DOBRAS VISUAIS

O olho Silva | Roberto Bolaño

O que é fotografia?

“Nos primeiros meses, Olho Silva sobreviveu na base de bicos esporádicos e precários, depois conseguiu trabalho como fotógrafo de um jornal do DF. (…)

Uma vez o Olho foi comer lá em casa. Minha mãe gostava dele e o Olho correspondia ao carinho tirando de vez em quando fotos da família, isto é, da minha mãe, da minha irmã, de alguma amiga da minha mãe e de mim. Todo mundo gosta de ser fotografado, ele me disse uma vez. Para mim tanto fazia, ou era o que eu acreditava, mas quando o Olho disse aquilo fiquei pensando um momento nas palavras e acabei lhe dando razão. Só alguns índios não gostam de fotos, ele disse. (…)

Por um instante, acreditei entender que partia por ser homossexual. Mas não, um amigo tinha lhe arranjado um trabalho numa agência de fotografia de Paris e isso era uma coisa que ele sempre tinha sonhado. (…)

Naquela noite conversamos até quase amanhecer. O Olho vivia em Berlim fazia alguns anos e sabia encontrar os bares que ficavam abertos a noite toda. Perguntei sobre sua vida. Fez um esboço das vicissitudes de um fotógrafo freelance. (…)

A história do Olho transcorria na Índia. Sua profissão e não a curiosidade de turista o havia levado até lá, onde precisava realizar dois trabalhos. O primeiro era a típica reportagem urbana, uma mistura de Marguerite Duras e Herman Hesse, o Olho e eu sorrimos, tem gente assim, disse, gente que quer ver a Índia a meio caminho entre India song e Sidarta, e estamos aí para agradar os editores. De modo que a primeira reportagem consistia em fotos em que se vislumbravam casas coloniais, jardins em ruínas, restaurantes de todo tipo, porém com o predomínio do restaurante chinfrin ou do restaurante de famílias que pareciam chinfrins mas que eram apenas indianas, e também fotos da periferia, as zonas verdadeiramente pobres, depois o campo e as vias de comunicação, estradas, entroncamentos ferroviários, ônibus e trens que entravam e saíam da cidade, sem esquecer a natureza em estado latente, uma hibernação alheia ao conceito de hibernação ocidental, árvores europeias, rios e riachos, campos semeados ou secos, o território dos santos, disse o Olho.

A segunda reportagem fotográfica era sobre o bairro das putas de uma cidade da Índia cujo nome nunca saberei.

Aqui começa a verdadeira história do Olho. Naquele tempo ainda morava em Paris e suas fotos iam ilustrar um texto de um conhecido escritor francês que tinha se especializado no submundo da prostituição. Na verdade, sua reportagem era apenas a primeira de uma série que compreenderia bairros de tolerância ou zonas de todo o mundo, cada uma fotografada por um fotógrafo diferente, mas todas comentadas pelo mesmo editor. (…)

Trouxeram-lhe um jovem castrado que não devia ter mais de dez anos. Parecia uma menina aterrorizada, disse o Olho. Aterrorizada e zombateira ao mesmo tempo. Entende? Faço uma ideia, respondi. Tornamos a nos calar. Quando por fim pude falar de novo disse que não, que não fazia a menor ideia. Nem a vítima, nem os carrascos, nem os espectadores. Só uma foto.

Você tirou a foto?, perguntei. Pareceu-me que o Olho era sacudido por um calafrio. Peguei minha câmera, falou, e tirei uma foto. Eu sabia que estava me condenando por toda a eternidade, mas tirei.”

Roberto Bolaño no conto O olho Silva. In: Putas Assassinas (São Paulo: Companhia das Letras, 2008).

Para conhecer mais: Andre Liohn