DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Sobre fotógrafos e caçadores

Parte da pesquisa do doutorado refere-se aos modos como foram construídas as características de um personagem fotógrafo. Como frequentemente esta figura é associada à do caçador, montei este post do Doutorar com algumas referências de teóricos e escritores, quando apontam para esta questão, associadas a uma seleção de propagandas da Kodak que desde o seu início fazia essa relação. George Eastman, redator de muitos desses anúncios, mantinha a caçada como hobby como mostra a matéria abaixo no jornal da época.

O cinema também vem ajudando a constituir esta afinidade com personagens de filmes como A janela indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954), A doce vida (Frederico Fellini, 1960), Blow up (Michelangelo Antonioni, 1966) e até mesmo o cult Peeping Tom (Michael Powell, 1960). Nos filmes, como no material apresentado aqui, podemos ver tanto uma postura de corpo e comportamento do fotógrafo quanto um vocabulário associado à caçada.

George Estman goes a hunting with gun and camera, 1927. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

“A atividade de um fotógrafo de imprensa que queira ser mais que um artesão é uma luta contínua pela imagem. Do mesmo modo que o caçador vive obcecado por sua paixão pela caça, o fotógrafo vive a obsessão pela foto única que deseja obter. É uma batalha contínua. Há que lutar contra os preconceitos que existem por causa dos fotógrafos que ainda trabalham com flashes, pelejar contra a administração, os empregados, a polícia, os guarda-costas; contra a luz deficiente e as grandes dificuldades que surgem na hora de tirar fotos de pessoas que não param de se mover. Tem que captá-las no momento preciso em que não se movem. (…) Se necessário tem que recorrer a todo tipo de argúcias, embora nem sempre se saia bem (O fotógrafo de imprensa segundo Erich Salomon).”

FREUND, Gisèle. La fotografía como documento social. Barcelona: Gustavo Gili, 1993.

Propaganda Kodak, 1900. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

“Com a chegada da primavera, os habitantes das cidades, às centenas de milhares, saem aos domingos levando o estojo a tiracolo. E se fotografam. Voltam satisfeitos como caçadores com o embornal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (…), e somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado.”

CALVINO, Italo. “A aventura de um fotógrafo”. In: Os Amores Difíceis. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Propaganda Kodak, 1958. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

“A selva consiste de objetos culturais, portanto de objetos que contém intenções determinadas. Tais objetos intencionalmente produzidos vedam ao fotógrafo a visão da caça. E cada fotógrafo é vedado à sua maneira. Os caminhos tortuosos do fotógrafo visam driblar as intenções escondidas nos objetos. Ao fotografar, avança contra as intenções da sua cultura. Por isto, fotografar é gesto diferente, conforme ocorra em selva de cidade ocidental ou cidade subdesenvolvida, em sala de estar ou campo cultivado. Decifrar fotografias implicaria, entre outras coisas, o deciframento das condições culturais dribladas.”

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

Propaganda Kodak, 1905. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

“Como armas e carros, as câmeras são máquinas de fantasia cujo uso é viciante. Porém, apesar das extravagâncias da linguagem comum e da publicidade, não são letais. (…) Ainda assim, existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se vêem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimaçãoo da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado – um assassinato brando, adequado a uma época triste e assustada. No fim, as pessoas talvez aprendam a encenar suas agressões mais com câmeras do que com armas, porém o preço disso será um mundo afogado por imagens. Um caso em que as pessoas estão mudando de balas para filmes é o safari fotográfico, que está tomando o lugar do safári na África oriental. Os caçadores levam Hasselblads em vez de Winchesters; em vez de olhar por uma mira telescópica a fim de apontar um rifle, olham através de um visor para enquadrar uma foto. Na Londres do final do século XIX, Samuel Butler se queixava de que havia “um fotografo em cada arbusto, rondando como um leão feroz, em busca de alguém que possa devorar”. O fotografo, agora, ataca feras reais, sitiadas e raras demais para serem mortas. As armas se metamorfosearam em câmeras nessa comédia séria, o safári ecológico, porque a natureza deixou de ser o que sempre fora – algo de que as pessoas precisam para se proteger. Agora, a natureza – domesticada, ameaçada, mortal – precisa ser protegida das pessoas.  Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos fotos.”

SONTAG, Susan. “Na caverna de Platão”In: Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Propaganda Kodak, 1916. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

“O ponto de controle da câmera introduz a discussão sobre outra característica desta. para além do controle está o poder, e não há dúvida de que a câmera é um instrumento predatório. Como a origem epistemológica de ‘aparelho’ ou ‘aparato’ indica: apparare é ‘preparar algo para…’ A câmera é um aparelho que prepara o objeto ou a realidade para seu controle e consumo por parte do sujeito ou do observador. Não é coincidência que o vocabulário utilizado para descrever a ação da câmera sugira algo predatório. Ou não dizemos que, graças à câmera, tiramos fotos? Não disparamos quando apertamos o obturador…? Assim, se estabelece no nível linguístico uma série de correspondências metafóricas nas quais a câmera se torna arma, a ação vira caça e o fotógrafo se converte em caçador. Robert Doisneau, por exemplo, fala de si mesmo como de um chasseur à pied (caçador a pé), e Henri Cartier-Bresson, em sua famosa apologia ao ‘instante decisivo’, faz uma referência direta à estratégia da caça ao descrever como ‘caminhava durante o dia com o espírito tenso (…). Inspirava-me, sobretudo, o desejo de capturar em uma só imagem o essencial que surgia de uma cena’. (…)

Na imagem metafórica da caça não há apenas simplificação, mas uma certa dose de romantismo: a figura do fotojornalista se assemelha à do herói intrépido que não se dobra diante do perigo. (…) Algo que os fotojornalistas (desde Salgado até os ‘pobres’ paparazzi) não mencionam é que o objetivo último e natural da caça é o consumo da presa. E o consumo que está implícito na prática/caça fotográfica não é heróico nem humanista, mas, sim, industrial e programado.”

FLORES, Laura González. Fotografia e Pintura. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Propaganda Kodak, 1913. Courtesy of the Kodak Advertising Collection | George Eastman Legacy Collection | George Eastman House | Rochester, NY.

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No Dobras:

Doutorar | Kodak

Doutorar | Susan Sontag

O que é fotografia? | Italo Calvino

O que é fotografia? A fotografia é diabólica | Julio Cortázar (sobre o Blow up)