DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Andreas Huyssen

Seduzidos pela memória, Andreas Huyssen

“Um dos fenômenos culturais e políticos mais surpreendentes dos anos recentes é a emergência da memória como uma das preocupações culturais e políticas centrais das sociedades ocidentais. (…)

Discursos de memória a partir dos anos 1970: restauração historicizante de centros históricos, cidades-museus e paisagens inteiras, heranças nacionais, a moda retro, a comercialização da nostalgia, a obsessiva automusealização pelo vídeo, a literatura memorialística e confessional, os romances históricos com as difíceis negociações entre fato e ficção, a difusão de práticas memorialísticas nas artes visuais (foto), os documentários da televisão. (…)

Não há dúvida de que o mundo está sendo musealizado. É como se o objetivo fosse a recordação total. Há algo específico na temporalidade de hoje que não tenha sido experimentado do mesmo modo em épocas passadas? (…)

Cultura da memória: uma comercialização crescente e bem sucedida da memória pela indústria cultural no ocidente. (…)

A disseminação geográfica da cultura da memória é tão ampla quanto é variado o uso político da memória, indo desde a mobilização de passados míticos para apoiar políticas fundamentalistas até tentativas para criar esferas públicas de memória ‘real’ contra as políticas de esquecimento, promovidas pelos regimes pós-ditatoriais. (…)

Propaganda Kodak Brasil, 1920. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

Nem sempre é fácil traçar uma linha de separação entre um passado mítico e um passado real, um dos nós de qualquer política de memória em qualquer lugar. O real pode ser mitologizado tanto quanto o mítico pode engendrar fortes efeitos de realidade. A memória se tornou uma obsessão cultural de proporções monumentais. (…)

O enfoque sobre a memória e o passado traz consigo um grande paradoxo. Com freqüência crescente, os críticos acusam a própria cultura da memória contemporânea de amnésia, apatia ou embotamento. Eles destacam sua incapacidade e falta de vontade de lembrar, lamentando a perda da consciência história. (…)

Mas e se o aumento explosivo de memória for inevitavelmente acompanhado de uma um aumento explosivo de esquecimento? E se as relações entre memória e esquecimento estiverem realmente sendo transformadas, sob pressões nas quais as novas tecnologias da informação, as políticas midiáticas e o consumo desenfreado estiverem começando a cobrar o seu preço? (…)

Muitas das memórias comercializadas que consumimos são ‘memórias imaginadas’. (…)

Propaganda Kodak Argentina, 1923. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

É o medo do esquecimento que dispara o desejo de lembrar ou é, talvez, o contrário? É possível que o excesso de memória nessa cultura saturada de mídia crie tal sobrecarga que o próprio sistema de memórias fique em perigo constante de implosão, disparando, portanto, o medo do esquecimento? (…) Quanto mais nos pedem para lembrar, no rastro da explosão da informação e da comercialização da memória, mais nos sentimos no perigo do esquecimento e  mais forte é a necessidade de esquecer.

Se reconhecermos a distância constitutiva entre a realidade e sua representação em linguagem ou imagem, devemos em princípio, estar abertos para as muitas possibilidades diferentes de representação do real e de suas memórias. (…)

O trauma é comercializado tanto quanto o divertimento e nem mesmo para diferentes consumidores de memórias. (…)

O passado está vendendo mais do que o futuro, não se sabe por quanto tempo. (…) Estamos obcecados com a representação, remake, repetição, replicação e cultura de cópia.

Dado que o crescimento explosivo da memória é história, terá alguém realmente lembrando de alguma coisa? Se todo o passado pode acabar, não estamos criando nossas própria ilusões de passado, na medida em que somos marcados por um presente que se encolhe cada vez mais? (…)

Propaganda Kodak Brasil, 1928. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

Algo deve estas na causa que privilegia o passado e que nos faz responder tão favoravelmente aos mercados de memória: este algo é uma lenta e palpável transformação da temporalidade nas nossas vidas, provocada pela complexa interseção de mudanças tecnológica, mídia de massa e novos padrões de consumo, trabalho e mobilidade global. (…)

A cultura da memória preenche uma função importante nas transformações atuais da experiência temporal, no rastro do impacto da nova mídia na percepção e na sensibilidade humanas. (…)

O tempo de permanência dos objetos de consumo nas prateleiras tem encurtado de modo radical, e com ele a extensão do presente que foi contraindo simultaneamente à expansão da memória do computador e dos discursos de memória pública. (…)

Uma das lamentações permanentes da modernidade se refere à perda de um passado melhor, da memória de viver em um lugar seguramente circunscrito, com um senso de fronteiras estáveis e numa cultura construída localmente com o seu fluxo regular de tempo e um núcleo de relações permanentes. Talvez, tais dias tenham sido sempre mais sonho do que realidade, uma fantasmagoria de perda gerada pela própria modernidade. Mas, o sonho tem o poder de permanecer, e o que eu chamei de cultura da memória, pode bem ser, pelo menos em parte, a sua encarnação contemporânea. A questão, no entanto, não é a perda de alguma idade de ouro ou estabilidade e permanência. Trata-se mais da tentativa, na medida em que encaramos o próprio processo real de compressão do espaço-tempo, de garantir alguma continuidade dentro do tempo, para propiciar alguma extensão do espaço vivido dentro do qual possamos nos mover. (…)

O lugar do arquivo como um contrapeso ao sempre crescente passo da mudança, um lugar de preservação espacial e temporal. Hoje temos arqueólogos de dados. É uma das maiores ironias da idade da informação. Se não encontrarmos métodos e preservação duradoura das gravações eletrônicas, esta poderá ser a mesma sem memória. De fato, a ameaça do esquecimento emerge da própria tecnologia à qual confiamos o vasto corpo de registros eletrônicos e dados, esta parte mais significativa da memória cultural do nosso tempo. (…)

Propaganda Kodak Filipinas, 1930 – “Fora da terra, dentro do álbum”. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

As transformações atuais do imaginário temporal trazidas pelo espaço e pelo tempo virtuais podem servir para destacar a dimensão das possibilidades da cultura da memória. (…) As novas tecnologias de transporte e comunicação sempre transportaram a percepção humana na modernidade. Foi assim com a ferrovia e o telefone, com o rádio e o avião, e o mesmo será verdade também quanto ao ciberespaço e o cibertempo. (…)

Não há nenhuma dúvida de que em longo prazo todas estas memórias serão modeladas em grande medida pelas tecnologias digitais e pelos seus efeitos, mas elas não serão redutíveis a eles. (…)

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

Propaganda Kodak, 1969. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.