DOBRAS VISUAIS

Desempacotando minha biblioteca | Daniela Bracchi

Villard de Honnecourt: Leão e Porco Espinho, ca.1230. “Saibam que foi desenhado do natural”.

Por Daniela Bracchi

Quando tinha 9 anos, meu pai comprou um apartamento já com uma biblioteca dentro. O antigo dono vendeu a morada com livros e tudo. Foi assim que conheci as enciclopédias Barsa e Mirador. Mas aquela que mais gostava era a enciclopédia de história da arte. Era mesmo um passatempo ficar olhando aqueles quadros góticos e medievais e imaginar aqueles personagens tomando vida. Depois houveram outras mudanças e esses livros ficaram para trás, mas as imagens foram definindo meus interesses.

Com o tempo, a minha pequena biblioteca se juntou aos vários livros do marido e fui comprando livros como nunca, investindo na pesquisa sobre fotografia. Em novembro de 2010, depois de algumas mudanças pela cidade na errância do aluguel, compramos um apartamento e a biblioteca ganhou um cômodo só para ela. Hoje são mais de 800 livros (foi o marido que se divertiu contando) e devo aqui escolher um para desempacotar.

Vou me dar o direito de escolher um livro teórico sobre arte. Afinal, foi Arte e Ilusão de Ernst Gombrich que me colocou de vez no mundo da análise da fotografia. No início, em 2000, ele era uma xerox grifada, marcada, anotada. A mensagem mais importante que esse livro passou para mim parece simples: a arte, e especialmente a fotografia, é uma construção. Por isso existem regras para construir a impressão de semelhança tão forte que a fotografia traz, assim como o observador também tem sua parte na invenção de narrativas visuais e etc. Os limites dessas questões eu só fui pensar com clareza uns 10 anos depois de conhecer esse livro, mas foi ele o pontapé inicial.

Gombrich é um dos teóricos que mais admiro, porque tem uma escrita tão fluida e nos persuade tão bem. A sua História da Arte foi uma leitura de férias, na praia, lá por 2003. Um deleite que me fazia lembrar daqueles quadros da enciclopédia de história da arte que se faziam entender cada vez mais à medida que avançavam as páginas do livro. Alguns professores dizem que Barthes é o teórico no qual devemos nos inspirar para escrever de modo agradável. Para mim, esse escritor é Gombrich.

Então minha biblioteca começou a se formar com Gombrich e afins. Os seus amigos de estante são gente como Rudolf Arnheim, Nelson Goodman, Henrich Wollflin e Umberto Eco. Esse foi o início do caminho de pesquisa e depois foram se formando prateleiras mais específicas do povo francês de semiótica da fotografia. Aí reina um homem, Jean-Marie Floch, e duas mulheres que tive a honra de conhecer: Anne Beyaert e Maria Giulia Dondero. São esses os principais companheiros de reflexões. Às vezes eles me confundem, instigam, apóiam e empolgam. Não há solidão na minha biblioteca, e sempre chega mais gente para a festa.”

Referência:

GOMBRICH, E. H. Arte e Ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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Daniela Bracchi é fotógrafa e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP com a dissertação A Fotografia em David Lachapelle. É doutoranda em Semiótica na USP onde pesquisa os diálogos entre fotografia e pintura. Lecionou fotografia no SENAC de 2009 a 2011 e desde 2008 é professora na graduação de Moda do Istituto Europeu di Design.