DOBRAS VISUAIS

O que pode acontecer entre duas fotografias é brutal

Miguel Rio Branco: A Saxofonista, 1993.

Miguel Rio Branco opera em um espaço localizado entre as imagens, lugar de difícil definição. O sentido de seus trabalhos se constrói de modo fragmentário, na junção de suas fotografias, no processo de montagem e edição. Nada é simples nesse terreno, marcas, cicatrizes e corpos criam metáforas e não se reduzem aos seus limites.

As analogias criadas pelas justaposições das imagens dissolvem os elementos, criando equivalências e tensões entre uns e outros, revelando um sujeito ou um lugar que não se dava a ver naquilo que foi registrado. Miguel Rio Branco fotografa texturas, animais, vultos e restos de uma sociedade e, assim, constrói uma temática que perpassa as questões de seu tempo – cruel, pontual e inevitável.

Essa não é uma fotografia que pretende mostrar algo já evidente, que se poderia ver por aí, é uma história criada por ele. O gesto desse artista é marcado pela possibilidade de distender a potencia do ato fotográfico, suas imagens continuam a acontecer após a tomada, no trabalho da edição – no livro, nas instalações. Quando começou a despontar nos anos 1980 talvez não houvesse nada tão inquietante na fotografia contemporânea brasileira.

Nessa obra o corpo se converte num território onde o homem experimenta a vida na própria pele, sente a dor e o prazer de sua existência. Vive-se com Miguel Rio Branco em um mundo impetuoso e brutal, com a intensidade de uma luz que cega, ou de um escuro que faz enxergar algo.

Não espere encontrar um início ou um fim nessas histórias, elas ocorrem permanentemente nesse fluxo que é a própria vida. Pode-se olhar essa obra como um labirinto, encontrando um trabalho dentro do outro a cada mirada. Neste entrelaçamento, Miguel Rio Branco faz as relações criarem ritmo e significado, destacando esse lugar que descortina entre as imagens.

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Texto publicado na Revista Serafina, na edição dominical da Folha de S.Paulo, 27/05/12.

 

Miguel Rio Branco: Maria Leoncia, 1991.