DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Paul Connerton

Cerimonias comemorativas, Paul Connerton

Os ritos só são atos expressivos em virtude da sua regularidade notória, são atos formalizados e tendem a ser estilizados, estereotipados e repetitivos. (…)

Porque encenar um rito é sempre, num certo sentido, estar de acordo com o seu significado. (…)

O que quer que os ritos demonstrem, impregna também o comportamento e a mentalidade não rituais. Embora delimitados no tempo e no espaço, os ritos são também, por assim dizer, porosos. Consideram-se que fazem sentido, porque tem significado relativamente a um conjunto de outras ações não rituais, para toda a vida de uma comunidade. Os ritos tem a capacidade de conferir valor e sentido à vida daqueles que os executam. (…)

Todos os ritos são repetitivos e a repetição subentende automaticamente, a continuidade com o passado, mas existe uma classe distinta de ritos que tem um caráter calendarizado explicitamente virado para o passado. (…)

A característica que todas (as comemorações) tem em comum, e que as afasta da categoria mais geral dos ritos, é que não implicam apenas a continuidade com o passado, mas reivindicam explicitamente essa mesma continuidade. E muitas delas, nas quais desejo agora fixar a atenção, fazem-no através da reencenação ritual de uma narrativa de acontecimentos que se julga terem decorrido num tempo passado, de modo suficientemente elaborado para incluírem a performance de sequencias mais ou menos invariáveis de atos e declarações formais. (…)

Os tipos de explicação que acabei de passar em revista e aos quais, por uma questão de clareza, chamei explicação psicológica, sociológica e histórica da ação ritual, procuram, todos eles, penetrar além do propósito e significado ostensivos dos ritos, com o objetivo de atingirem o propósito e significado ‘reais’ que se diz jazerem sob a superfície. E isto dá origem à questão de saber se poderemos ter um bom motivo para pensar que os rituais, que são representados como sendo explicitamente comemorativos, tem na verdade a importância, como meios de transmissão da memória social, que os seus participantes reivindicam para eles. (…)

Estamos sujeitos a ser embaraçados por uma tendência característica da maioria das interpretações modernas do ritual, que nos induz a focalizar a atenção no conteúdo e não na forma do ritual. (…)

Tanto o ritual como o mito podem ser vistos, de forma bastante apropriada, como textos simbólicos coletivos. (…)

O ritual é uma linguagem performativa. Um enunciado performativo não fornece a descrição de uma determinada ação. (…) Uma liturgia é uma ordenação de atos discursivos que ocorre quando esses enunciados se concretizam, e só nessas alturas. Se não se realizarem, o ritual não existe. (…)

O ritual é uma linguagem formalizada, os seus enunciados tendem a ser estilizados e estereotipados e a comporem-se de sequencias de atos discursivos mais ou menos variáveis. Os enunciados não são produzidos pelos atores, mas encontram-se já codificados num cânone, podendo por isso ser repetidos com exatidão. Aquilo que é referido no enunciado canônico é referido em sequencias de palavras e de atos que, por definição, já foram realizados antes. (…)

O formalismo da linguagem ritual tem um efeito mnemônico ainda mais evidente. Podemos dizer que uma linguagem é formalizada quando é sistematicamente composta de forma a restringir o leque de escolhas linguísticas disponíveis. Este é sobretudo o caso com os rituais em que muitas opções linguísticas foram abandonadas para que a escolha das palavras, da sintaxe e do estilo seja vincadamente mais restrita do que a linguagem cotidiana. (…)

As cerimonias comemorativas tem duas características em comum com todos os outros rituais: o formalismo e a performatividade. (…)

A temporalidade do mercado e das mercadorias que nele circulam gera uma vivencia do tempo como se este fosse quantitativo e fluísse numa única direção, uma vivencia em que cada momento é diferente do outro em virtude do que vem a seguir e se situa numa sucessão cronológica de velho e novo, de antes e depois. (…)

O que é recordado nas cerimônias comemorativas? Parte da resposta é que uma comunidade é recordada da sua identidade, representando-a e contando-a numa metanarrativa. (…)

A minha tese é que, se a memória social existe, é provável que a encontremos nas cerimonias comemorativas, as quais mostram ser comemorativas (só) na medida em que são performativas. Mas a memória performativa encontra-se de fato, muito mais difundida do que as cerimonias comemorativas, que são – embora a performance lhes seja necessária – altamente representacionais. (…)

CONNERTON, Paul. “Cerimonias Comemorativas”. In: Como as sociedades recordam. Oeiras: Celta, 1999.