DOBRAS VISUAIS

Da natureza, por Raphael Fonseca

Vórtice

“Oito fotografias horizontais se encontram ladeadas dentro do Centro Cultural São Paulo na exposição Da natureza, de Lívia Aquino. Ao caminhar, percebemos um número maior de paisagens tropicais que acompanha algumas imagens mais áridas. Deserto, canyon e cacto podem ser tidos como contraposição ao verde, cipós e raízes proeminentes. Diferente do que esta descrição pode fazer parecer, não se tratam de registros fotográficos daquilo que foi criado pela deusa Gaia (ou pela Mãe Natureza); três dados se apresentam dissonantes.

Na área de baixo, um elemento circular quebra com estes ângulos retos. Num segundo olhar, sua estranha essencialidade o configura como um punctum fotográfico – trata-se de um ralo. Mas o que diabos este objeto causador de vórtices faz neste conjunto? Após algum tempo de reflexão, uma suspeita e constatação nos lança de modo espiralado para um cano: estamos à frente de registros de viveiros de animais aquáticos. Na sua ausência, fomos colocados em seu lugar e nadamos daqui para ali, presos nesta caixa de vidro às vezes transparente, mas sempre trapaceira que é a arte, que é a natureza e que é a existência.”

A fotografia, esta técnica que um dia foi filha da Ciência e da Verdade (com letras capitais maiúsculas), é colocada a serviço de uma narrativa teatral: a paisagem artificial como palco e quatro cortes que são fendas para esta coxia que é a interpretação do espectador.

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Texto foi publicado no Jornal do Commercio do Rio, na página da Caza Arte Contemporânea e também no blog Gabinete de Jerônimo.

Jornal do Commercio: Rio de Janeiro, 6/7/2012.