DOBRAS VISUAIS

Por que guardar? | 30a Bienal de São Paulo

Guardar, de Antonio Cícero

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”

Lembrei-me desse poema nos dias em que estive na 30a Bienal de São Paulo. O gesto de guardar algo está ali presente em diversos trabalhos de artistas, alguns conhecidos, outros inéditos para mim, e que agora fazem parte da coleção que venho trabalhando aqui no Dobras.

Diante de uma mostra que reflete  acerca da iminência, pensei que o estar por vir também pode ser aquilo que cada um de nós leva dessa experiência, não como um assunto, mas como potencializador de questões que nos façam pensar no nosso papel ou simplesmente no estar no mundo. Cadu, um dos artistas presentes nessa edição, fala em um vídeo produzido para a mostra sobre o “estar em arte, não fazer arte”. É sutil a diferença, mas provocativa, porque a iminência de algo é construída em um certo intervalo do tempo e do espaço e pode emergir justo desta intermitência.

Talvez por isso o Arquivo tenha sido um lugar para esta Bienal. Penso que é um dos espaços mais rizomáticos que construímos, sem começo nem fim, apontando para a simultaneidade das relações e origens dos fatos, dos objetos, do estar em algo, do ser algo. E para não nos perdermos, ou quem sabe não sermos devorados pelo monstro que habita este labirinto, recorremos ao fio de Ariadne que nos possibilita enunciar. Mas não há ilusão, essa linha é apenas uma das possibilidades de saída, sempre existirão outras a serem tecidas.

Lembro o atlas de Warburg, um dos pensadores que pontuaram a curadoria. Com ele não se trata de montar um quebra-cabeças, mas sim do devir do arquivo, do que este lugar potencializa: dar sentido àquilo de que por meio dele somos atravessados. Entrar nesse espaço como um viajante diante da possibilidade de seguir um roteiro, criar um caminho ou de elaborar uma poética.

Desse modo, é que apreendo o gesto de guardar algo como potência geradora de arquivos, e penso a partir destes novos artistas da minha coleção:

Horst Ademeit: 1990-2004, 2008.

Horst Ademeit (Alemanha, 1937-2010). Como outras salas, a sua chama atenção pela quantidade e repetição. São 6006 polaroides realizadas no curso de catorze anos de sua vida, “descobertas” em 2008, dois anos antes de sua morte. Numeradas, as fotografias contêm anotações escritas à mão com uma caligrafia minúscula que fazem referência a um tipo de radiação invisível que ele acreditava prejudicar o homem e seu meio. Construiu um sistema de medição para lhe prestar conta dos efeitos desse mal e passou a fotografá-lo com uma Polaroid.

– Guardar uma coisa é ser por ela.

Tehching Hsieh: Performance de um ano – Perfurando o relógio ponto, 1980-1981.

Tehching Hsieh (Taiwan, 1950). A seriação de um gesto: registrar cada hora de um ano em um relógio ponto. Sua sala composta por fotografias e pelo cartão carimbado de cada dia apontam um arquivo construído para pensar o tempo que escoa sistemas.

– Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela.

Hans Eijkelboom: Fotonotas, 2005.

Hans Eijkelboom (Holanda, 1949). O registro de pessoas comuns encontradas nas ruas das grandes cidades: usando camiseta do Che Guevara, vestindo casacos “polares” ou falando no celular. Já não há mais indivíduo nesse arquivo, todos se tornam um conjunto, uma massa repetitiva de tipos.

– Guardar uma coisa é iluminá-la.

Mark Morrisroe: Lynette contemplates the owl, 1985.

Mark Morrisroe (Estados Unidos, 1959-1989). Quando a própria vida é o arquivo, tudo emana a partir dela: dor, tristeza, alegria. Os afetos são como categorias que permeiam essa sala do artista morto jovem em decorrência da Aids, numa época que a intimidade explode para diversos artistas.

– Guardar uma coisa é velar por ela.

Allfredo Cortina: Petare, ponte da Ferrovia Central, 1960.

Alfredo Cortina (Venezuela, 1903-1988). Passei muito tempo olhando a sala de Cortina que fotografou sua esposa, a poetisa Elizabeth Schön, durante muitos anos. O enquadramento, a pose, a aproximação, quase tudo se repete nesse gesto simples de colocar o outro em uma paisagem.

– Guardar o que se quer guardar.

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*Por que guardar? é uma das pistas do Material Educativo, composto por cartões com o trabalho dos artistas, citações e perguntas que provocam o espectador a criar as suas próprias constelações.

O post foi replicado lá no Blog Arquivo Bienal, editado pela Fernanda Curi.