DOBRAS VISUAIS

O que é fotografia? | Milton Hatoum

Esta seção do Dobras é um exercício contínuo de busca de definições sobre o que pode ser a fotografia. Sempre uma possibilidade já que é desnecessário tentar cercá-la por um único caminho.

Em geral busco diálogos dos textos com os trabalhos de artistas, de novo o exercício. Mas neste post com fragmentos do livro de Milton Hatoum escolhi somente o texto, uma história da matriarca de uma família libanesa. Um escrito sobre fotografia e memória que carrega consigo a grandeza das imagens, um grande ensaio visual.

Apenas inseri na capa do post um restolho do ensaio que publiquei dias atrás, a grafia da palavra ‘photographia’. É disso que trata ‘O que é fotografia?’, das inúmeras fotografias que a fotografia pode ser.

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“Fiquei intrigada com esse desenho que tanto destoava da decoração suntuosa que o cercava; ao contemplá-lo, algo latejou na minha memória, algo que te remete a uma viagem, a um salto que atravessa anos, décadas. (…)

Acordo de manhã ansiosa para contemplar a fotografia dela, como quem apressa os passos para colher uma rosa. Emilie? Sim, às vezes vem a Parisiense e entra no meu quarto para chorar. Nunca sei por quem chora ou o que mais a entristece: a ausência de Hakim? A morte do irmão ou de Soraya? (…)

A casa já fervilhava de gente quando ouvimos os passos no assoalho e o estalido seco de uma porta fechada com violência. Todas as vozes calaram, mas uma mão previdente aumentou o som da vitrola; mesmo assim, ninguém, salvo Emilie, conservou um ar de espontaneidade nos gestos, porque ali todos estavam petrificados, como num retrato de família. (…)

- Naquele tempo eras solteira – observou Esmeralda.

- Solteira, feliz e infeliz – acrescentou Emilie, procurando com os olhos uma moldura oval na parede branca da sala. (…)

Emilie ofegava, e sua voz nervosa e tremula atraiu o interesse de todos pela conversa. Mas ao silêncio que se seguiu, todos olharam para a moldura oval que enquadrava a fotografia de um homem jovem cujo olhar arregalado e sem rumo obrigava o observador a desviar os olhos da moldura e procurar em vão outro objeto fixado na parede da sala, pois na superfície branca não havia nada além da fotografia. (…)

Arminda o considerava generoso e douto, mas cheio de manias, pois colecionava tudo e se interessava por tudo, que nem o Comendador. Além disso, adorava fazer surpresas. Ela remexeu na bolsa, tirou uma fotografia, e então vimos o seu rosto sorridente, pálido e meio assustado no vão da janela, entre vasos com hortênsias.

- Ele me pegou de supetão – disse Arminda, segurando a fotografia.

Emilie se arrependeu de não o ter convidado: o coitado não tinha família aqui, e ia passar o natal sozinho. Mal terminara de dizer que os estrangeiros são sempre bem-vindos, ouvimos as palmas, o boa-noite e o feliz-natal para todos. (…) O visitante cumprimentou um por um, curvando o corpo para beijar a mão das mulheres e espanando com os dedos os cabelos das crianças. Acercando-se: de Arminda, colocou junto ao rosto dela a fotografia que ela ainda segunda, desenrolou a alça do punho e com um gesto felino retirou da caixa o flash e a câmera. Ouvimos o disparo e logo mergulhamos na cegueira estonteante do lampejo que esbranquiçou tudo ao nosso redor. Quando as pessoas e os objetos reapareceram, as duas Armindas ainda sorriam, impávidas e assustadas. Na semana seguinte, o rapaz mostrou a fotografia do rosto da mulher ao lado da fotografia do rosto da mulher, e então dissipamos uma duvida antiga: a de que aquele sorriso não era um sorriso e sim um cacoete adquirido na infância, como revelara nossa vizinha Esmeralda a Hindié Conceição.

Não apenas. a família poveira, mas todos os vizinhos quiseram saber o que acontecera na noite de natal. Já desconfiavam que meu pai não tinha dormido em casa e continuava sumido sem ter deixado vestígio. A vista inesperada do fotógrafo no meio da noite serviu de consolo a Emilie e evitou um constrangimento maior. (…)

Foi através de Domer que conheci a primeira biblioteca da minha vida. Era fornada por oito paredes de livros, que felizmente só conheci anos mais tarde, pois caso contra rio teria me inibido para sempre o habito da leitura que então adquiria. Sua voz era tão grave quanto seu nome, e falava um português rebuscado. (…) Atada num cinturão de couro, pendia de sua cintura uma caixa preta; os que a viam de longe pensavam tratar-se de um coldre ou cantil, e ficavam impressionados com a sua destreza ao sacar sua caixa a Hasselblad ao correr atrás de uma cena nas ruas, dentro das casas e igrejas, no porto, nas praças e no meio do rio. Possuía, além disso, uma memória invejável: todo um passado convivido com as pessoas da cidade e do seu pais pulsava através da fala caudalosa de uma voz troante, açoitando o silêncio do quarteirão inteiro. Mas a memória era também evocada por meio de imagens; ele se dizia um perseguidor implacável de “instantes fulgurantes da natureza humana e de paisagens singulares da natureza amazônica”. Há tempos ele se dedicava a elaboração de um “acervo de surpresas da vida”: retratos de um solitário, de um mendigo, de um pescador, de índios que moravam perto daqui, de pássaros, flores e multidões. (…)

Tu e teu irmão conheceram Dorner. Não sei se naquele tempo foste aluna dele, mas sabes o quanto era distraído. As vezes pensava que a sua distração era uma maneira de se esquivar das pessoas e da realidade que o cercavam; tudo o que ele enxergava era enquadrado no visor da câmera dizia-lhe, troçando, que as lentes da Hassel, dos óculos e as pupilas azuladas dos seus olhos formavam um único sistema ótico. Ele nunca se irritava com essas comparações um tanto aberrantes; respondia-me que ao olhar para a Hassel via seu próprio rosto. E em certas noites calorentas, ao regressar de uma caminhada pela cidade deserta, deparava-se com o seu outro rosto iluminado e embutido num cubo de vidro, onde a Hassel repousava durante a noite, madrugando no morno de uma lâmpada, calor-artificio para afugentar fungos, preservar a nitidez; da lente, e para que o olhar através do visor fosse límpido: triunfo da transparência.

Dorner fotografou Emir no centro do coreto da praça da Polícia. Foi a última foto de Emir, um pouco antes de sua caminhada solitária que terminaria no cais do porto e no fundo do rio. A história desse retrato me contou o próprio Dorner, anos depois, com palavras medidas para não revelar um fato atroz que eu já havia intuído ao ler as cartas de Virginie Boulad. A foto contava o que Dorner não me pôde dizer: o rosto tenso de um corpo que caminhava em círculo ou sem rumo; uma das mãos de Emir desaparecia no bolso da calça e a outra mão acariciava uma orquídea tão rara que Dorner nem atinou ao desespero do amigo. (…)

Naquela época eu ganhava a vida com uma Hasselblad e sabia manejar uma filmadora Pathé. Fotografava Deus e o mundo nesta cidade corroída pela solidão e decadência. Muitas pessoas queriam ser fotografadas, como se o tempo, suspenso, tivesse criado um pequeno mundo de fantasmagoria, um mundo de imagens, desencantado, abrigando famílias inteiras que passavam diante da câmera, reunidas nos jardins dos casarões ou no convés dos transatlânticos que atracavam no porto de Manaus. (…)

Na manha em que avistei Emir no coreto da praça, eu me encaminhava para a moradia de uma dessas famílias que no inicio do século eram capazes de alterar o humor e o destino de quase roda a população urbana e interiorana, porque controlavam a navegação fluvial e o comercio de alimentos. Eu devia fazer um álbum de retratos dessa família e, ainda de manhã, revelar e ampliar os filmes que documentavam uma das minhas viagens as cachoeiras do rio Branco, onde coletei amostras de flores preciosas, mas não tão raras quanto a orquídea que Emir ostentava na mão esquerda. (…)

Ela contemplava o espelho-d’água, quebradiço por agulhadas do chuvisco, quando ouvi a ultima frase do vigia: o olhar não se decide por nada. Percebi, então, que esquecera a Hasselblad no restaurante, e a apreensão do esquecimento se mesclou à certeza de que Emir não seria encontrado com vida. Até aquele instante eu me esforçava para acreditar nos rumores, e tinha os ouvidos aguados para não deixar escapar cada versão que tentava reconstruir o itinerário do meu amigo. Observava, com indiferença, as imersões sucessivas dos homens-rãs, pois a chispa de esperança se dissipou quando me dei conta da ausência da câmera. Até Emilie e o teu tio Emílio notaram o meu assombro. (…)

Não sem um certo arrependimento, eu pensava: por que não levara Emir para a casa dos Ahler? Por que fotografá-Io com a orquídea na mão e deixá-Io vagar, atordoado, a um passo do desastre? Aquelas imagens de Emir ainda vivas na minha memória, estavam registradas no filme da câmera que eu esquecera no La Ville de Paris. O dono do restaurante tinha guardado a Hasselblad e me esperava ansioso. (…)

Passados onze anos, talvez em 1914, Hanna enviou-nos dois retratos seus, colados na frente e no verso de um papel-cartão retangular; dentro do envelope havia apenas um bilhete em que se Iia: “entre as duas folhas de cartão ha um outro retrato; mas este só devera ser visto quando o próximo parente desembarcar aqui. (…) Compreendi, com o passar do tempo, que a visão de uma paisagem singular pode alterar o destino de um homem e torná-lo menos estranho à terra em que de pisa pela primeira vez. (…)

Indaguei-lhe em português sofrível, se conhecia o homem estampado no retrato que repousava na palma de minha mão. – É meu pai – respondeu com uma voz grave, fitando-me os olhos e alheio ao retrato. (…)

Uma espécie de clareira parecia constituir uma interrupção daquele mundo sombrio. inexplicavelmente fitei os dois retratos de Hanna, examinando cada lado do cartão. As duas imagens, que antes pareciam rigorosamente idênticas, agora diferiam em algo; conjeturei que a causa dessa diferença fosse alguma alteração química durante a ampliação. Pensei: duas ampliações de uma mesma chapa revelam sempre duas imagens distintas. Virava o cartão nervosamente, querendo comparar os dois retratos: a claridade tornava-os ainda mais distintos, ressaltando certas diferenças: a curva das sobrancelhas, a saliência dos pômulos, a textura dos cabelos. (…) Sem que ele me apontasse, soube localizar o túmulo de Hanna: era o único desprovido de cruz e de imagens de santos. Só então me lembrei de verificar o retrato entre as duas folhas de cartão. Era um outro retrato de Hanna, ainda jovem, antes de partir; mas parecia também o retrato do seu filho. (…)

Mal esperou que o cumprimentasse e me indagou por onde andavam as fotografias de Emir. Creio que essa pergunta latejava na sua mente ha muito tempo e eu sempre disfarçava quando o assunto rondava aquela manhã do coreto; desconfio que Emilie lhe pediu para que me cobrasse as fotos; ela mesma tentara resgatá-Ias de mim, mas eu sempre inventava uma desculpa ou mudava de assunto e a coisa ficava por isso mesmo. Emílio, teu tio, mandou buscar de Trieste a moldura oval do tamanho de um rosto humano; da Itália vieram também o mármore já lapidado e o cristal ligeiramente côncavo: este fazia parte da moldura e protegeria a foto das interpretes e do limo; foi tão bem fixado à moldura que até hoje não criou fungos; está apenas um pouco embaçado, mas isso é atribuído ao tempo e a um eventual suspiro de indignação dos que, mesmo mortos, não se deixam observar passivamente. Só quando teu pai tocou no assunto e que providenciei as fotografias sem pestanejar; a pergunta dele soou como uma sentença e, além disso, havia a insistência de Emilie. Ela passou meses batendo na mesma tecla: que o túmulo do irmão permanecia inacabado só por minha causa. Tive que ceder, como normalmente fazíamos quando Emilie perseverava; mas não recorri a pratica de fotógrafo, abandonada por um bom tempo. Teria sido doloroso ver Emir emergir lentamente da química, a orquídea na mão bem próxima a lapela, como um coração escuro surgindo de dentro do corpo. Foi um amigo da colônia alemã que fez a ampliação do rosto no tamanho natural, como desejava Emilie. Fez várias cópias, algumas com bastante contraste; as sobrancelhas pareciam dois arcos negros, espessos e contínuos; e os cabelos, quase azulados e bem penteados, não dissimulavam o desespero marcado pelo olhar e pelos sulcos cinzentos que Ihe riscavam a testa. (…)

Pedi que fizesse outras cópias com menos contraste, mas há sempre um estigma, uma marca inextirpável da angústia que ate mesmo a fotografia perpetua. Imaginei, num desses momentos em que a morbidez se interpõe entre a nostalgia e o esforço para que o irreversível se tome possível, imaginei como seria a expressão de Emir ao contemplar o seu próprio rosto multiplicado por uma série de ampliações e qual ele escolheria para satisfazer o desejo de Emilie; esta, ao examinar as treze ampliações, deteve o olhar nas que definiam todos os contornos e detalhes do rosto do irmão. Ela permaneceu alguns minutos silenciosa e serena, embebida pelas imagens, talvez pensando ‘por que esse olhar, esse rosto contraído, essa febre intensa que o jogo de luz e sombra deixa transparecer?’. Deixei-a sozinha com os retratos, ao notar que suas mãos pousavam nos olhos de Emir ou encobriam uma parte do rosto, como se ela quisesse mirá-Io por partes para desvendar alguma coisa que nos escapa ao fitarmos o todo. Emilie me pediu as treze ampliações. Exigiu também uma do corpo do irmão para colocar na moldura encomendada de Trieste. Ela não sabia que eu tinha feito uma trégua à profissão de fotógrafo, só retomada ao voltar de uma demorada viagem ao interior do Amazonas. Pouco tempo depois mandei as favas o laboratório e o material fotográfico. (…)

O que me fez pensar nisso foi a coincidência entre certas passagens da vida de outras pessoas, que mescladas a textos orientais ele incorporava à sua própria vida. Era como se inventasse uma verdade duvidosa que pertencia a ele e a outros. Fiquei surpreso com essas coincidências, mas, afinal, o tempo acaba borrando as diferenças entre uma vida e um livro. E, além disso, o que surpreende um homem hoje devera surpreender, algum dia, toda a humanidade. Pensando também na fotografia de Emir, cogitei que aquela imagem protegida por uma lamina de cristal pode evocar um morro de Manaus e os do mundo inteiro. (…)

Após a morte de Emir, Dorner partiu para uma viagem de anos. Eu o conheci no natal de 1935, e desde então fiquei maravilhado com os álbuns de fotografias e desenhos que ele não cansava de mostrar as crianças e ao meu pai. Era um colossal arquivo de imagens, com rotas de viagens e mapas minuciosos traçados com paciência e esmero sempre que recebia elogios e estímulos, observava com humildade: ‘Há erros clamorosos nesta ilustração de aventuras, mas creio que todo viajante que procura o desconhecido convive com a hipótese feliz de cometer enganos’. Anos mais tarde ele tentou sem êxito ser professor de história da filosofia no curso de direito, embora sua paixão secreta fosse a botânica. Não foram poucos os dias da minha adolescência que passei na casa dele. Domer tinha o prazer insaciável de revelar todos os documentos que acumulara ao longo da vida. (…)

Aos que Ihe perguntavam se realmente havia mudado de profissão, respondia: ‘Apenas alterei o rumo do olhar; antes, fixava um olho num fragmento do mundo exterior e acionava um botão. Agora é o olhar da reflexão que me interessa’. (…)

Não apenas por amor ao irmão ela fez tudo para conseguir a fotografia feita por Dorner. Porque os indícios do estranho comportamento de Emir estavam estampados na única imagem do seu rosto naquela manha que findava. Emilie queria a foto para si, receosa de que a alucinação do irmão fosse contemplada pelos olhos da cidade. Ainda hoje lembro do negativo seis por oito, enrolado numa folha de papel de seda, que encontrei dentro de sua veste branca cuidadosamente arrumada no fundo do baú forrado de veludo negro. (…)

Nunca me escreveu uma linha, mas trocávamos fotos por correspondência, sabendo ser essa a única maneira de preservar uma idolatria a distancia. A última frase que me disse no finzinho daquela tarde foi: ‘Guardo dentro de mim teus olhos’. Enviou-me fotografias durante quase vinte e cinco anos, e através das fotos eu tentava decifrar os enigmas e as apreensões de sua vida, e a metamorfose do seu corpo. Soube da morte do meu pai ao receber uma fotografia em que ela estava sentada na cadeira de balanço ao lado da poltrona coberta por um lençol branco, onde meu pai costumava sentar-se ao lado dela nas manhãs dos domingos e feriados. No dedo da mão esquerda vi dois anéis de ouro, e os olhos negros brilhavam por trás do véu de tule que escondia a metade do rosto. Foi a penúltima fotografia criada por ela, há uns oito anos. Pouco tempo depois da morte do meu pai, recebi as duas últimas, no mesmo envelope; numa delas, via-se no primeiro plano o seu rosto ainda sem rugas, com a cabeça envolta por uma mantilha de fios prateados; talvez por causa da intensidade do flash ou da profusão de chamas das velas e círios que ondulavam em volta de seu corpo, a mantilha e as mechas de cabelos se espalhavam sobre a testa e escorriam nos ombros como folhas de cardo fosforescentes. Era um rosto suavemente maquilado, e na sua expressão conviviam a serenidade implacável e a postura soberana dos rostos esculturais das santas embutidas em nichos com tampa de cristal, perfilados nas laterais da nave da igreja cujas portas se abrem para o porto e são iluminadas pelo sol da manha. O rosto de minha mãe e os das santas, os círios, as chamas e os nichos, tudo aparecia com um esmero assombroso de detalhes. Datada de 5 de junho, a única foto colorida que me foi enviada veio emoldurada num retângulo de pape! Schoeller de textura marmórea, e levava no angulo inferior direito a marca d’água do laboratório fotográfico dos irmãos Kahn.

A outra fotografia, tão diferente daquela, enquadrava Emilie no centro do pátio cercado por um jardim de Delícias. Quase tudo naquela imagem me remetia à tarde já remota em que Ihe anunciei minha decisão de partir. Identifiquei o mesmo vestido de seda pura com florões negros bordados à mão, que se ajustava ao seu corpo ainda esbelto, e também ao luto que Ihe impunha a morte recente do marido. Sentada na mesma cadeira de vime, ladeada por uma cadeira idêntica um cujo espaldar me recostei para sentir a fragrância do almíscar, eu contemplava aquela imagem como quem contempla o álbum de uma vida, construída de páginas transparentes, tecidas durante um sonho. Ao olhar para a foto, era impossível não ouvir a voz de Emilie e não materializar seu corpo no centro do pátio, diante da fonte, onde fios de água cristalina esguicham da boca dos quatro anjos de pedra, como as arestas líquidas de uma pirâmide invisível, oca e aérea. Se eu não tivesse olhado para aquela fotografia, poderia abstrair todas as outras, fechar os olhos a todos os retratos enviados para mim ao longo de tantos anos, ou simplesmente recordar através das imagens algo fugidio, que escapa da realidade e contraria uma verdade, uma evidencia. Porque era a revelação de um momento real e de uma situação palpável o que mais me impressionava na fotografia. Sentia-me ali, juntinho de Emilie, ocupando a outra cadeira de vime, atento ao seu olhar, à sua voz que não me interrogava, que aparentava não relutar que eu fosse embora para sempre. A voz e a imagem me fazem recordar um mundo de desilusões, onde um rosto sombrio se cobre com um véu espesso enunciando uma morte que já iniciara. (…)

Por alguns minutos não falamos nada. Então, aproximei-me de uma mesa onde havia um caderno aberto, um calendário, e a fotografia em que Soraya Ângela posava (ou repousava) ao lado da estátua. Ela notou que eu olhava para a foto. (…) Não ousei fazer perguntas. Prestava atenção ao que ela dizia, observando-a falar sem tirar os olhos da fotografia da criança ao lado da estátua. Lembro que fizera a foto de longe, e a ampliação oito por doze acentuava a distância, dissolvendo a nitidez dos rostos. A cor do açafrão do rosto de pedra transformara-se num cinza escuro que contrastava com o cinza mais sóbrio do rosto quase de perfil de Soraya Ângela. Essa imagem, que parecia sustentar a voz de minha irmã, era a última chispa de fogo que anima a voz do pescador, afastando-o do medo e da culpa que o envolveu a noite eterna. (…) Fiz, então, urna reflexão que me ajudou a calar a ânsia de comentar um assumo que me desgostava: todo este tempo em que trocamos poucas palavras e alguns olhares acabou nos aproximando, pois o silêncio também participa do conhecimento entre duas pessoas. Talvez ela não quisesse mais falar nisso, e o fato de ter desviado os olhos da fotografia insinuava uma mudança de assunto. (…)

Uma enxurrada de estudantes da faculdade de Direito desceu as escadarias, cruzou o portão e veio juntar-se aos turistas que já engatilhavam câmeras, e com os olhos no visor ajoelhavam-se, rastejavam, e trepavam nas árvores para surpreender o arbusto do alto: talvez, visto de cima, o homem desaparecesse, ou sua cabeça se confundisse com as cordas e os animais. Eu me deslocava, me aproximava e me distanciava dele, com o intuito de visualizar o rosto; queria descrevê-Io minuciosamente, mas descrever sempre falseia. Além disso, o invisível não pode ser transcrito e sim inventado. Era mais propício a uma imagem pictórica. Espátulas e tintas, massas de cores trabalhadas com movimento bruscos e incisivos podiam captar algo que transparecia entre os cachos de cabelos e uma cortina de lianas que terminavam no emaranhado de cordas; no resto corpo, quase não Ihe sobrava espaço para a pele: a poeira, uma crosta de pó imundo formava urna espécie de carapaça parda, e a sua roupa, além dessa armadura de imundícies, consistia numa tira de estopa entre as pernas. (…) Mesmo assim. os turistas insistiam: após um enquadramento feito de muito perto, tentando encontrar um ângulo para fixar a marcha do homem, lançavam-Ihe moedas e cédulas: o preço para perpetuar a visão do estranho. (…)

Tudo parecia amontoado nos cantos do cofre, mas, na confusão aparente, o foco de luz e a voz de Emilie aclaravam a desordem: aqui estão os álbuns da infância dos meus filhos, ali as fotografias de Chipre e Marselha feitas durante a nossa viagem ao Brasil, e naquela caixinha as cartas enviadas por Soeur Virginie; em meio às paginas do Velho Testamento ela guardava como relíquias as pétalas secas de uma orquídea que um enfermo indigente Ihe ofereceu no dia do desaparecimento de Emir. (…) As pétalas estavam amareladas como o retrato de casamento que ela retirou de dentro da Bíblia com as mãos trêmulas. (…)

O pouco que durmo é para sonhar – disse no domingo passado, enquanto arrumava fotografias e cartas, e remexia sem parar os objetos mofados dentro de um baú. (…) Depois falava no teu tio Hakim, que ficou homem sem que ela conhecesse o rosto do homem, pois saíra de Manaus com pouco mais de vinte anos, e desde então enviara-lhe retratos e cartas, mas tudo isso vale menos que uma rápida troca de olhar. (…)

Depois me pedia para ler as cartas do filho ausente, enquanto ela mirava os retratos de ambos no álbum aberto repousado no colo. O irmão, morto ainda jovem, era muito parecido ao filho que foi morar no sul; e olhando para as duas fotos juntas, a semelhança chegava a incomodar: pareciam sorrir o mesmo sorriso. (…)

Do alpendre de sua casa ela contempla a copa do jambeiro e os janelões do quarto do sobrado, cerrados para sempre. O olhar torna ínfima a distância entre as duas casas, e, no silêncio do olhar, a memória trabalha. A mulher não gesticula mais, não se levanta para me abraçar ou beijar, apenas se entrega ao choro quase silencioso que também dialoga com a paisagem recortada e ensolarada, onde tudo é também silencioso, mas sem o olhar e a memória. (…)

Em certos momentos da noite, sobretudo nas horas de insônia, arrisquei várias viagens, todas imaginárias: viagens da memória. (…)”

Milton Hatoum em Relato de um certo Oriente [São Paulo: Companhia das Letras, 2008].

One Comment

  1. Annaline
    11/04/2012

    Muito bom! Obrigada por compartilhar.

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