveis. (…) Nunca houve uma época tão bem informada sobre si mesma, se ser bem informado significa possuir uma imagem das coisas iguais a elas no sentido fotográfico. A maior parte das revistas ilustradas se refere a objetos que existem no original, enquanto fotografias da atualidade. As cópias são, portanto, fundamentalmente, signos que se referem a um original que poderia ser reconhecido. […] Nas revistas ilustradas o público vê o mundo que as revistas impedem realmente de perceber. O contínuo espacial segundo a perspectiva da câmera fotográfica recobre o fenômeno espacial do objeto conhecido, e sua semelhança desfigura os contornos de sua “história”. Nunca uma época foi tão pouco informada sobre si mesma. Nas mãos da sociedade dominante a invenção das revistas ilustradas é um dos mais poderosos instrumentos de greve contra o conhecimento. Para o sucesso de uma tal greve se usa em primeiro lugar o arranjo pitoresco das imagens. A sua justaposição exclui sistematicamente a conexão que se oferece à consciência. A “ideia-imagem” cancela a ideia, a nevasca da fotografia trai a indiferença em relação ao que as coisas querem dizer. Não deveria ser assim, mas para as revistas ilustradas americanas em todo caso, imitadas de todos os modos nos outros países, o mundo identifica-se com a quintessência das fotografias. Esta identificação não ocorre por acaso. Pois o próprio mundo adquiriu um “rosto fotográfico”, pode ser fotografado, pois este se funde no contínuo espacial que se forma com os instantâneos. (…) Que ela (câmera fotográfica) devora o mundo é um sinal do medo da morte. A recordação da morte, que está presente em pensamento em toda imagem da memória, as fotografias gostariam de banir pela sua própria acumulação. Nas revistas ilustradas, o mundo torna o presente fotografável e o presente fotografado torna-se inteiramente eternizado. Parece ter extirpado a morte, mas na realidade a fotografia a abandonou.

Publicado em 1927.

KRACAUER, Siegfried. “A fotografia” In: O ornamento da massa. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

Modelo de um álbum Kodak, 1894.