DOBRAS VISUAIS

Erika Zerwes e a fotografia eloquente de Aleksandr Rodchenko

Alexander Rodchenko: Defilé, Colonne, 1935.

A dissertação de mestrado A Fotografia Eloquente, Arte e política em Aleksandr Rodchenko, 1924-1930, que defendi no departamento de História da UNICAMP em 2008, pretendeu analisar as fotografias produzidas pelo artista russo Aleksandr Rodchenko (1891-1954) e a relação que este afirmava existir entre arte e política. Esta afinidade foi buscada nas tramas internas destas fotografias, e no diálogo entre as imagens e os elementos chaves da cultura política deste período. Para Rodchenko, a arte possuía um papel concreto na transformação do mundo. Como um entusiasta da revolução bolchevique, algumas noções-chave da política revolucionária de 1917 como o progresso e o Novo Homem Soviético, bem como a própria idéia de revolução, fazem parte das reflexões de seu diário, de textos que escreveu para revistas, de ensaios e manifestos. Entre 1924-30, também em suas fotografias nota-se uma utopia marcada por aspirações próprias à arte de vanguarda e à modernidade. Como fotógrafo, Rodchenko engajou-se na reinvenção do fazer e da linguagem fotográficos e explorou sua singularidade técnica. Esta dissertação buscou estudar quais noções de política estavam em jogo na sua produção fotográfica, e as conseqüentes noções de arte, para procurar estabelecer uma relação entre ambas.

Partiu-se de um primeiro momento em que o artista ainda não fotografava, em que transitava, em especial, pela pintura, pela escultura e pelo design. Em 1922, no entanto, ele abdicou da arte “pura” – a pintura de cavalete e a escultura decorativa – por entender que estas representações artísticas não davam mais conta do mundo pós-revolucionário e sua supressão da classe burguesa. Ele passou então a lidar com a imagem técnica: com a fotomontagem, ainda em 1922, e em seguida com a fotografia, a partir de 1924.

Nos três capítulo seguintes da dissertação, analisam-se três séries fotográficas de Rodchenko e as questões e relações que elas suscitam. Inicia-se com o conjunto de retratos que o artista realizou do poeta Vladimir Maiakovski, por terem sido as primeiras fotografias realizadas por Rodchenko ainda em 1924. Deste conjunto depreendem-se questões como a grande importância da reprodutibilidade técnica, a tradição do retrato fotográfico enquanto categoria imagética autônoma, e o rompimento estético que ele empreendeu contra ela, ao fazer uso inovador das possibilidades técnicas do aparato fotográfico. No conjunto de fotografias do prédio em que o artista vivia, na rua Miasnitskaia, em Moscou, ele utilizou pela primeira vez o ponto de vista a partir de ângulos oblíquos. Esta inovação estética estava em grande medida pautada na teoria da lingüística russa, que possuía conceitos como o de estranhamento do familiar e de desnudamento do aparato, formulados por Victor Chlóvski e Roman Jakobson. No quarto e último capítulo, analisa-se o conjunto de imagens sobre pátios de Moscou, realizado de 1926 a 1930. Estas imagens trazem uma maior elaboração da estética dos ângulos oblíquos, trazem a presença de pessoas – porém, na forma de massas ou destituídas de subjetividade – e instauram um olhar sobre a cidade que possui profundo diálogo com a fotografia moderna européia de artistas como o húngaro László Moholy-Nagy.

Para ler:

A Fotografia Eloquente, Arte e política em Aleksandr Rodchenko, 1924-1930

Mestrado em História.

Universidade Estadual de Campinas, 2008.

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Erika Zerwes fez graduação em Filosofia na USP, e mestrado em História na UNICAMP. Atualmente é doutoranda em História na UNICAMP e estuda a relação entre arte e política nas fotografias da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, realizadas pelos quarto fotógrafos que mais tarde viriam a fundar a agência Magnum em 1947: Robert Capa, David Seymour “Chim”, George Rodger e Henri Cartier-Bresson. A proposta é analisar as composições técnicas e estéticas das fotografias, e a partir daí buscar os modos com que estes fotógrafos se propuseram a representar a guerra moderna. Acredita-se que estas imagens ajudaram a estabelecer um paradigma visual para a fotografia documental que é baseado em um engajamento político.