DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Nestor Canclini

Thomas Struth: Museo del Prado, 2005.

O porvir do passado, Nestor Canclini

“Questiono como o sentido histórico intervém na constituição de agentes centrais para a constituição de identidades modernas, como as escolas e os museus, qual é o papel dos ritos e das comemorações na renovação da hegemonia política. (…)

Entender as relações indispensáveis da modernidade com o passado requer examinar as operações de ritualização cultural. (…)

O patrimônio existe como força política na medida em que é teatralizado: em comemorações, monumentos e museus. (…)

A teatralização do patrimônio é o esforço para simular que há uma origem, uma substância fundadora, em relação à qual deveríamos atuar hoje. Esta é a base das políticas culturais autoritárias. O mundo é um palco, mas o que deve ser representado já está previsto. As práticas e os objetos valiosos se encontram catalogados em um repertório fixo. (…) Por isso as noções de coleção e ritual são fundamentais para desmontar vínculos entre cultura e poder. (…)

As cerimônias são acontecimentos que no fim das contas, só celebram a redundância. Buscam uma maior identificação do público-povo com o capital cultural acumulado, com sua distribuição e uso vigentes. (…)

A excessiva ritualização – com um único paradigma, usado dogmaticamente – condiciona seus praticantes para que se comportem de maneira uniforme em contextos idênticos e incapacita para agir quando as perguntas são diferentes e os elementos da ação estão articulados de outra maneira. (…)

Se o patrimônio é interpretado como repertório fixo de tradições, condensadas em objetos, ele precisa de um palco-depósito que o contenha e o projeta, um palco-vitrine para exibi-lo. O museu é a sede cerimonial do patrimônio, o lugar em que é guardado e celebrado, onde se reproduz o regime semiótico com que os grupos hegemônicos o organizaram. Entrar em um museu não é simplesmente adentrar um edifício e olhar obras, mas também penetrar em um sistema ritualizado de ação social. (…)

Durante muito tempo os museus foram vistos como espaços fúnebres em que a cultural tradicional se conservaria solene e tediosa, curvada sobre si mesma. “Os museus são o último recurso de um domingo de chuva”, disse Heinrich Boll. Desde os anos 60 o intenso debate sobre sua estrutura e função, com renovações audazes, mudou o seu sentido. Já não são apenas instituições para a conservação e exibição de objetos, nem tampouco fatais refúgios de minorias. (…)

As estatísticas europeias indicam que a frequência aos museus aumenta enquanto descresse nos últimos anos o número de espectadores de teatro e cinema. Os museus, como meios de comunicação de massa, podem desempenhar um papel significativo na democratização da cultura e na mudança do conceito de cultura. (…)

A crise do museu não se encerrou. Uma caudalosa bibliografia continua indagando sobre o obstinado anacronismo de muitos deles e sobre a violência que exercem sobre os bens culturais ao arrancá-los de seu contexto originário e reorganizá-los sobre uma visão espetacular da vida. São debatidas as mudanças de que necessita uma instituição, marcada desde sua origem pelas estratégias mais elitistas, para rever sua posição na industrialização e na democratização da cultura. (…)

(Na América Latina) servem mais como conservadores de uma pequena porção do patrimônio, como recurso de promoção turística e publicidade de empresas privadas, do que como formadores de uma cultura visual coletiva. (…)”

CANCLINI, Nestor. “O porvir do passado.” In: Culturas Híbridas. São Paulo: EdUsp, 2008.

Para conhecer mais: Thomas Struth.

Thomas Struth: Museo del Prado, 2005.

Thomas Struth: Museo del Prado, 2005.

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