DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Fausto Colombo

Lívia Aquino: GEH, 2012.

Há dez dias estou pesquisando a Kodak Advertisement Collection no George Eastman Archive | International Museum of Photography and Film em Rochester-NY. No momento, ando imersa em um arquivo que preserva, além desta coleção de propagandas da Kodak no período de 1895 a 1988, informações sobre a empresa e o seu fundador, fotografias e filmes históricos. Vejo o tempo passar por meio destas imagens que ajudaram a criar o hábito e a necessidade de fotografar o mundo. O modo como isso se deu é parte da minha tese de doutorado.

Este Doutorar é sobre a experiência com o Arquivo, é mesmo incrível estar em um lugar cuja intenção é preservar e não nos deixar esquecer de algo. A quantidade de material, a maneira como são guardados, o papel do arquivista, tudo aqui é um procedimento de memória. Tenho lembrado constantemente do livro de Fausto Colombo quando nos fala sobre o arquivo como uma viagem. Segue aqui algumas citações que selecionei.

Lívia Aquino: GEH, 2012.

Arquivos Imperfeitos, Fausto Colombo

Nossa era parece estar dominada pela obsessão da memória. (…)

Alguns aspectos do arquivo:

– A gravação, em primeiro lugar: ou seja, a memorização de um fato em um suporte por meio de uma imagem, que, quando transmitida, restitui o ícone do próprio fato, isto é, o seu aspecto, por assim dizer, sensível e externo.

– Em segundo lugar o arquivamento, ou seja, a tradução do evento em informação cifrada e localizável dentro de um sistema.

– Em terceiro lugar o arquivamento da gravação, que é a tradução de uma imagem-recordação, de um ícone mnemônico em um signo arquivístico e localizável no sistema.

– E por fim, a gravação do arquivamento, isto é, a produção de cópias dos signos já arquivados a fim de evitar-se um possível esquecimento.

A gravação produz imagens-memórias que se apresentam ao conhecimento do espectador pelo seu lado externo, desprovidas de vivencia pessoal e objetivadas em seus suportes materiais. (…)

Todos já terão reconhecido nas formas de memorização catalogadas as videotecas públicas ou principais , os bancos de dados, os pequenos arquivos domésticos, e até mesmo as coleções de objetos que amiúde revelam as secretas “paixões arquivísticas” de alguns. (…) As formas de obsessão mnemônica se sujeitam à lógica da cultura e da técnica contemporâneas, impregnando não só o processo de culturalização coletivo, mas também a vida cotidiana, os modos de pensar, em outras palavras, as convicções pessoais e de grupo. (…)

Gravar e arquivar o nosso passado parece-nos hoje algo de muito necessário, tão indispensável como catalogar cada momento da nossa própria experiência, fotografando as imagens colhidas durante as viagens, gravando em vídeo os momentos da vida de nossos filhos ou os programas televisivos que mais nos parecem dignos de serem “conservados”. (…)

O homem de hoje parede sentir-se protegido do esquecimento. (…)

Os próprios objetos procurados perdem cada vez mais sua objetividade para transformarem-se em signos, indícios de coisas mais distantes: microfichas, microfilmes, e assim por diante. No entanto, entrar num arquivo informático conserva, de um certo modo, a ideia de viagem e por conseguinte de ingresso, com a incontestável e evidente diferença fundamental de que os dados requeridos ou procurados movem-se em direção ao viajante, ao invés de esperarem imóveis e imperturbáveis a chegada deste: entrar num arquivo significa hoje estar sentar diante de uma tela. (…)

O usuário de um arquivo é um viajante sui generis, que atravessa um espaço não fisicamente, mas graças a uma nova capacidade, que consiste em fazer o dado deslocar-se na sua direção. (…)

Existem imagens através das coisas e imagens através das palavras: as primeiras traduzem os argumentos, as segundas, os artifícios expressivos que serão utilizados para expor tais argumentos. (…)

O saber mnemônico informa o mundo, que assume sempre com maior intensidade os contornos da lembrança, da memória especializada e traduzida, do saber como viagem e do conhecimento como descoberta dirigida e desejada. (…)

A única forma que não se repropõe, pelo menos do ponto de vista do acesso, é a do rizoma (ou da rede), dentro do qual os ramos possíveis são infinitos. (…)

Re-ver e re-viver tornam-se assim a mesma coisa. (…)

Diante do vídeo, as imagens do nosso passado que deslizam e se recompõem na tela do televisor, antes de mais nada não são imagens, são o nosso passado: isto é, essas imagens, ao invés de trazerem até nós as nossas recordações, fazem-nos retroceder no tempo. (…)

Por acaso os arquivos não são construídos (desde os seus antecedentes mais remotos, os sistemas mnemotécnicos) contra a possibilidade da perda da lembrança? (…)

Não há memória a longo prazo que se mostre incapaz de esquecimento, sintoma de uma completude apenas ilusória e inatingível. (…)

A lógica arquivística contemporânea tem em si mesma o próprio valor: ela conversa, baseada no pressuposto de que a conservação é necessária. Não é, portanto, o objeto que torna valiosa a sua própria lembrança, é a lembrança que torna valioso o objeto lembrado. (…)

O importante não é mais recordar, praticar a memória, é saber que a recordação está depositada em algum lugar e que sua recuperação é – pelo menos na teoria – possível. (…)

Os arquivos não constituem somente o sinal de uma procuração passada ao social, mas também o sintoma de um novo processo de centralização do sujeito. Confiar a própria memória às lembranças exteriorizadas significa, em suma, tanto confiar a própria identidade aos bancos de dados dos quais não passamos de simples usuários (e por conseguinte colocarmo-nos na posição de “viajantes míopes” do labirinto), quanto constituir sistemas pessoais de memória, files, álbuns de fotografias, coleções de videocassetes, de agendas ou diários, das quais a coletividade é definitivamente excluída, e nas quais se celebra justamente a própria identidade. (…)

A identidade pós-contemporânea é então o mito da recuperação do originário através dos mesmos caminhos que levaram ao seu esquecimento. A metáfora com que iniciamos este livro – o labirinto – volta assim a ser sua proposta central: num universo de corredores povoados de símbolos, o homem pode aspirar somente a construir-se como discurso memorial. Geralmente a desconfiança enraizada na consciência e na memória pessoal leva-o a materializar o seu próprio discurso sempre em novos signos e sempre em novos corredores, colaborando com a gênese do labirinto de cuja constituição já participa. (…)

COLOMBO, Fausto. Arquivos imperfeitos. São Paulo: Perspectiva, 1991.

Lívia Aquino: GEH, 2012.