DOBRAS VISUAIS

Claro escuro | Ronaldo Entler

Ronaldo Entler, 2012.

O que é fotografia?

Todo mundo que lida com a morte em seu dia a dia desenvolve com ela uma relação pragmática. Entender-se com um tema tão obscuro exige trazê-lo de um campo metafísico para algum lugar próximo onde os sentimentos que gera são renegociados. Não se trata de dar um sentido para morte, apenas de acomodá-la a uma rotina que possa ser conduzida sem dramas ou sobressaltos. Não é uma ciência que se ensine, os métodos que essa negociação exige são forjados de modo sempre intuitivo, na lida com cada corpo sem alma que se encontra pelo caminho.

Basílio Ruiz, conhecido em sua região como Tarrafa, ganhava a vida como matador de aluguel. Perdeu a mãe aos onze anos e a irmã mais velha, único parente que lhe restava, aos quatorze. Pai ele nunca teve. Cresceu calado, aprendeu a se defender, teve todos os medos do mundo, mas nunca ninguém viu uma lágrima escapar de seus olhos.

A pequena propriedade que herdou não existia no cartório ou no mapa, e ali ele cresceu sozinho sem ser importunado. Tudo o que nela havia de conforto foi desaparecendo, só nunca faltou o que comer. Fazia pequenos bicos e, quando o dinheiro não vinha, virava-se bem com o que pescava. Não tinha apego a nada que fosse material, nem imaterial. Do que ficou na casa, só guardou com algum cuidado um álbum de fotografias, a maioria delas feita em tempos de uma vida mais digna que só conheceu pelas histórias que sua mãe contava. Era capaz de identificar nas fotos três, talvez quatro pessoas. Das demais não sabia dizer nem o nome nem o grau de parentesco. Ele mesmo não aparecia em nenhuma delas.

Guardou o álbum por necessidade, não por nostalgia. Desde que ficou sozinho, passou a ver fantasmas durante a noite. Nunca correu nem se escondeu, sabia olhar de frente tudo o que lhe dava medo. O importante é que essas assombrações sempre respeitavam o silêncio que tanto prezava, não diziam uma palavra. Apenas perambulavam pela casa, paravam alguns instantes diante de sua cama, demoravam-se algum tempo mais na sala ou na cozinha e iam embora. Quando alguém aparecia, Tarrafa se sentava na cama e apenas observava. Supondo haver alguma ligação com a casa, tentava identificar depois naquelas fotografias a alma que lhe havia visitado. Uma ou outra ele não chegava a reconhecer, ou era preciso que retornasse algumas vezes até que o retrato certo fosse encontrado. Mas a maioria estava lá. Então, não havia o que temer, tinha certeza de que era gente do lugar.

Tarrafa era um dos bons profissionais que atuavam na antiga fronteira entre Mato Grosso e São Paulo, região em que muitas desavenças de terra, de dinheiro e de honra eram tradicionalmente resolvidas em definitivo. Muitos o procuravam porque ficar calado era algo que ninguém precisava lhe pedir. Corria também a lenda de que nunca havia desperdiçado um tiro. Para alguns, isso se referia apenas à boa pontaria. Para outros, significava também que ele nunca havia matado quem não merecesse. Algo duvidoso porque, nas poucas vezes em que recusou o serviço, não fez mais do que decidir pela fisionomia. Tarrafa sabia que esses rostos o acompanhariam por muito tempo. Já o motivo da encomenda, nunca chegou a perguntar.

Um tanto por acaso, seu primeiro serviço lhe sugeriu um método. Tarrafa tinha acabado de completar dezenove anos, lavava os carros da prefeitura de Três Lagoas quando um vereador, a quem era grato pela oportunidade desse emprego, pediu sua ajuda para se livrar de um desafeto. Ele recebeu num envelope o endereço, uma foto e um agrado em dinheiro. Ganhou também desse político sua primeira arma de fogo. Fez fama porque o primeiro tiro que deu na vida acertou o sujeito bem no meio da testa.

Recebeu algumas noites depois a visita de um novo fantasma. Mesmo com sua passagem apressada, Tarrafa imaginou quem poderia ser. Quando amanheceu, pegou no envelope de dinheiro a foto do homem que havia matado. Era o próprio, alto, gordo, cabeleira farta, talvez até o terno claro fosse o mesmo. Não era da casa, mas tinha razão para estar ali. Tarrafa, que não demonstrava medo nem culpa, teve a decência de oferecer sua hospitalidade e colocou a foto do homem numa das páginas vazias do álbum de sua família.

Foi assim que construiu uma rotina com seus fantasmas. Da primeira à última encomenda que aceitou, exigiu sempre um retrato da pessoa que mataria. Sabendo que a reencontraria em suas madrugadas, guardou todas as fotos para distinguir quem era quem. Com mais de trinta anos de profissão, o álbum estava cheio e sua casa, muito frequentada. Estava cansado, não porque o trabalho lhe exigisse grande esforço, mas porque havia muito tempo que não tinha uma noite completa de sono.

Numa madrugada, acordou com um sussurro que parecia chamá-lo pelo nome de batismo que quase já havia esquecido. Antes de abrir os olhos, pensou que só podia ser um sonho. Estranhou o silêncio interrompido e também o nome que soou como o de alguém muito distante. Enxergou com certo esforço o vulto de três mulheres que provavelmente não estavam entre suas vitimas. Uma delas era criança, Tarrafa nunca pegou um serviço desses. Permaneceram ali paradas por alguns segundos e se foram. Ele imaginava quem elas eram, mas quis confirmar. Procurando entre os retratos mais antigos, encontrou a avó, a mãe e a irmã juntas, num contraluz, quase como vultos, mais ou menos como diante de sua cama, na mesma pose. Pela primeira vez Tarrafa sentiu culpa. Nada a ver com as vidas que tinha levado, só a angústia de ter esquecido esses rostos e de ter abandonado as únicas pessoas importantes em sua vida entre parentes anônimos e outros tantos desconhecidos.

Achou que era hora de se aposentar. O progresso que chegava com a construção da hidrelétrica também o perturbava. De dentro de casa, já podia ouvir todos os dias algum carro passando por aquela estrada de chão que, antes, não levava a lugar algum. Queria ter de volta o silêncio.

Decidiu se mudar para o Pantanal, onde poderia pescar todos os dias, como fazia nos tempos em que ganhou seu apelido. Mas também onde tentaria não esquecer seu nome próprio, nem o tempo abreviado de sua infância, o único que merecia ser lembrado. Colocou numa mala as poucas peças de roupa que tinha, o bom volume de dinheiro que havia juntado, e guardou consigo apenas aquela foto em que a avó, a mãe e a irmã apareciam juntas. Nenhuma outra. Queria carregar sua pequena memória mas não os seus fantasmas. Se algum deles insistisse em acompanhá-lo, ficaria por sua própria conta, porque Tarrafa jurou que não interromperia mais suas noites de sono.

Teve um último cuidado, talvez a única gentileza que tenha feito para os vivos. Antes de partir, foi até um bom estúdio da cidade e pediu que fizessem um retrato seu. Colocou a foto no lugar daquela que retirou e guardou o álbum no mesmo armário em que sempre ficou. Poderíamos supor que quisesse manter completa a memória de sua família. Não era o caso. Ele não tinha a intenção de reaver nada do que estava deixando para trás, também não esperava que alguém se interessasse por sua história. Mas quem sabe o que vem adiante? Qualquer um que viesse a morar ali no futuro teria o direito de saber quem era ele, certificar-se de que era gente do lugar, caso Tarrafa decidisse visitar sua antiga casa em alguma madrugada.

Ronaldo Entler, 2012.

Para conhecer mais: Ronaldo Entler, blog Icônica.