DOBRAS VISUAIS

Álbum de Família | Nelson Rodrigues

Lívia Aquino: Álbum de família.

O que é fotografia?

A fotografia deste casal faz parte de uma pequena coleção da minha família. Lembro-me de minha mãe e minhas tias comentando a vida da família por meio dessas fotografias. Criança, eu ouvia os casos e descasos de tios-avôs, primos distantes e um tanto de parentes que só conheço por imagens. Era um ritual que se repetia a cada férias quando íamos visitá-las em Minas Gerais.

Herdei estas fotografias, como já comentei aqui no Dobras. De modo que estas imagens contém para mim essas histórias, independente do quão “verdadeiras” tenham sido.

Esta que escolhi para o texto do Nelson Rodrigues carrega um tanto de dissabores. Reza a lenda que a fotografia foi feita dias após o casamento. O fotógrafo, que viajava até as fazendas para realizar os retratos, precisou esperar um bocadinho já que a noiva trancou-se no quarto por três dias após a cerimônia com medo de ‘consumar o ato’. Minhas tias lembravam da história, ocorrida por volta de 1930, quando ainda eram crianças, com certo pavor e excitação diante do evento em questão – o noivo, cansado de esperar, arrombou a porta do quarto. Podemos imaginar o que veio depois.

Histórias como esta eram relativamente comuns nos interiores onde os pais escolhiam os noivos para suas filhas. Casavam-se ainda meninas, como sabemos.

A peça Álbum de família de Nelson Rodrigues fala sobre a trajetória de uma família, da sua formação à decadência. A cada passagem dos atos, ou mudança de cena, entra uma pontuação que é marcada pela visita da família ao estúdio do fotógrafo.

Destaco aqui uma pequena parte da imagem que permanece gravada em mim sobre essas conversas familiares. Fico sempre com a impressão que o homem da fotografia faz ali um sinal de positivo ao fotógrafo, com se dissesse – enfim, ganhei o jogo e o retrato pode ser feito. Bem rodriguiano.

Lívia Aquino: Álbum de família.

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Tragédia em três atos (1945)

PERSONAGENS

SPEAKER

JONAS – Quarenta e cinco anos, vaga semelhança com Jesus.

DONA SENHORINHA – Esposa de Jonas, quarenta anos, bonita e conservada.

GUILHERME – Filho mais velho do casal. Místico.

EDMUNDO – Adolescente, com alguma coisa de feminino.

GLÓRIA – Quinze anos, espantosamente parecida com Dona Senhorinha.

TERESA – Coleguinha de Glória.

NONÔ – O possesso

TIA RUTE – Irmã de Dona Senhorinha, solteira, tipo da mulher sem o menor encanto sexual.

ATO I

Abre-se o pano: aparece a primeira fotografia do álbum de família, datada de 1900: Jonas e Senhorinha, no dia seguinte ao casamento. Os dois têm a ênfase cômica dos retratos antigos. O fotografo está em cena, tomando as providências técnico-artísticas que a pose requer. Esmera-se nessas providências, pinta o sete; ajeita o queixo de Senhorinha; implora um sorriso fotogênico. Ele próprio assume a atitude alvar que seria mais compatível com uma noiva pudica depois da primeiríssima noite. De quando em quando, mete-se dentro do pano negro, espia de lá, ajustando o foco. E vai, outra vez, dar um retoque na pose de Senhorinha. Com esta cena, inteiramente muda, pode-se fazer o pequeno balé da fotografia familiar. Depois de mil e uma piruetas, o fotografo recua, ao mesmo tempo em que puxa a máquina, até desaparecer de todo. Por um momento, Jonas e Senhorinha permanecem imóveis: ele, o busto empinado; ela, um riso falso e cretino, anterior ou não sei se contemporâneo de Francesca Bertini, etc. Ouve-se, então, a voz do speaker, que deve ser característica, como a de D’Aguiar Mendonça, por exemplo. NOTA IMPORTANTE: O mencionado speaker, alem do mau gosto hediondo dos comentários, prima por oferecer informações erradas sobre a família. O speaker é uma espécie de opinião pública.

SPEAKER

(Já na ausência do fotografo, enquanto Jonas e Senhorinha estão imóveis.)

Primeira página do álbum. 1900. 1 de janeiro: os primos Jonas e Senhorinha, no dia seguinte ao casamento.Ele, vinte e cinco anos. Ela, quinze risonhas primaveras. Vejam a timidez da jovem nubente. Natural – trata-se da noiva que apenas começou a ser esposa. E isso deixa sempre a mulher meio assim. (…)

(Desfaz a pose.Jonas quer abraçar Senhorinha que, confirmando o speaker, revela um pudor histérico.) (…)

Apaga-se a cena do dormitório. Ilumina-se espaço maior e mais central. Sala da fazenda de Jonas. (…) Aparecem, espantadas, duas mulheres que vêem pelos vidros. (…) Dona Senhorinha mais madura do que no retrato, pois já se passaram vinte e tantos anos. Depois de algum tempo, ouve-se o gemido constante de uma mulher que está com as dores do parto numa dependência próxima da casa. Retrato de Jonas na parede. (…)

Apaga-se totalmente o palco central. Ilumina-se o álbum de família. Segunda página. Mesmo fotógrafo, mais velho treze anos. Mesma máquina, mesma mise-en-scène. A família toda: Jonas e Senhorinha, agora, com quatro filhos: Guilherme, Edmundo, Nonô e Glória, esta última no joelho de Senhorinha. Dois meninos de marinheiro; Guilherme, o mais velho, em uniforme colegial. Entra o speaker com a habitual imbecilidade.

SPEAKER

Segunda página do álbum. 1913. Um ano antes do chamado ‘pandemônio louco’. Senhorinha não é mais aquela noiva nervosa; porém, uma mãe fecunda. Do seu consórcio com o primo Jonas, nasceram, pela ordem de idade: Guilherme, Edmundo, Nonô e Glória. E ainda há quem seja contra o casamento!

(Desfaz-se a pose, Jonas beija a esposa na testa e, em seguida, pega a filha no colo.) (…)

ATO II

Terceira página do álbum. Retrato de Glória, na primeira comunhão. De joelhos, mãos postas, etc. O fotógrafo dá a adolescente uma ideia da pose mística que deve fazer! Para isso, ajoelha, junta as mãos, revira os olhos. Depois do quê, levanta-se e contempla o resultado de suas indicações. Já ia tirar a fotografia, quando bate na testa, lembrando-se do livrinho de missa e do rosário; entrega um e outro à menina, que se põe na atitude definitiva. Dona Senhorinha está presente, mas não entra no retrato; apenas acompanha a filha.

SPEAKER

Menina e moça, como muito bem diz o autor quinhentista, Glória recebeu uma esmerada educação. A inocência resplandece na sua fisionomia angelical. Mãe e filha se completam.

(Desfaz-se a pose. Mãe e filha se abraçam, com extremo carinho.) (…)

Apaga-se a cena do álbum. Sala da fazenda. Ninguém no palco. A mulher grávida começa a gemer.

Apaga-se o palco central. Ilumina-se mais uma cena do estúdio fotográfico. Senhorinha e Tia Rute, numa pose falsa como as anteriores, artificialíssima. Desta vez, não intervém o fotografo. Comentários sempre idiotas do speaker. (…)

Desfaz-se a pose das duas; apaga-se o palco.

 

GLÓRIA

(Transportada)

Papai, não. Quando eu era menina, não gostava de estudar catecismo… Só comecei a gostar – me lembro perfeitamente – quando vi pela primeira vez, um retrato do Nosso Senhor… Aquele que está ali, só que menor – claro! (Desfigurada pela emoção.) Fiquei tão impressionada com a SEMELHANÇA!

GUILHERME

Onde é que você viu semelhança?

GLÓRIA

(Fechada no seu êxtase.)

Colecionava estampas… O dia mais feliz da minha vida foi quando fiz a primeira comunhão – até tirei retrato! (…)

ATO III

Começa o 3o ato com mais uma página do álbum, justamente a quinta. Nonô e Dona Senhorinha. Fotografia naturalmente antiga. Nonô é um menino taciturno, excepcionalmente desenvolvido. Dona Senhorinha, formosa e decorativa como sempre. Piruetas do fotógrafo em torno de Nonô, que demonstra hostilidade para com o conceituado profissional. Discreto pânico do fotógrafo. Nonô lembra Lon Chaney Jr.

SPEAKER

Quinta fotografia do álbum. Nono tinha apenas treze anos na ocasião, mas aparentava muito mais. Tão desenvolvido para a idade! Por uma dolorosa coincidência, este retrato foi tirado na véspera do dia em que o rapaz enlouqueceu. (…)

Sexta página do álbum. Jonas numa pose, taciturno, como se estivesse morto por dentro. O fotógrafo faz o diabo para conseguir uma atitude condigna. Mas Jonas parece pétreo. O fotógrafo está injustamente indignado na sua consciência artístico-profissonal. Finalmente, baterá a chapa de qualquer maneira. (…)

Última página do álbum de família: o velho estúdio do conceituado fotógrafo; pose de Edmundo e Heloisa. É evidente que ambos não conseguem simular um bem estar normal. Heloísa, fria, dura, como se o marido fosse realmente o último dos desconhecidos. Ele, fechado também, incapaz de um sorriso. Nesse ambiente conjugal é que o erradíssimo fotógrafo tem que trabalhar. O speaker vai ignorar, de maneira absoluta, o estado psicológico dos jovens esposos. Para ele, Edmundo e Heloísa vivem na mais obtusa felicidade matrimonial.

Apaga-se a página do álbum.

Nelson Rodrigues em Álbum de Família (São Paulo: Círculo do Livro, s.d.)