DOBRAS VISUAIS

Sobre o lugar e seus lugares

VC MOSTRA SP, 2013.

Bem criança, São Paulo era para mim um lugar que só existia nas fotografias dos meus pais quando jovens. Vindos de fora para trabalhar na Beneficência Portuguesa, conheceram-se e foram embora depois de casados. Passei muitos anos vendo-os posando como namorados nos jardins do hospital ou no Parque do Ibirapuera. São Paulo era para mim um lugar romântico.

Um pouco maior, São Paulo passou a ser um lugar de passagem. Precisávamos vir até aqui para tomar o avião nas diversas vezes que a família transitou entre o Ceará, onde nasci, e o Paraná, onde residi parte da minha infância. Nessas ocasiões, lembro-me de procurar secretamente pelos lugares das fotografias em cada esquina no trajeto entre a rodoviária e o aeroporto. São Paulo passou a ser uma possibilidade de encontrar aquele lugar romântico.

Quando adulta, São Paulo tornou-se um lugar para viver depois de outros tantos onde morei. Frequentei a cidade alguns anos antes de me mudar, há dezoito. Suspeitei que romântico mesmo era o modo como, menina, eu olhava para as imagens. São Paulo era um lugar a ser construído.

Vez ou outra volto para o lugar daquelas fotografias que ainda sobrevivem na minha caixa de sapatos, buscando São Paulo entre o que imaginei criança e o que estabeleci nesses anos vividos na cidade. A partir daí a fotografia passou a soar uma espécie de mediadora entre os tempos que esse lugar comporta em mim. Todavia, demorei outros tantos anos para perceber que aquela fotografia de um lugar iria me levar para o lugar que a própria fotografia ocupa dentro de mim.

Tracei esse longo caminho para chegar nos lugares de VC MOSTRA SP. A diversidade e a quantidade funcionam como um pequeno conjunto, uma caixa de sapatos da própria cidade. Como na música do Chico, imagino que em alguns anos os escafandristas virão explorar sua alma, seus desvãos, e irão enunciar o que era em parte, o tempo que vivemos, os lugares que arquitetamos.

A São Paulo desses fotógrafos é capaz de estar no concreto a que está acostumada a ser identificada, nos pontos turísticos, ruas e cruzamentos onde passamos cotidianamente, no funcionamento contínuo ou nos problemas crônicos, na natureza que insiste, na ironia ou no humor, nos personagens e na capacidade de ser vazia ou muito cheia de gente. Também pode estar em uma forma, um reflexo, um contraluz, um ponto de vista, com muito foco ou esfumaçada, como quem me diz que ali reside alguma memória. Entretanto São Paulo ainda pode estar no gesto, na folia da cama ao amanhecer, no embate tecnológico que o afeto soluciona no sofá da casa da avó, no sono do amigão embaixo da mesa ou no carinho da despedida no meio da avenida.

Sabemos que essas fotografias não constituem uma cidade, nem sequer dão conta de um pequeno pedaço. Desconfio que apontam lugares dentro de cada um dos seus autores, não no sentido do olhar único – o qual não acredito tanto, mas daqueles que construímos a medida do viver. São Paulo é mesmo ubíqua, assim como o são as imagens dentro de nós.

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Texto publicado no site VC MOSTRA SP, ação da Cia de FotoLoja de Histórias dentro da 4ª Mostra SP Samsung de Fotografia, em janeiro de 2013.

VC MOSTRA SP, 2013.