DOBRAS VISUAIS

Sandra Koutsoukos e os negros nos estúdios dos fotógrafos

Retrato de Autusto Gomes Leal e da ama-de-leite Mônica. Cartão de visita de João Ferreira Villela, c.1860.

Quando comecei a estudar a história da fotografia no Brasil e os retratos antigos, logo me deparei com uma foto especial, uma foto inquietante, que ‘falou’ comigo naquele momento mais do que as outras; era uma ama de leite negra com um menino branco. Nela, a ama Mônica aparece vestida com um luxo europeizado caprichado, portando jóias que não são os típicos balangandãs de escravas, tendo o menino branco, já meio crescido, aconchegado a seu lado. A ama posou com coragem e dignidade impressionantes para o arranjo orquestrado pelo fotógrafo, mas deixou transparecer no seu rosto uma dor inquietante, que foi o que mais me chamou a atenção no pequeno retrato. Seu olhar profundo parecia querer me contar uma parte de sua história. Uma história que podia conter (e que continha, no caso de muitas amas de leite) um ato de violência extrema: a separação de uma mãe negra de seu filho biológico, para que ela pudesse amamentar e se dedicar exclusivamente ao bebê branco e senhorial. A partir dali resolvi que ia deixar aquela e outras fotos de amas falarem…

Foi longo o caminho da pesquisa, mas jamais desestimulante. Aqueles pequenos retratos logo se tornaram íntimos meus. Passei a me referir a vários deles pelos nomes dos retratados, quando conseguia descobri-los. Ah, com é bom quando a gente faz o que gosta!  Àquelas fotos se juntaram outras, e outras categorias foram surgindo. Resolvi complicar um pouco mais a minha vida e estudar também as fotos de pessoas negras nascidas livres, as fotos de pessoas alforriadas em algum momento de suas vidas e as fotos de escravos. As diferentes categorias foram importantes para que eu pudesse perceber e estabelecer as diferentes formas de autorrepresentação daqueles sujeitos, sempre de acordo com o seu papel na sociedade de então. Logo entendi que uma pessoa negra nascida livre, ou uma alforriada, se vestia como os ditos brancos da sociedade, exibindo códigos de representação tomados inicialmente emprestados do ‘outro’, não por querer negar as suas raízes africanas, mas como uma tentativa consciente de abrir e trilhar seu caminho, e de se fazer aceita, respeitada, ou ao menos tolerada, por aquela sociedade branca, racista, exigente e competitiva.

Num determinado momento da pesquisa nos acervos da Biblioteca Nacional (RJ), especificamente quando eu fuçava a Coleção D. Thereza Christina (montada e doada pelo Imperador D. Pedro II à BN), caíram em minhas mãos dois álbuns de condenados da Casa de Correção da Corte, ainda do século XIX. Muitas daquelas fotos eram retratos de pessoas negras e mulatas, o que definitivamente incluía os álbuns no meu rol de categorias de retratos a serem por mim estudados. Mas eu não contava com o trabalho de investigação que os álbuns iam dar, já que a Biblioteca Nacional tinha pouca informação sobre o material. Munida da pouca informação que consegui, me enfurnei no Arquivo Nacional (RJ) por um longo tempo, pois descobrira que todos os livros com os manuscritos da Casa de Correção da Corte estavam arquivados lá. No AN dei início à montagem do mosaico que foi a pesquisa sobre os presos da Correção e suas histórias. Ainda me lembro da satisfação que sentia cada vez que achava a mais pequenina peça das histórias. Mais uma vez, a minha intenção era a de perceber o nível de autorrepresentação daquelas pessoas e deixá-las falar…

Mas eu não quero maçar o leitor com minhas recordações melancólicas de pesquisa, já que esse caminho está descrito na tese de doutorado e também no livro, e o resultado final ali se encontra.  Se hoje, infelizmente, aqueles retratos se acham espalhados por diferentes arquivos, bibliotecas e (nas praticamente inacessíveis) coleções particulares, além de não existirem em tão grande número quanto os retratos da parcela branca da sociedade, ainda assim, eles existem em número suficiente e podem ser facilmente localizados, para que deles não nos esqueçamos; para que, com eles, ou para eles, ou por causa deles, possamos tentar desvendar um pedaço de nossa história. Por tudo isso, informalmente, dedico esse trabalho também às numerosas Mônicas, Marcellinas, Glycerias, Catharinas, Delias, Benvindas, Joanas, Isabéis e Generosas, assim como aos numerosos Thimóteos, Beneditos, Josés, Vitorinos, Claudianos, Vicentes e etc. Todas as personagens cujos pequenos retratos inspiraram e ajudaram a construir aquela história.

Para ler:

Negros no Estúdio do Fotógrafo

Tese de Doutorado em Multimeios.

Universidade Estadual de Campinas, 2006.

Aqui o livro publicado pela Editora da Unicamp em 2010.

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Sandra Sofia Machado Koutsoukos é graduada em Belas Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Artes e Doutora em Multimeios pelo Instituto de Artes da Unicamp. Atualmente é pós-doutoradanda em Multimeios na Unicamp e pesquisa a exibição de pessoas nas exposições do século XIX e início do XX.