DOBRAS VISUAIS

Da natureza, por Daniela Bracchi

Lívia Aquino: Da natureza, 2012.

Da natureza, da fotografia 

Propus para Lívia comentar no Dobras a sua exposição do CCSP. Conhecemos um pouco de suas reflexões por aqui e quando vi Da natureza pude perceber que a série de fotografias imprime não só imagens, mas diálogos com o pensamento sobre a fotografia.

A exposição faz parte do Programa de Fotografia do Centro Cultural São Paulo, que retomou uma iniciativa existente de 1997 a 2001, e que se propõe a “pensar as particularidades e os limites da linguagem fotográfica” [1]. É sem dúvida um objetivo ambicioso que se expressa na exposição coletiva de quatro fotógrafos selecionados e que nos permite ver um panorama de modos distintos de se relacionar com a fotografia enquanto linguagem expressiva.

A série de oito fotografias intitulada Da Natureza torna visível um conjunto de ambiguidades que se desdobram (natural x construído, fotografia x pintura, etc). É em primeiro lugar uma viagem no tempo, pois Lívia resgata um dos últimos modos de representação, anteriores ao nascimento da fotografia, e que buscava fazer ver uma cena realista diante do público [2]. São os dioramas, criados para darem a impressão de profundidade por trazerem uma pintura realista realizada sobre um fundo curvo, que servia como pano de fundo de objetos reais colocados à frente dessa paisagem.

Os dioramas feitos por Daguerre eram apresentados como espetáculos e depois foram apropriados por Museus de História Natural para fazer ver os animais empalhados em seu habitat pintado ao fundo. A própria ideia da natureza feita espetáculo, enquadrada e exposta lado a lado no confortável espaço do museu é evocada aqui. Os dioramas selecionam os elementos da cena e enquadram nosso olhar, tanto quanto o faz um fotógrafo em suas imagens. O que nos chama a atenção é que recuar um pouco o olhar e tentar enquadrar o mundo de um ponto de vista (um pouco mais amplo) pode nos fazer ver a trama desse mundo, o modo como foi construído.

É o que acontece no enquadramento que mostra a fonte de iluminação desses lugares da série. Uma lâmpada fluorescente, daquelas tão conhecidas por iluminar escritórios, aparece no alto de cada uma dessas imagens. O jogo foi revelado para nós e com isso o próprio fotógrafo se transforma naquele que nos faz ver as astúcias com a qual um espetáculo foi construído. O contraste da luz fria com as cores quentes de algumas representações de paisagens desérticas nos coloca os equívocos da tentativa de mostrar um ambiente natural.

Uma cena feita para falar da vida não cessa de mostrar a sua artificialidade nas paredes retas e pintura pouco convincente. É como se dar conta de que somos uma plateia, de que o espetáculo foi criado pensando em comover um público, já que vemos os bastidores.

Nas fotografias da série a ilusão é também dissolvida pelo quadrado da porta dos aquários onde podemos procurar quase em vão pelos animais em exposição. Caminho de saída ou de entrada, é a porta diante de nós que nos aponta para o mundo fora do aquário e nos lembra a artificialidade da construção deste pequeno mundo bioma.

A natureza mostra que tem uma trama, onde quadrados se superpõem até que chegamos a nós mesmos diante dessa paisagem. A pergunta que nos vem a mente nesse ponto é, “o que é a natureza? O que é o natural?”. Desses espaços feitos de cimento, tinta e folhas chegamos à ideia da paisagem como paraíso perdido, lugar de uma eternidade que já não alcançamos com nossas representações. Mesmo combinando dois meios para tentar nos fazer ver a natureza temos ainda aí uma barreira. É só atrás da porta, do lado do invisível, que podemos tentar restituir alguma paisagem perdida que seja natural.

Mas se esse fosse o ponto final das fotografias teríamos imagens sobre as artimanhas de como a natureza se mostra para nós, em espaços como este, feitos para expor a vida animal. Minha impressão é a de que Da natureza vai além e nos fala também do papel da própria fotografia, máquina de fazer mundos, assim como esses aquários. A pintura está aí, não só como fundo das imagens, mas como fundo histórico de um modo de construir representações.

Se partirmos de dentro para fora na imagem temos uma porta, dentro de uma cena de natureza com elementos pintados e fotografados (tudo é representação afinal de contas), por sua vez dentro de uma foto: os mundos se desdobram e a fotografia é a última chave de acesso para o espectador que se depara com essas cenas. Tudo parece ir se tecendo a partir de pensamentos dos quais podemos ver seus rastros por aqui. Afinal, podemos voltar a pensar “O que é fotografia?”, a construção de lugares na paisagem (tema que o Maurício Lissovsky também nos ajuda a pensar), e o nosso modo de ver, que foi sendo formado por uma longa história de propostas sobre os modos de ver, sobre o que é importante ver e como nos relacionar com o que vemos.

Chegar perto dessas imagens, a ponto de ver mesmo a trama do papel de algodão sobre qual a tinta imprime esses mundos construídos, é ver e ver é também pensar.”

[1] Centro Cultural São Paulo. Catálogo da I Mostra Programa de Fotografia 2012/2013.

[2] Para quem se interessa pelo tema da visualidade fundada nos modos de fazer o observador ver: Crary, Jonathan. Techniques of the Observer: On Vision and Modernity in the 19th Century.Massachussets: M.I.T, 1990.

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Texto produzido para o Dobras Visuais.