DOBRAS VISUAIS

Leandro Pimentel, a fotografia e a poética das coleções

Bernd e Hilla Becher: Estudos, 1967.

Como começar uma tese e como terminá-la? Entre esses dois momentos a vida se intensifica e os ecos repercutem para além do fim do ritual da defesa, quando vamos para o bar com a cópia da ata cuidadosamente guardada relaxar após quatro anos de dedicação. Ao longo do processo, várias caminhos se entrelaçam e, por mais rigorosa que seja a pesquisa e o nosso envolvimento, há uma considerável distância entre nossas vidas e a dos autores e personagens que, na maioria das vezes sem serem consultados, emprestaram seus escritos e suas existências para a nossa aventura acadêmica. Vivos ou mortos, em geral continuarão seu trajeto sem grandes mudanças. Ou seja, a fama ou o esquecimento que alguém ou um autor adquire raramente será alterada por ele ter sido citado em uma tese. Quem escreve a tese, sim. Sua vida sofre diretamente uma mudança de rumo definitiva. Barthes, Benjamin, Foucault e Bergson, somente para citar alguns dos que infestam as teses sobre as imagens, não devem a sua fama ao que escreveram sobre eles, mas ao que eles próprios escreveram.

Ao tentar ler uma tese (sim, “tentar ler” porque, em geral, tese a gente nunca consegue ler integralmente, somente tenta. Na maioria das vezes vamos através do sumário diretamente ao ponto que nos interessa), nos deparamos sempre com os agradecimentos que, muitas vezes, vêem depois de uma dedicatória. Nessas páginas talvez possamos ter uma noção das vidas que se colocaram em jogo. Mortes, casamentos, nascimentos, paixões e separações ocorrem nesses quatro anos em que se leva dedicado a uma pesquisa. As cicatrizes podem ser mais ou menos visíveis, dependendo da resistência e da capacidade de recuperação da pele de cada um, mas elas sempre irão existir quando o pesquisador faz o trabalho com envolvimento.

No meu caso, a lista de agradecimentos é um verdadeiro inventário das relações que influenciaram direta ou indiretamente na escritura do texto. Não quis esquecer ninguém, mas certamente devo ter esquecido alguém importante, pois é na ânsia de tudo abarcar através da classificação que vemos a nossa impossibilidade de dar conta do todo. Essa busca por recolher o que está disperso e tentar colocar em uma ordem era justamente o ponto central da minha pesquisa. Seja praticada de forma inconsciente no dia-a-dia ou como metodologia de trabalho pelo pesquisador, procurei me aproximar da ação que chamei de inventariar. Um gesto que se torna um instrumento para o pesquisador e que se revigora na prática do artista inventariante, o protagonista da tese. Aquele que finalmente dá conta da sua impossibilidade, a assume e a encara de frente ao penetrar de modo transversal no labirinto dos fragmentos e dos arquivos. Bem menos receoso de esquecer algo ou de excluir alguma coisa, o artista encara de frente a angústia do colecionador, que sempre estará na busca de um novo objeto para acrescentar à sua coleção, e a do inventariante, que procura incessantemente destacar certas afinidades e semelhanças a fim de dar um novo sentido ao seu repertório.

Marcos Chaves: Série Buracos, 1996-2008.

Em um certo ponto da pesquisa percebi que o meu papel como doutorando era o mesmo do inventariante. Porém, mais do que dar um sentido ao conjunto de textos e referências reunidas para a construção do texto, o doutorando parece, em última instância, querer dar conta do seu próprio futuro, e por isso talvez a tese se torne às vezes tão angustiante. Como colocar os pensamentos nas gavetas certas para no futuro poder usá-los, ou deixar que outros os usem? Assumi então que o tema da minha pesquisa era o próprio gesto de pesquisar e a possibilidade dele se intensificar ao se deslocar para o universo da arte. O artista como pesquisador e o pesquisador como artista. Encontrei personagens como esses em alguns textos. Entre eles destaco aqueles de Walter Benjamin: o chiffonnier, o flanair os fotógrafos August Sander e Eugéne Atget, os dadaístas e, enfim, o próprio Benjamin, colecionador assumido, em seu inacabado Livro das Passagens.

Cheguei ao “inventário” através do casal de artistas Bernd e Hilla Becher, que passaram a vida fotografando a arquitetura industrial e vernacular. Objetos sem importância estética que ganhavam uma nova vida nas séries em preto e branco. Logo depois que havia decidido que eles seriam os artistas paradigmáticos da minha pesquisa, Bernd morre, deixando definitivamente inacabado aquilo que era interminável. Quis fugir deles para estudar os artistas colecionadores contemporâneos através da sua herança mas não dei conta. Resolvi me restringir aos anos sessenta e deixar que o tempo me levasse de volta para a produção artística atual. Tarefa da qual me aproximo gradativamente agora. Resolvi me centrar no gesto do casal e de outros inventariantes que estiveram na cena artística dos anos sessenta e retornei ao que poderia ser a sua distinção em relação ao mesmo gesto em outros territórios, como na literatura, na fotografia modernista, na ciência e no direito.

O que fiz? Posso dizer que consegui organizar aquilo que li e reli ao longo desses quatro anos. Minhas bibliotecas, a física e a virtual, são o resultado da ação de um colecionador paranóico com o medo de esquecer ou de nunca mais ver aquilo que teve nas mãos. Algumas vezes anotava, outras fotografava imagens e textos. Beneficiado com a bolsa sanduíche da Capes pude visitar bibliotecas e exposições na Europa que me deram subsídios para dar um pouco mais de consistência ao trabalho. Muitos dos textos e imagens que reuni não foram usados, seja por não ter tido tempo ou por causa da minha própria incapacidade de organizar e classificar o material de maneira eficaz. Mas, como todo acumulador, guardei imaginando que em algum momento serão úteis. Terei em breve que fazer um novo inventário dos meus arquivos para ver aquilo que não foi visto. No processo da pesquisa me assumi como um inventariante falando do próprio gesto de inventariar e fui marcado por essa posição. Restrito pelas regras da academia consegui a liberdade para inventar uma pesquisa. O prazo e os limites que tanto me incomodaram foram também aquilo que me possibilitou produzi-la. Nem tão rígido como o casal Becher, que por mais de 40 anos mantiveram um método de trabalho semelhante, procuro agora criar os meus próprios limites a fim de continuar a lidar com o que foi feito de mim depois de ter passado pelo processo de tese.

Para ler:

O Inventário como Tática: a Fotografia e a Poética das Coleções

Tese de Doutorado em Comunicação.

Universidade Federal do Rio de Janeio, 2011.

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Leandro Pimentel é mestre e doutor em Comunicação pela UFRJ. Possui especialização em História da Arte e da Arquitetura no Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em Fotografia como Instrumento de Pesquisa em Ciências Sociais pela Universidade Cândido Mendes.

Gerhard Richter: Atlas Sheet 30, For 48 Portraits, 1971.