DOBRAS VISUAIS

Um pequeno recorte (ou uma visão muito particular) sobre a Documenta (13), por Andréa D’Amato

Geoffrey Farmer: Leaves of Grass, 2012.

O Vento e o Tempo

O vento dá as boas vindas ao visitante na Documenta (13), a mais importante exposição de arte contemporânea do mundo, que acontece de cinco em cinco anos na cidade de Kassel, na Alemanha. O hall de entrada e a  primeira galeria do Fridericianum, museu considerado coração da mostra, abriga a instalação I Need Some Meaning I Can Memorize [The Invisible Pull] , do artista britânico Ryan Gander. Em uma sala ampla e vazia, um invisível sistema de ventilação sopra uma forte brisa. Nenhum som, nenhuma imagem, apenas a ventania. Um trabalho sobre a ausência?… Talvez… Uma simples brisa pode causar estranhamento, porém a mesma brisa pode evocar recordações. De qualquer maneira, a obra nos faz perceber que a arte é capaz de despertar todos os sentidos.

“A confusão é maravilhosa”, defende Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística do evento. A 13° edição da Documenta é diversificada e grandiosa, ocupa mais de 20 espaços públicos em Kassel (desde antigos hospitais a estações ferroviárias) e abrange 4 países, exposições paralelas e simultâneas ocorrem em Kabul (Afeganistão), Alexandria (Egito) e Banff (Canadá). O engajamento político e social permeia a grande maioria dos trabalhos. Guerras, conflitos e morte são temas recorrentes. Desperdício e sustentabilidade também. Para Carolyn, a arte não é feita apenas por artistas, a lista de participantes inclui quase 200 nomes de diversas categorias artísticas (pintores, escultores, fotógrafos, etc, etc, etc…) e além destes, historiadores, filósofos, físicos e ativistas ambientais. Todos refletindo incertezas e impermanências.

Geoffrey Farmer: Leaves of Grass, 2012.

Geoffrey Farmer: Leaves of Grass, 2012.

Geoffrey Farmer: Leaves of Grass, 2012.

Milhares de fotografias recortadas semanalmente durante cinco décadas da revista Life (1935 – 1985) formam a escultura Leaves of Grass do canadense Geoffrey Farmer. O título faz referência a mais célebre coleção de poesias do escritor Walt Whitman. Fotos de artigos, objetos, produtos, políticos, celebridades e outros ícones culturais da época são fixadas individualmente em finas varetas. Meio século da história visual americana se estende por mais de vinte metros nesta colagem tridimensional formando uma espécie de linha do tempo Kitsch. O excesso e o acúmulo de imagens ironizam o domínio da fotografia na representação identidade americana.

William Kentridge: The Refusal of Time, 2012.

O fantástico trabalho do sul-africano William Kentridge é construído em muitas camadas. Desenhos, fotografias, animação, músicas, sons, textos, sobreposições formam a obra The Refusal of Time. Uma delicada narrativa sobre a passagem do tempo. Cinco filmes são projetados em três paredes de um imenso galpão na estação ferroviária. No centro da sala uma estranha máquina de gerar energia, de acordo com a concepção do autor. A sequência de animações retrata a institucionalizacão do tempo. Imagens de relógios sincronizados e mapas se alternam com visões utópicas e explosões, no fim uma apoteótica procissão de sombras segue em direção a um grande buraco negro. O trabalho carrega também uma forte conotação política, faz alusões ao racismo contrapondo paradoxos como poder e opressão.

A dupla canadense Janet Cardiff e George Bures Miller é responsável por uma das criações mais sublimes desta Documenta (13). Passado e presente, real e virtual se entrelaçam no Alter Bahnof Video Walk. Munido de um Ipod o visitante é convidado a seguir um determinado percurso na estação de trem. A voz de Janet orienta o roteiro, os olhos sempre perseguindo as imagens, previamente gravadas, emitidas pela telinha. Bailarinas, bandas e cachorros desfilam no Ipod. Ficção e realidade se mesclam, uma estranha confusão de realidades ocorre. A percepção de tempo e espaço é alterada provacando uma sensação de vivência múltipla.

A mesma dupla assina outra emocionante sound art. Caixas instaladas entre as árvores do Karlsaue Park emitem sons da segunda guerra mundial. O ruído das explosões remetem as imagens dos bombardeios aéreos. A instalação sonora For a Thousand Years é extremamente fotográfica. A cena se torna ainda mais real porque Kassel foi alvo dos ataques.

A fotografia não fala (e nem brilha) sozinha nesta Documenta, sempre que aparece dialoga com outra linguagens. A presença é sutil, mas a fotografia está lá, refletindo incertezas e impermanências. Está na colagem e no acúmulo de imagens, na animação e na passagem do tempo, a fotografia está no som e até no vento.

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Andréa D’Amato é fotógrafa. Nos encontramos no semestre passado na Oficina de Criatividade – Projeto Fotográfico do SESC Pompéia. Quando ela me contou que no percurso de uma viagem de trabalho passaria na Documenta, falamos sobre a possibilidade de escrever sobre suas impressões a respeito da mostra, de obras que de alguma forma nos levam a pensar a fotografia.