DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Jonathan Crary

Anúncio da empresa marítima Compagnie Générale Transatlantique, França, 1910.

Techniques of the observer, Jonathan Crary

“O livro estuda a reorganização da visão na primeira metade do século XIX, delineando alguns eventos e forças, especialmente nas décadas de 1820 e 1830, que produziram um novo tipo de observador e que foram precondições cruciais para a abstração da visão. (…)

Problemas da visão, então como agora, eram fundamentalmente questões a respeito do corpo e da operação de poder social. (…)

A visão e seus  efeitos são sempre inseparáveis das possibilidades de um sujeito observante que é ao mesmo tempo o produto histórico e o local de certas práticas, técnicas, instituições e procedimentos de subjetivação. (…)

Se a percepção ou visão realmente muda é irrelevante porque elas não tem uma história autônoma. O que muda são as forças plurais e regras que compõem o campo no qual a percepção ocorre. E o que determina a visão num dado momento histórico não é uma estrutura profunda, base econômica, a visão global, mas antes o funcionamento de uma construção de partes separadas numa única superfície. É preciso até mesmo considerar o observador como uma distribuição de eventos localizados em diferentes locais. (…)

No início do século XIX houve uma extensa transformação no modo como um observador era figurado num amplo espectro de práticas e domínios do conhecimento. Um passo fundamental a partir do qual eu apresento esses desenvolvimentos é examinando o significado de certos instrumentos ópticos. Eu discuto esses instrumentos não pelos modelos de representação que eles implicam, mas como locais simultaneamente de conhecimento e poder que operam sobre  o corpo do indivíduo. (…) Os instrumentos ópticos em questão são pontos de interseção em que discursos filosóficos, científicos e estéticos justapõem-se com técnicas mecânicas, necessidades institucionais e forças socioeconômicas. (…)

Modernização é o processo pelo qual o capitalismo desenraiza e torna móvel o que está assentado, apaga ou esquece o que impede a circulação, e torna permutável o que é singular. Isso se aplica a corpos, signos, imagens, linguagens e nacionalidades, como também com mercadorias e poder do trabalho. Modernização se torna uma incessante e autoperpetuadora criação de novas necessidades, novo consumo e nova produção. Longe de ser exterior a esse processo, o observador como sujeito é completamente imanente a ele. No curso do século XIX, o observador cada vez mais teve que funcionar dentro de espaços urbanos separados, dos deslocamentos perceptivos e temporais da viagem de trem, telegrafia, produção industrial e fluxos de informação tipográfica e visual. (…)

Anúncio da empresa ferroviária The California Limited, Estados Unidos, 1908.

A fotografia tornou-se um elemento central não apenas de uma nova economia de mercado mas na reformulação de todo um território no qual signos e imagens, cada qual separado de um referente, circulam e proliferam. (…) A fotografia é um elemento de um novo e homogêneo terreno de consumo e circulação no qual o observador é alojado. Para entender o ‘efeito fotografia’ no século XIX, deve-se vê-la  como um componente crucial de uma economia cultural de valor e troca, não como parte de uma história contínua da representação visual. (…)

Ambos (fotografia e dinheiro) são formas mágicas que estabelecem um novo cenário de relações abstratas entre indivíduos e coisas e impõe essas relações com o real. É por meio das distintas, mas interpenetradas economias do dinheiro e da fotografia que todo um mundo social é representado e constituído exclusivamente como signos. (…)

Embora ele (Foucault) exaustivamente examine instituições ‘disciplinares’ como prisões, escolas e as corporações militares, também descreve o papel das ciências humanas recém-constituídas na função de regular e modificar o comportamento dos indivíduos. (…)

A subseqüente separação entre tato e visão ocorre dentro de uma profunda ‘separação dos sentidos’ e do remapeamento industrial do corpo no século XIX. (…) Essa autonomização do olhar, ocorrendo em vários domínios, foi uma condição histórica para a reconstrução de um observador preparado para as tarefas do consumo ‘espetacular’. (…)

Por um lado, o observador é separado da pura operação do aparelho e se torna uma testemunha desmaterializada de um representação mecânica e transcendental da objetividade do mundo. Por outro lado, entretanto, sua experiência na câmera implica uma simultaneidade temporal e espacial da subjetividade humana e da objetividade do aparato. (…)

A câmera, ou quarto, é o local em que uma projeção ordenada do mundo, tornou-se capaz de inspeção pela mente.  A produção da câmera é sempre a projeção numa superfície bidimensional – mapas, globos, imagens etc. (…) Fundada em leis da natureza (óptica) mas extrapolada para um plano fora da natureza, a câmera obscura fornece um ponto vantajoso no mundo análogo ao olho de Deus. (…)

A interseção das formulações feitas na primeira metade do século XIX em vários campos do conhecimento forneceu as bases tanto para a produção cultural de vanguarda empreendida algumas décadas depois, principalmente a partir da produção de artistas como Cézanne e Claude Monet, quanto para a consolidação dos modernos veículos de comunicação de massa. (…)

A formulação então obtida desse tipo de neutralidade ótica, a redução do observador a um suposto estado rudimentar foi, ao mesmo tempo, um objetivo da experimentação artística da segunda metade do século XIX e uma condição para a formação de um observador que seria competente para consumir o novo e vasto volume de imagens e informação que circulavam em nível crescente nesse mesmo período.”

CRARY, Jonathan. Techniques of the observer. Cambridge: MIT Press, 1990. [Tradução livre]

Anúncio da empresa aérea TWA, EUA, 1953.