DOBRAS VISUAIS

Doutorar | Susan Sontag

Corinne Vionnet: Photo Opportunities.

Na caverna de Platão, Susan Sontag

As primeiras câmeras só eram operadas pelos inventores. Uma vez que não existiam fotógrafos profissionais, não existiam amadores, e tirar fotos não tinha uma utilidade social clara, tratava-se de uma atividade gratuita, ou seja, artística. (…)

A fotografia não é praticada pela maioria das pessoas como arte, é sobretudo um rito social, uma proteção contra a ansiedade e um instrumento de poder. (…)

A fotografia se desenvolve na esteira de uma das atividades modernas mais típicas: o turismo. Pela primeira vez na história, pessoas viajam regularmente, em grande numero, para fora de seu ambiente habitual, durantes breves períodos. Parece decididamente anormal viajar por prazer sem levar uma câmera. As fotos oferecerão provas incontestáveis de que a viagem se realizou, de que a programação foi cumprida, de que houve diversão. As fotos documentam sequencias de consumo realizadas longe dos olhos da família, dos amigos, dos vizinhos. Mas a dependência da câmera, como o equipamento que torna real aquilo que a pessoa vivencia, não se enfraquece quando as pessoas viajam mais. (…)

Um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também uma forma de recusá-la – ao limitar a experiência a uma busca do fotogênico, ao converter a experiência em uma imagem, um suvenir. Viajar se torna uma estratégia de acumular fotos. A própria atividade de tirar fotos é tranquilizante e mitiga sentimentos gerais de desorientação que podem ser exacerbados pela viagem. Os turistas, em sua maioria, sentem-se compelidos a pôr a câmera entre si mesmos e tudo de notável que encontram. Inseguros diante de uma reações, tiram uma foto. Isso dá forma à experiência: pare, tire uma foto e vá em frente. (…)

A fotografia tornou-se um dos principais expedientes para experimentar alguma coisa, para dar uma aparência de participação. Um anúncio de página inteira mostra um pequeno grupo de pessoas de pé, apertadas umas contra as outras, olhando para fora da foto, e todas, exceto uma, parecem espantadas, empolgadas, aflitas. O único que tem uma expressão diferente segura uma câmera junto ao olho; ele parece seguro de si, quase sorrindo. Enquanto os demais são espectadores passivos, nitidamente alarmados, ter uma câmera transformou uma pessoa em algo ativo, um voyeur: só ele dominou a situação. O que veem estas pessoas? Não sabemos. E não importa. É um Evento: algo digno de se ver – e portanto digno de se fotografar. O texto do anúncio, letras brancas ao longo da faixa escura que corresponde ao terço inferior da foto, como notícias que chegam por uma máquina de teletipo, consiste em apenas seis palavras: “Praga… Woodstock… Vietnã… Sapporo… Londoderry… Leica.” Esperanças esmagadas, farras de jovens, guerras coloniais e esportes de inverno são semelhantes – igualados pela câmera. Tirar fotos estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos. (…)

Uma foto não é apenas o resultado de um encontro entre um evento e um fotografo; tirar fotos é um evento em si mesmo,  dotado dos direitos mais categóricos – interferir, invadir ou ignorar, não importa o que estiver acontecendo. Nosso próprio senso de situação articula-se, agora, pelas intervenções da câmera. A onipresença de câmeras sugere, de forma persuasiva, que o tempo consiste em eventos interessantes, eventos dignos de ser fotografados. (…)

Após o fim do evento, a foto ainda existirá, conferindo ao evento uma espécie de imortalidade (e de importância) que de outro modo ele jamais desfrutaria. (…) O fotografo se põe atrás de sua câmera, criando um pequeno elemento de outro mundo: o mundo-imagem, que promete sobreviver a todos nós. (…)

Tal qual um carro, uma câmera é vendida como uma arma predatória – o mais automatizada possível, pronta para disparar. (…) É tão simples como virar a chave de ignição ou puxar o gatilho. (…)

Como armas e carros, as câmeras são máquinas de fantasia cujo uso é viciante. Porém, apesar das extravagâncias da linguagem comum e da publicidade, não são letais. (…) Ainda assim, existe algo predatório no ato de tirar uma foto. Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se veem, ao ter delas um conhecimento que elas nunca podem ter; transforma as pessoas em objetos que podem simbolicamente possuídos. Assim como a câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato sublimado – um assassinato brando, adequado a uma época triste e assustada. (…)

No fim, as pessoas talvez aprendam a encenar suas agressões mais com câmeras do que com armas, porém o preço disso será um mundo afogado por imagens. Um caso em que as pessoas estão mudando de balas para filmes é o safari fotográfico, que está tomando o lugar do safári na África Oriental. Os caçadores levam Hasselblads em vez de Winchesters; em vez de olhar por uma mira telescópica a fim de apontar um rifle, olham através de um visor para enquadrar uma foto. Na Londres do final do século XIX, Samuel Butler se queixava de que havia “um fotografo em cada arbusto, rondando como um leão feroz, em busca de alguém que possa devorar”. O fotografo, agora, ataca feras reais, sitiadas e raras demais para serem mortas. As armas se metamorfosearam em câmeras nessa comédia séria, o safári ecológico, porque a natureza deixou de ser o que sempre fora – algo de que as pessoas precisam para se proteger. Agora, a natureza – domesticada, ameaçada, mortal – precisa ser protegida das pessoas.  Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos fotos. (…)

Assim, na catalogação burocrática do mundo, muitos documentos importantes não são válidos a menos que tenham, coladas a eles, uma foto comprobatória do rosto do cidadão. (…)

A fotografia dá a entender que conhecemos o mundo se o aceitamos tal como a câmera o registra. (…)

O limite do conhecimento fotográfico do mundo é que, conquanto possa incitar a consciência, jamais conseguirá ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento adquirido por meio de fotos será sempre um tipo de sentimentalismo, seja ele cínico ou humanista. Há de ser um conhecimento barateado – uma aparência de conhecimento, uma aparência de sabedoria; assim como o ato de tirar fotos é uma aparência de apropriação. (…)

A fotografia nos faz sentir que o mundo é mais acessível do que é na realidade. (…)

As sociedades industriais transformaram seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental. (…)

Não seria errado falar de pessoas que têm uma compulsão de fotografar: transformar a experiência em si num modo de ver. Por fim, ter uma experiência se torna idêntico a tirar dela uma foto, e participar de um evento público tende, cada vez mais, a equivaler a olhar para ele, em forma de fotografia. Mallarmé, o mais lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, tudo existe para terminar numa foto.

SONTAG, Susan. “Na caverna de Platão”. In: Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Para conhecer mais: Corinne Vionnet.

Corinne Vionnet: Photo Opportunities.

Corinne Vionnet: Photo Opportunities.

Corinne Vionnet: Photo Opportunities.

Corinne Vionnet: Photo Opportunities.